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O potencial do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de reorganizar o ensino médio e de facilitar o acesso à universidade é mais importante para o país que os erros ocorridos durante a edição de 2010 da prova. A avaliação é do coordenador geral da Campanha Nacional pela Educação, Daniel Cara, que concedeu entrevista ao Portal Aprendiz.
“O impacto do Enem vai ser verificado daqui a dez anos, quando o ensino médio estiver embasado em mais estímulo ao raciocínio, ao autodidatismo e à capacidade dos estudantes de terem um olhar crítico”, afirma. “As universidades federais tinham um vestibular muito difícil para um aluno do Norte ou do Nordeste passar. Com o Enem eles podem ingressar fazendo apenas uma prova e isso democratiza o acesso”.
O Enem foi aplicado em 6 e 7 de novembro para 3,3 milhões de estudantes. Ocorreu uma série de problemas, como cabeçalho de gabarito trocado, provas grampeadas de forma errada, uso de celular durante o exame, falta de informação sobre proibição de lápis e borracha e suspeita de vazamento do tema da redação.
No dia seguinte ao término do exame, a Justiça Federal do Ceará, a pedido do Ministério Público Federal, suspendeu o exame em todo o país, contra uma das propostas levantadas de reaplicar a prova para os prejudicados. Na última sexta-feira (12/11) o Tribunal Regional Federal da 5ª Região derrubou a decisão que impossibilitava o prosseguimento do Enem. O Ministério da Educação (MEC) ainda estuda como prosseguirá para não prejudicar os jovens.
Portal Aprendiz – Os erros do Enem são compreensíveis tendo em vista a escala que a prova tomou?
Daniel Cara – Os erros podem acontecer pela envergadura do exame e pela importância que ele adquiriu. Porém, o acerto na nova lógica do Enem é mais importante do que os erros que ele vem apresentando, tanto na edição passada como nessa. É claro que com a importância que o Enem adquiriu, qualquer problema pode prejudicar milhares de alunos, mas o grande mérito do exame é induzir um novo currículo para o ensino médio. É uma nova forma de pensar essa etapa do ensino no Brasil, baseado na ideia que o ensino médio deve estimular mais o raciocínio do que a passagem de conteúdo.
Aprendiz – Quem são os responsáveis pelos problemas?
Cara – O Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pela prova] tem responsabilidade e deve corrigir a prova para as próximas edições. É uma questão de aprimorar o exame, inclusive usando mais tecnologia da informação. Há a possibilidade de no futuro utilizar computadores, o que resolveria tanto os problemas do ano passado como os desse. Agora o Inep deve procurar soluções, trabalhar na perspectiva de fortalecer essa nova concepção e de corrigir os problemas. O que a gente não pode é usar a régua dos erros para mensurar a qualidade do Enem. Ele é muito mais do que os erros que aconteceram.
Aprendiz – Você tem outras sugestões para evitar erros além do uso de computadores?
Cara – O Inep deve estabelecer grupos de trabalho fixos para o Enem, que façam um acompanhamento mais próximo das empresas contratadas, além de maior cuidado nas revisões. Mas eu acredito, sinceramente, que o próximo ano vai ser um ano de tranquilidade. Ao que tudo indica o número de alunos prejudicados é menor do que se esperava.
Aprendiz – A proposta de aplicar mais de uma prova por ano seria uma solução?
Cara – Se a aplicação de mais de uma prova reduzisse a pressão sobre o Enem e o ajudasse a cumprir sua função e a otimizar sua estrutura, acho que valeria a pena. Caso contrário, eu acho que não é uma solução plausível.
Aprendiz – Países como China e Estados Unidos realizam grandes processos de avaliação semelhantes ao Enem. Acontecem erros também? Em que proporção?
Cara – Todos os países tiveram erros no processo de estabelecimento desse tipo de exame. Até hoje eles têm problemas, como erros na prova, no gabarito, e casos de alunos que não conseguem fazer o exame porque não recebem os locais de prova. Ocorre todo tipo de problema logístico. Porém, como são exames que já estão estabelecidos há muitos anos, eles acabam tendo maior credibilidade e maior capacidade de resolução dos seus problemas. O Enem é muito novo, é um exame que tem praticamente uma década, então é natural que ele tenha que ser aprimorado.
O que acontece no Brasil é que como o déficit nas matriculas de ensino superior é muito alto, o Enem passou a ser muito importante para democratizar o acesso à universidade. O Enem é tão grande que o tamanho do impacto dele determina a entrada ou não de um jovem de escola pública no ensino superior. Então é natural que aconteça esse tipo de problemas, mas eles precisam ser corrigidos.
Aprendiz – Tais problemas enfraquecem a prova e o modelo de ensino médio que ele propõe?
Cara – Ainda é muito cedo. Várias novas notícias foram dadas. Então, primeiro é preciso ver qual foi o real impacto dos problemas, que não poderiam ter ocorrido, claro. Pela tendência que está se mostrando, eu acho que o Enem não sofre nenhum risco.
Aprendiz – Qual o impacto desses erros no processo de democratização do ensino superior, que o Enem vem encabeçando?
Cara – Esse é o problema central. A crítica mais elaborada que o Enem tem recebido não está colocada na questão da prova em si, mas está baseada na extensão do exame como meio de ingresso na universidade. Essa é a melhor característica do Enem, principalmente com a complementação com o SISU [Sistema de Seleção Unificada]. Com ele, os alunos podem ingressar nas universidades federais fazendo apenas uma prova e isso democratiza muito o acesso. As boas universidades federais, que são as melhores universidades brasileiras, junto com as públicas estaduais, principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, tinham um modelo de vestibular que era muito difícil de um aluno do Norte ou do Nordeste concorrer e passar.
Aprendiz – Qual a importância do Enem para o ensino superior brasileiro?
Cara – Com o Enem, além das universidades deixarem de gastar uma fortuna com vestibular, o jovem que estuda em uma escola pública do Rio Grande do Sul vai ter mais chances de ingressar em uma universidade de São Paulo, ou do próprio Rio Grande do Sul, mas em outro município. É importante agora que seja estabelecido um sistema de bolsa estudantil, para que esses estudantes consigam mudar de cidade. Em qualquer grande país do mundo, principalmente nos EUA, o deslocamento dos jovens dentro do território para estudar é enorme. Eles saem das suas casas e vão para outras cidades, estudam e começam a estabelecer sua vida. Isso é muito importante, inclusive em termos de impacto econômico, porque gera uma melhor distribuição populacional.
O Enem tem a capacidade de trazer muitas soluções para o Brasil. O que precisa é corrigir a logística. Os erros não podem continuar acontecendo, mas eles ainda são muito menores que os acertos do exame. O impacto interessante do Enem vai ser verificado daqui a dez anos, quando o ensino médio estiver com uma base curricular mais orientada ao estimulo do raciocínio, do autodidatismo, da capacidade dos estudantes terem um olhar crítico. Também vai possibilitar que esses jovens construam projetos de vida não sintetizados dentro da lógica de uma cidade.
(Envolverde/Aprendiz)
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