03/10/2006

Esalq-USP pesquisa aceitação de merenda escolar

A merenda escolar, programa financiado pelos governos federal, estadual e municipal, tem como objetivo atender 15% da recomendação nutricional diária de alunos da rede pública de ensino, de forma balanceada e dentro dos hábitos alimentares da criança ou do adolescente. A alimentação escolar oferecida normalmente apresenta característica de refeição principal e mesmo após o processo de municipalização e adoção de novos modelos do programa, ainda são encontradas dificuldades para atender às expectativas dos alunos.

Uma pesquisa realizada pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (USP/ESALQ) em parceria com a Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Universidade do Paraná, Prefeitura Municipal de Piedade, ouviu 1.276 alunos dos municípios de Piracicaba (SP), Campinas (SP), Seropédica (RJ), Toledo (PR) e Piedade (SP) no intuito de levantar dados quanto a aceitação da merenda escolar que é oferecida a eles. O banco de dados e a análise dos resultados foram realizadas na ESALQ, que elaborou os instrumentos metodológicos e, ainda, treinou o pessoal dos municípios envolvidos. A coordenação foi das professoras Gilma Lucazechi Sturion e Marina Vieira da Silva, do departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Escola.

A pesquisa foi realizada com o objetivo de identificar alguns dos condicionantes da adesão dos escolares ao Programa de Alimentação Escolar. O primeiro passo foi observar, em todos os municípios, qual era o índice de atendimento efetivo, quer dizer, dos alunos presentes nas escolas, quantos tomavam a merenda. No exame dos dados observou-se que 83,1% do total de alunos que responderam a um questionário consomem a merenda pelo menos uma vez por semana, enquanto que outros 17% nunca aderem ao programa.

A maior rejeição ao Programa incide sobre os alunos de Campinas (SP), cerca de 25% deles declarou que não participa do mesmo, enquanto que a maior adesão ocorreu no município de Toledo, onde apenas 5% deles rejeitam a merenda. Constatou-se, ainda, que a distribuição percentual dos alunos, quanto ao consumo da alimentação escolar, de acordo com o município onde residem, não é homogênea.

Vale destacar que 40,8% dos alunos fazem a refeição numa freqüência de 4 a 5 dias por semana, 34,6% de 2 a 3 vezes por semana e cerca de 7,3% somente uma vez por semana. Mesmo dentre os alunos que participam do programa, 66,2% declararam rejeitar algumas preparações com destaque para as sopas e composições tipo prato único. Segundo a pesquisadora Gilma, "notou-se que a preparação dos cardápios implementados não atendia às expectativas dos alunos. Normalmente os alunos optam pela refeição gratuita só quando esta atende às suas preferências".

Aproximadamente 33,6% dos escolares da amostra pertencem a famílias cuja renda familiar per capita não atinge o salário mínimo. "O nível de escolaridade do chefe da família é um importante indicador socioeconômico, pois se relaciona com a renda. Dessa forma a maior adesão à merenda recai entre alunos cujos pais possuem menor escolaridade", declara a pesquisadora.

Os motivos para a recusa da merenda escolar mais citados foram: "não gosto" (40,1%), "não tenho vontade/fome" (30,4%), "trago lanche de casa" (5,5%), "compro lanche na cantina" (6,3%) e "tenho nojo" (5,9%).

As condições de distribuição das refeições também foi levantada na pesquisa e de um modo geral a maioria dos alunos aprova, porém 25,5% reclama das características do refeitório e 20% rejeita talheres, copos e canecas, que são plásticos. Além disso, a maioria dos alunos alega que não há bancos e mesas suficientes para fazer a refeição e, em escala menor, as reclamações incidem sobre o barulho desses refeitórios e o pouco tempo que eles possuem para comer.

O uso da colher para comer alimentos sólidos indicou uma rejeição de 26,3%, enquanto que o material dos copos e canecas são repelidos num percentual de 21,9%, que enfatizam o odor que eles apresentam com o passar do tempo. A rejeição ao material dos pratos, que é de polipropileno, alcançou um índice de 59,9%. Já o repúdio às más condições de higiene atingiu uma relação de 13,4% .

No que diz respeito à influência exercida pela presença da cantina na escola sobre a frequência de consumo da alimentação escolar, a maioria dos alunos declarou que adquire alimentos na cantina mesmo quando consomem a merenda. "Esse comportamento revela que os alunos complementam as refeições recebidas com uma guloseima ou um refrigerante, por exemplo", ressalta a professora. Por outro lado, outros compram o lanche completo na cantina, optando por salgados fritos ou assados, salgados tipo chips, refrigerantes e guloseimas. Nesse caso Gilma lembra que "nem sempre essa escolha é a mais adequada. Uma situação similar acontece com 70% dos alunos que adquirem esses alimentos em padarias, supermercados e bares para lanchar na escola".

Os dados completos desse trabalho de campo encontram-se em parte de um módulo da pesquisa "Análise do Impacto das Novas Diretrizes Estabelecidas pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar na Operacionalização e Atendimento do Público Alvo", que teve início em 2004. "Estudos são necessários para identificar, em que medida, a inadequação dos cardápios contribuem para a rejeição e, também, que outras motivações podem ser identificadas que justifiquem os resultados", ressalta a pesquisadora.

"Os gestores dos programas onde a adesão é baixa, têm conhecimento do fato. A melhoria dos cardápios para o atendimento às expectativas dos alunos depende de recursos financeiros, não disponíveis na quantidade necessária. Já no caso de adesão total dos alunos ao programa, pode inviabilizar, em muitos municípios, até o cardápio atual, tanto por falta de recursos financeiros como por falta de recursos operacionais. As unidades escolares deveriam contar com refeitórios exclusivos para as refeições, independentes do recreio. Os utensílios empregados (colheres, pratos e canecas plásticas) são adotados por questão de segurança. Ações educativas também são necessárias visando conscientizar os alunos e seus familiares sobre alimentação saudável. A pesquisa demonstrou que mesmo tendo a opção de adquirir alimentos em estabelecimentos externos a unidade escolar, a escolha recai sobre guloseimas", conclui a professora. (USP)

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