Entre a Pujança Econômica e o Desafio Ambiental – Indústria Cerâmica Brasileira: Uma Análise de Soluções para a Gestão de Resíduos e Emissões.
Ivan Carlos Zampin;
Carlos Eduardo Olivieri;
Fábio Roberto Sciamana.
Resumo
A indústria cerâmica brasileira ocupa posição de destaque no cenário mundial, figurando como o terceiro maior produtor global, com forte participação no Produto Interno Bruto e relevância estratégica para a balança comercial. Todavia, seu processo produtivo, caracterizado pela intensa utilização de recursos naturais e energia, gera impactos ambientais expressivos, especialmente relacionados à geração de resíduos sólidos e à emissão de material particulado atmosférico. Tomando como estudo de caso o polo cerâmico de Santa Gertrudes (SP), recentemente reconhecido como Capital Nacional da Cerâmica e que enfrentou paralisações industriais decorrentes da deterioração da qualidade do ar, este artigo analisa criticamente as soluções tecnológicas e gerenciais disponíveis para a mitigação desses impactos. A metodologia adotada baseia-se em pesquisa bibliográfica e documental, com análise de dados setoriais, legislações e reportagens especializadas. Por meio de análises documentais e de práticas, observa-se que a adoção integrada de práticas de economia circular, investimentos em tecnologias de controle ambiental e fortalecimento da gestão ambiental corporativa constitui condição essencial para compatibilizar competitividade econômica e sustentabilidade ambiental no setor cerâmico brasileiro.
Palavras-chave: Indústria Cerâmica; Impacto Ambiental; Gestão de Resíduos; Qualidade do Ar; Sustentabilidade Industrial; Santa Gertrudes.
1. Introdução
A indústria cerâmica brasileira apresenta significativa importância econômica, respondendo por cerca de 1% do Produto Interno Bruto e destacando-se pela ampla distribuição territorial e diversidade de produtos, especialmente no segmento de revestimentos cerâmicos (ANFACER, 2025). O país figura entre os principais produtores e exportadores globais, beneficiando-se de fatores como abundância de argila, infraestrutura energética e domínio tecnológico acumulado ao longo das últimas décadas. Esse protagonismo se materializa em polos industriais estratégicos, como o de Santa Gertrudes no interior paulista, recentemente reconhecido oficialmente como Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos, um título que atesta sua centralidade produtiva, mas também simboliza a magnitude dos desafios que o acompanham.
Entretanto, esse modelo produtivo, historicamente orientado pela maximização da escala e pela exploração intensiva de recursos naturais, tem gerado externalidades ambientais relevantes, sobretudo em polos industriais altamente concentrados (CETESB, 2023). Entre os principais impactos associados ao setor, destacam-se a extração intensiva de matérias-primas minerais, com potenciais consequências de degradação do solo e assoreamento de corpos d’água, a geração significativa de resíduos sólidos em diferentes etapas do processo produtivo (como massas cruas defeituosas, pós de esmaltação e placas quebradas) e, de forma mais visível e imediata, a emissão de poluentes atmosféricos, notadamente o material particulado (MP). Este último, proveniente do manuseio, transporte e processamento da argila, constitui-se em uma ameaça direta à saúde pública e à qualidade de vida das comunidades do entorno, convertendo-se no indicador ambiental mais sensível e crítico da atividade.
O caso de Santa Gertrudes (SP), responsável por aproximadamente 65% da produção nacional de revestimentos, ilustra de forma emblemática e urgente essa problemática. Episódios recentes de deterioração extrema da qualidade do ar, que levaram a classificação do município à condição "péssima" e obrigaram à paralisação escalonada das atividades industriais, expuseram abertamente a tensão insustentável entre o modelo operacional vigente e a capacidade de suporte do ambiente (EPTV/G1, 2024). Este evento não é um incidente isolado, mas um sintoma de um desequilíbrio crônico, servindo como um "laboratório vivo" dos limites e das consequências do crescimento industrial desacoplado de práticas ambientais robustas.
Diante desse cenário de contradições, entre pujança econômica e passivo ambiental, entre título de capital nacional e emergência na qualidade do ar, este artigo tem como objetivo central analisar e discutir soluções técnicas e gerenciais viáveis para a redução sistêmica dos impactos ambientais da indústria cerâmica, com foco na gestão de resíduos e no controle de emissões. Parte-se da premissa de que tais soluções não representam meros custos operacionais adicionais, mas investimentos estratégicos. Portanto, defende-se que a sustentabilidade ambiental, longe de ser um obstáculo, pode e deve ser incorporada como alavanca essencial para o fortalecimento da competitividade de longo prazo do setor (PORTER; VAN DER LINDE, 1995), promovendo uma transição para um modelo de produção mais eficiente, resiliente e socialmente legitimado. A análise proposta buscará demonstrar que a viabilidade econômica e a responsabilidade ambiental são, no contexto contemporâneo, faces indissociáveis de uma mesma moeda, ou seja, a da perenidade empresarial.
2. Referenciais Teóricos
A discussão acerca da sustentabilidade industrial no setor cerâmico encontra respaldo conceitual em três pilares teóricos principais: o paradigma da economia circular, a gestão ambiental empresarial sistêmica e o conceito de licença social para operar. Em conjunto, esses referenciais oferecem um arcabouço analítico robusto para compreender os desafios e propor soluções integradas que transcendem a mera correção de problemas pontuais.
2.1. Economia Circular como Estrutura Transformadora
O principal referencial que orienta a superação do modelo produtivo tradicional é a abordagem da economia circular, que propõe a ruptura com o modelo linear clássico, baseado na extração, produção, uso e descarte. Este novo paradigma preconiza um sistema regenerativo e restaurativo por intenção e desenho, visando manter produtos, componentes e materiais em seu mais alto nível de utilidade e valor o tempo todo (GEISSDOERFER et al., 2017).
Sua aplicação no setor cerâmico é particularmente relevante, pois incentiva a reinserção de resíduos no ciclo produtivo, a redução do consumo de matérias-primas virgens e a valorização de subprodutos industriais, transformando custos com destinação em fontes de matéria-prima secundária. A literatura específica demonstra o grande potencial prático dessa abordagem, evidenciando a viabilidade técnica da incorporação de resíduos de esmaltação, de peças defeituosas cruas ou queimadas, e de rejeitos de moagem e polimento nas massas cerâmicas (SILVA; OLIVEIRA, 2020). Essas práticas não apenas minimizam a pressão sobre os recursos naturais e os aterros industriais, mas também podem melhorar propriedades específicas dos produtos finais e gerar economias diretas, configurando um caso claro de ecoeficiência.
2.2. Gestão Ambiental Sistêmica e Controle de Emissões
O segundo pilar teórico é a gestão ambiental empresarial, operacionalizada por meio da adoção de Sistemas de Gestão Ambiental (SGA), especialmente aqueles fundamentados na norma ISO 14001. Um SGA eficaz proporciona uma estrutura para o controle sistemático e contínuo dos aspectos e impactos ambientais, assegurando o atendimento à legislação vigente e promovendo a melhoria contínua do desempenho organizacional (SEIFFERT, 2014). No contexto cerâmico, a implementação de um SGA permite mapear de forma integrada todo o fluxo de materiais e energia, identificando pontos críticos de geração de resíduos e emissões, desde a jazida até o produto acabado. Este gerenciamento sistemático é fundamental para reduzir riscos operacionais, legais e reputacionais, convertendo a conformidade ambiental em uma rotina administrativa previsível e otimizada.
Dentro desse sistema, o controle das emissões atmosféricas, sobretudo do material particulado (MP), exige atenção técnica especializada. Estudos técnicos e normativos indicam que tecnologias de fim-de-tubo, como filtros de mangas de alta eficiência, precipitadores eletrostáticos e sistemas de aspiração e captação localizada em pontos de transferência, britagem e moagem, apresentam elevada eficácia na retenção de partículas (CETESB, 2023). Contudo, a teoria da gestão ambiental avança além da tecnologia isolada, enfatizando que a solução mais eficaz é a hierarquia de controles, ou seja, priorizar a prevenção na fonte (como a umidificação de matérias-primas), seguida da otimização de processos, para só então aplicar os tratamentos de fim-de-tubo.
2.3. Licença Social para Operar: A Dimensão Relacional
Por fim, o conceito de “licença social para operar” (LSO) introduz uma dimensão crítica e frequentemente negligenciada. Desenvolvido no campo da gestão social corporativa, este conceito ultrapassa o estrito cumprimento formal das licenças legais e ambientais concedidas pelo Estado. A LSO refere-se à aceitação contínua, tácita ou expressa, das atividades de uma empresa ou setor pelas comunidades locais, ONGs, líderes de opinião e outros stakeholders afetados por suas operações (GAVIRIA; LOZANO, 2021). É um ativo intangível, dinâmico e frágil, construído sobre a confiança, a transparência e a percepção de que a empresa gera benefícios líquidos para a comunidade. No cenário de polos cerâmicos como Santa Gertrudes-SP, onde o impacto ambiental é visível e sentido diretamente na qualidade do ar, a manutenção da LSO torna-se tão crucial quanto a eficiência dos filtros. A degradação ambiental crônica ou eventos agudos de poluição corroem rapidamente essa licença, podendo resultar em protestos, embargos judiciais, restrições legislativas locais e severos danos à reputação da marca, configurando um risco estratégico de primeira ordem.
2.4. Síntese Teórica e Direção Analítica
Estes três referenciais, que são apresentados em sequência, sejam eles: economia circular, gestão ambiental sistêmica e licença social para operar, não são estanques, mas inter-relacionados. A adoção de princípios de economia circular aprimora o desempenho gerenciado pelo SGA, e ambos, ao reduzirem efetivamente os impactos locais, são fundamentais para garantir e fortalecer a licença social para operar. Este artigo se baseia nesta tríade conceitual para analisar o caso empírico, argumentando que a solução para os desafios ambientais da indústria cerâmica reside justamente na integração consciente e estratégica dessas três dimensões: a inovação no modelo de negócios (circularidade), a excelência na gestão operacional (SGA e controle de emissões) e o compromisso com o relacionamento com as partes interessadas (LSO). A hipótese central é que empresas que conseguirem articular essas frentes de forma coerente não apenas mitigarão seus impactos, como construirão uma vantagem competitiva mais robusta e resiliente no mercado.
3. Desenvolvimento da Pesquisa e Análise de Caso: O Polo de Santa Gertrudes-SP.
3.1 A Dualidade do Sucesso: Reconhecimento Nacional e Crise Ambiental
Santa Gertrudes-SP consolidou-se como o principal polo cerâmico do país, sendo oficialmente reconhecida como Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos (BRASIL, 2024). Este título é resultado de vantagens competitivas históricas e estruturais: a excepcional qualidade e abundância das jazidas de argila da região, a disponibilidade de gás natural via gasoduto, e uma localização logística privilegiada próxima aos maiores centros consumidores e aos portos de exportação. Este conjunto de fatores criou um ciclo virtuoso de atração de investimentos, especialização da cadeia e ganhos de escala que alçaram o polo à posição de líder nacional, responsável por aproximadamente 65% da produção de revestimentos cerâmicos do Brasil.
Contudo, essa trajetória de sucesso revela uma dualidade intrínseca. As mesmas condições que permitiram o crescimento exponencial na concentração geográfica, produção em massa e intensidade no uso de recursos, intensificaram e concentraram os impactos ambientais associados à atividade produtiva. O episódio de paralisação parcial das indústrias em setembro de 2024, motivado pela classificação da qualidade do ar como “péssima” pela CETESB, não foi um acidente isolado, mas o sintoma agudo de um desequilíbrio crônico (EPTV/G1, 2024). Ele evidencia que o crescimento produtivo atingiu, e possivelmente ultrapassou, um limite crítico de resiliência ambiental local. Neste estágio, a ausência de investimentos ambientais preventivos e estruturais deixou de ser um "custo a ser postergado" para se converter em uma fonte direta de prejuízos econômicos (perda de produção, ruptura de contratos), sociais (risco à saúde pública, degradação da qualidade de vida) e institucionais (desgaste da imagem do setor, questionamento de sua licença social para operar). O título de Capital, portanto, carrega agora o peso duplo de simbolizar tanto o ápice do sucesso industrial quanto a urgência de uma reinvenção do modelo que o sustentou.
3.2 Mapeamento das Fontes de Impacto: Uma Análise do Processo Produtivo
Para compreender as soluções, é preciso mapear com precisão as fontes de impacto ao longo da cadeia produtiva cerâmica, que em Santa Gertrudes (SP) opera em escala e ritmo intensificados.
. Preparação da Matéria-Prima (Fonte Primária de Emissões Atmosféricas): Esta é a etapa mais crítica para a questão da qualidade do ar. A extração, o transporte em vias não pavimentadas, o armazenamento a céu aberto, a britagem, a moagem e o peneiramento da argila são operações intrinsecamente geradoras de material particulado (MP), principalmente da fração mais fina (MP10 e MP2.5), que é a mais danosa à saúde respiratória (CETESB, 2023). A poeira vermelha, ícone do polo, torna-se, assim, seu passivo ambiental mais visível.
. Conformação e Acabamento (Fonte Primária de Resíduos Sólidos): Após a preparação da massa, as etapas de prensagem, secagem, esmaltação e polimento geram um fluxo contínuo de resíduos sólidos.
Destacam-se:
. Resíduos de Massa Crua: Provenientes de ajustes de processo, bordas cortadas e peças defeituosas antes da queima.
. Resíduos de Esmaltação: O pó de esmalte não aderido durante a aplicação por aspersão (spray) é um resíduo fino, complexo em sua composição química (podendo conter óxidos metálicos) e de alto custo de aquisição.
. Rejeitos de Queima e Polimento: Peças quebradas após a queima (chamadas de "chamote") e o lodo resultante do polimento de porcelanatos. A destinação tradicional para aterros industriais representa um custo financeiro direto e a perda de materiais valiosos.
. Tratamento Térmico (Foco em Eficiência): A etapa de queima nos fornos túnel, embora tenha tido sua pegada de emissões gasosas (como SOx e NOx) significativamente reduzida pela transição para o gás natural, permanece como o maior consumidor de energia do processo. Portanto, o desafio central nesta fase é a eficiência energética tendo como fato relevante a otimização da queima para reduzir o consumo de gás e, consequentemente, as emissões de CO2, um gás de efeito estufa (ANFACER, 2025).
3.3 Soluções em Discussão: Da Reação Emergencial à Prevenção Estrutural
A resposta do polo aos eventos críticos revela dois paradigmas de ação:
. Paradigma Reativo/Emergencial (Curto Prazo): As medidas impostas pelo protocolo de qualidade do ar, como a paralisação escalonada das atividades mais emissoras (manuseio de argila seca) e, em último caso, a paralisação total, são soluções de último recurso. Elas demonstram eficácia técnica imediata na redução das emissões, mas seu custo econômico é elevadíssimo, pois interrompem o fluxo de caixa e a cadeia de suprimentos, além de gerar insegurança jurídica para os investidores (EPTV/G1, 2024). Esta abordagem é paliativa e insustentável, tratando o sintoma (a emissão aguda) sem curar a doença (o processo emissor crônico).
. Paradigma Proativo/Estrutural (Médio e Longo Prazo): Este paradigma, alinhado aos referenciais teóricos da economia circular e da gestão ambiental, busca atacar as causas raiz dos impactos. Suas soluções, embora demandem investimento inicial, são transformadoras e geram retorno contínuo. Para o polo de Santa Gertrudes-SP, destacam-se:
. Controle de Emissões na Fonte: Implantação de sistemas de aspiração e filtração de alta eficiência (filtros de mangas) em todos os pontos de geração de poeira, ou seja, britadores, correias transportadoras, peneiras e silos. Complementarmente, a umidificação controlada de vias internas, pátios de estocagem e pilhas de argila é uma medida de baixo custo e alta eficácia para suprimir a poeira fugitiva.
. Economia Circular Aplicada: Implementação de sistemas de reciclagem interna de resíduos sólidos. Os resíduos de massa crua e o chamote podem ser britados e moídos para serem reinseridos na massa cerâmica como chamote moído, em proporções que podem chegar a 10-15% sem prejudicar as propriedades do produto (SILVA; OLIVEIRA, 2020). O pó de esmalte pode ser recolhido, peneirado e reintroduzido no processo de esmaltação. Esta prática fecha o ciclo interno de materiais, reduz a extração de argila virgem em até 15%, elimina custos com aterro e economiza na compra de esmalte.
. Inovação em Processos e Eficiência: Investimento em tecnologia de via úmida para preparação de massa, que, embora consuma mais água, virtualmente elimina a emissão de poeira na etapa de moagem, em contraste com a via seca predominante. Adicionalmente, a recuperação de calor dos fornos para pré-aquecer o ar de combustão ou secar as peças verdes é uma solução consolidada para ganhos expressivos em eficiência energética.
A transição do paradigma reativo para o proativo é, portanto, a transformação crucial para o futuro de Santa Gertrudes-SP. Enquanto o primeiro gera custos e interrupções, o segundo gera economia, eficiência e resiliência, permitindo que o título de Capital Nacional seja sustentado por uma base de operação verdadeiramente moderna e responsável.
4. Análise e Discussão
A análise do caso de Santa Gertrudes-SP evidencia que o custo da inação ambiental tende a superar, a médio e longo prazo, o custo dos investimentos em mitigação. A reciclagem interna reduz despesas com aquisição de matéria-prima e com a destinação de resíduos, enquanto os sistemas de controle de emissões evitam multas, paralisações e conflitos com a comunidade local (SEIFFERT, 2014). A interrupção forçada das atividades, como a ocorrida no polo, representa um exemplo concreto dessa equação, onde prejuízos diretos por perda de produção e ruptura de contratos superam, em curto espaço de tempo, o investimento necessário em sistemas de supressão de poeira e em gestão otimizada de matérias-primas.
Observa-se, portanto, uma convergência entre racionalidade econômica e responsabilidade ambiental, corroborando a perspectiva de que a sustentabilidade pode atuar como vetor de competitividade industrial (PORTER; VAN DER LINDE, 1995). Essa hipótese da "vantagem competitiva da sustentabilidade" materializa-se no setor cerâmico por intermédio de múltiplas frentes. Primeiramente, a eficiência de recursos como a reintrodução de resíduos de esmaltação e de peças defeituosas na massa cerâmica gera reduções diretas de custo operacional. Em segundo lugar, a antecipação a regulamentações ambientais cada vez mais rigorosas confere ao inovador uma posição de liderança e estabilidade no mercado, evitando custos de adaptação apressada no futuro. Por fim, a construção de uma imagem corporativa associada à produção responsável abre portas para mercados internacionais mais exigentes e valoriza a marca perante consumidores finais conscientes.
No entanto, essa transição enfrenta obstáculos estruturais significativos. A análise do caso revela que muitas empresas, especialmente as de menor porte que compõem parte significativa do polo, operam com margens estreitas e têm limitado acesso a capital para investimentos de longo prazo em tecnologia limpa. A implementação de uma economia circular efetiva exige, além de investimento inicial, mudanças no layout industrial, capacitação da mão de obra e desenvolvimento de protocolos técnicos específicos para cada tipo de resíduo, o que pode ser uma barreira considerável. Este cenário aponta para a necessidade de mecanismos de fomento, como linhas de crédito específicas ou incentivos fiscais verdes, que possam equalizar as condições de concorrência e acelerar a modernização ambiental de todo o parque industrial, não apenas das líderes.
A situação de Santa Gertrudes-SP também expõe a dimensão social da questão ambiental. A degradação da qualidade do ar é um problema de saúde pública que afeta trabalhadores e a população do entorno de forma imediata, criando um passivo social que pode se converter em resistência comunitária e em restrições legais ao crescimento do próprio setor. Portanto, a gestão ambiental deixa de ser uma questão apenas técnica ou regulatória para se tornar um elemento central da "licença social para operar". A manutenção dessa licença exige transparência, diálogo constante e a demonstração prática de que a prosperidade da indústria resulta em melhoria da qualidade de vida local, e não no seu oposto.
Desta forma é visto que, a discussão indica que o caminho para a sustentabilidade no setor cerâmico é necessariamente multidimensional. A solução técnica com seus ganhos de eficiência é a base, mas ela deve ser catalisada por políticas públicas indutoras, internalizada como valor estratégico pela gestão das empresas e legitimada por meio de um relacionamento ético e construtivo com as comunidades. O caso estudado serve, portanto, como um microcosmo e um alerta, ou seja, a indústria que não internalizar essa lógica multidimensional de atuação verá sua competitividade e sua própria existência ameaçadas pelos custos crescentes da degradação ambiental que gera.
5. Conclusão
A indústria cerâmica brasileira encontra-se diante de um momento decisivo em sua trajetória secular. Sua relevância econômica é incontestável, constituindo um pilar fundamental no setor da construção civil e nas exportações nacionais, porém a manutenção dessa posição de destaque depende criticamente da capacidade do setor em responder aos urgentes desafios ambientais impostos pelo seu próprio modelo produtivo tradicional. O estudo detalhado do polo de Santa Gertrudes-SP, emblemático por concentrar mais de 65% da produção nacional de revestimentos, demonstra de maneira inequívoca que a mitigação sistemática dos impactos ambientais não constitui um mero obstáculo ao desenvolvimento econômico, mas representa, na verdade, uma condição essencial e inegociável para a perenidade e a competitividade futura da atividade em um cenário global cada vez mais exigente.
Neste sentido é imprescindível que a adoção integrada e sinérgica de tecnologias avançadas de controle ambiental, práticas robustas de economia circular, fortalecimento institucional da gestão ambiental corporativa e inovação contínua em processos produtivos constituirão o caminho mais consistente e estratégico para conciliar, de forma genuína, o crescimento econômico com a sustentabilidade socioambiental. O recente reconhecimento oficial de Santa Gertrudes-SP, como Capital Nacional da Cerâmica de Pisos e Revestimentos impõe, paradoxalmente, uma dupla responsabilidade histórica ao polo, assim sejam: a de consolidar sua liderança produtiva e, simultaneamente, tornar-se uma referência nacional e internacional em boas práticas ambientais, servindo como modelo de transição para uma indústria de baixo impacto.
A transformação necessária transcende a simples instalação de filtros ou o gerenciamento de resíduos, demandando uma reavaliação profunda da cadeia de valor. Desde a extração responsável da argila, passando pela logística otimizada para reduzir emissões, até o redesenho de produtos para maior durabilidade e reciclabilidade, cada elo deve ser repensado sob a ótica da eficiência de recursos. A economia circular deixa de ser uma alternativa periférica para se tornar o núcleo do modelo de negócios, onde resíduos de um processo se convertem em insumos valiosos para outro, minimizando a extração virgem e a deposição em aterros.
Neste contexto, o investimento em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) colaborativo entre indústrias, universidades e institutos de tecnologia emerge como vetor crítico. A busca por matérias-primas alternativas, o desenvolvimento de esmaltes e pigmentos com menor teor de metais pesados, a otimização dos ciclos de queima para reduzir consumo energético e a criação de protocolos para a reutilização de águas industriais são fronteiras de inovação que podem definir a liderança do setor na próxima década.
Finalmente, a governança ambiental precisa ser internalizada como competência estratégica central. Isso implica na adoção voluntária de padrões mais rigorosos que a legislação local, na transparência ativa dos dados de desempenho ambiental perante a comunidade, e no engajamento constante com os municípios do entorno para construir um pacto pelo desenvolvimento regional sustentável. O caso de Santa Gertrudes-SP evidencia que a "licença social para operar" é tão crucial quanto as licenças ambientais formais. A indústria cerâmica do futuro será aquela que souber harmonizar a excelência técnica de seus produtos com a excelência de sua relação com o território e o meio ambiente, provando que a verdadeira competitividade é indissociável da responsabilidade.
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Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor em Geografia Física: Organização do Espaço (Unesp), Pesquisador, Especialista em Tratamento de Efluentes Líquidos Industriais (Unicamp), Pedagogo, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista na área da Educação. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2342324641763252
Carlos Eduardo Olivieri: Professor Mestre, Pesquisador, no Ensino Superior, Economista, vinculado à Unip Universidade Paulista, Campus de Limeira -SP. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3054954552251736
Fábio Roberto Sciamana: Mestrado em Ciências pela USP (Administração), Pós Graduação em Finanças e Estratégias de Investimento, pela UNIMEP e Graduação em Tecnologia em Processamento de Dados. Ministra várias disciplinas na UNIP - Universidade Paulista - Campus Limeira, nas áreas de Administração, Economia, Ciências da Computação, Ciências Contábeis, Direito, Tecnologia em Gestão em Recursos Humanos e Gestão em Logística. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2729574119276417