15/01/2008

Ensino superior pode fortalecer Mercosul

Por Julia Dietrich, do Aprendiz
Diante da importância e do desenvolvimento do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a crescente demanda pela internacionalização do ensino superior, o governo federal brasileiro anuncia uma série de programas universitários que busca intensificar o intercâmbio de estudantes, professores e pesquisadores da América do Sul, além de promover uma maior integração da região.

Segundo o chefe da assessoria internacional do Ministério da Educação (MEC), Alessandro Candeas, até o final do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva serão criadas três novas instituições que respondem às necessidades do Brasil no plano internacional.

A entrevista foi concedida em Brasília (DF) durante o Encontro Internacional de Reitores Universia.

Aprendiz: O governo federal vem lançando continuamente novas ações para a integração do Mercosul. Quais são os planos nessa questão para o ensino superior brasileiro?

Alessandro Candeas: O Brasil largou na frente. A idéia de um espaço de educação superior do Mercosul é nossa. Lançada em novembro de 2006 pelo ministro Fernando Haddad, o plano foi aprovado prontamente pelos outros ministros. Mas, primeiro, o Brasil começou fazendo o dever de casa com o lançamento do Instituto Mercosul de Estudos Avançados (Imea), no Parque Tecnológico de Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR).

No primeiro semestre de 2008 começaremos a estipular o funcionamento do Espaço Comum de Educação Superior do Mercosul que abrangerá diversas universidades que fazem parte do Mercosul. Posteriormente, discutiremos a criação da Universidade Latino-Americana (Unila).

Aprendiz: Como funcionará o Imea?

Candeas: Será uma universidade brasileira que receberá professores e alunos do Mercosul com um projeto de ensino, pesquisa e extensão voltado para a integração dos países do bloco.

Aprendiz: O conteúdo apresentado nas disciplinas também responderá à questão do Mercosul?

Candeas: A idéia é manter e fomentar a integração dos países. No futuro buscaremos abarcar todas as áreas do saber, mas no caso do Imea, são as de interesse da região, como, por exemplo, ciências ambientais, energia, agricultura e ciências sociais.

Acredito que agora, em 2008, abriremos os editais para contratação de funcionários e professores e depois abriremos para o processo seletivo dos alunos. A seleção será feita com base em critérios regionais e teremos que ter professores da Argentina, do Uruguai e Paraguai. E, mais tarde, se ampliarmos o projeto para toda América do Sul, teremos que ter um quadro docente que inclue Chile, Venezuela, Bolívia etc. Mas, a idéia é começar com a região de Foz do Iguaçu, onde se instalará o Imea.

Aprendiz: Qual será o idioma utilizado na universidade?

Candeas: Esse é um ponto fundamental. Isso vale também para o Espaço Comum de Educação Superior do Mercosul. Já que as instituições trabalharão com professores e alunos da região, as aulas serão ministradas e os trabalhos serão feitos em português e espanhol.

Aprendiz: Quando Espaço Comum de Educação Superior do Mercosul passará a funcionar?

Candeas: Para o Espaço Comum de Educação Superior do Mercosul nós criamos um grupo de trabalho que começará a se encontrar agora no primeiro semestre de 2008 e espero que até o segundo semestre já tenhamos fechado o desenho desse espaço. Mas o conceito geral é ter um projeto pedagógico de integração. Ou seja, se for ensinar direito ou sociologia, por exemplo, o trabalho sempre buscará a integração. Não é conteúdo geral ou abstrato. É operacional e com foco bastante específico nas necessidades do Mercosul.

Haverá professores e alunos dos países que compreendem o Mercosul, seguindo o bilingüismo e graduação e pós-graduação nas diferentes disciplinas. Esse espaço será formado tanto por novas instituições, como o Imea, quanto por instituições antigas, como a Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, que reservem espaços, salas, cursos, faculdades ou departamentos para fazer parte desse trabalho.

Por exemplo, a UnB pode determinar que o Instituto de Relações Internacionais faça parte do Espaço Comum de Educação Superior do Mercosul. Sendo assim, é importante que todo o diploma e créditos sejam válidos em todas as entidades que fazem parte deste espaço. Se um estudante se forma em Jornalismo na UnB, o seu diploma também será válido, por exemplo, na Universidade de Buenos Aires.

Aprendiz: A idéia então é facilitar o intercâmbio entre as universidades?

Candeas: Exatamente. Aí está o outro ponto de grande importância no Espaço. O intercâmbio de estudantes, professores e pesquisadores. O intercâmbio pode ser feito tanto no curso completo, durante toda a graduação ou pós-graduação, quanto poderá abranger segmentos do curso. Graduação, mestrado e doutorado sanduíche. O estudante matriculado na UnB pode, por exemplo, fazer um ano na Universidade de Montevidéu e seus créditos cursados automaticamente serão computados nas duas universidades.

Aprendiz: Quem é o responsável por desenvolver esse novo modelo no Brasil? Como e quando se darão as discussões?

Candeas: Montamos um grupo de alto nível que se reunirá no Encontro de Buenos Aires para desenhar esse espaço comum de educação superior. Cada país indicou seus representantes. O Brasil indicou o professor Élgio Trindade, ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Designado pelo ministro, o professor é o responsável por definir o posicionamento do Brasil no processo.

Aprendiz: E a Unila, qual o projeto e quais os planos?

Candeas: A Unila é para o futuro e seu projeto ainda está sendo rascunhado. Em primeiro lugar, ela não tem um lugar físico para existir. Ela será uma rede parecida com o modelo da Universidade das Nações Unidas. O Espaço Comum também é uma rede, mas o Imea tem seu espaço físico delimitado. A Unila será caracteristicamente brasileira e o espaço responderá aos interesses do Mercosul.

Aprendiz: Já existem universidades interessadas em compor a Unila?

Candeas: Em primeiro lugar, a previsão é que todas as universidades federais façam parte deste consórcio. Porém, é um projeto ainda para o futuro.

Aprendiz: Mas a Unila congregará apenas as universidades federais?

Candeas: Não. Inicialmente ela nasce nas federais, mas certamente as estaduais e depois as particulares de boa qualidade devem participar dessa rede.

Aprendiz: Então, quais as datas aproximadas para a realização destes três projetos diferentes?

Candeas: O Espaço Comum de Educação Superior do Mercosul é para já. Ainda no primeiro semestre de 2008 suas atividades estarão decididas. O Imea deve seguir no mesmo tempo. O edital de publicação e de seleção deve sair também agora no começo do ano. E a Unila virá depois. Teremos primeiro essas experiências para depois desenvolvermos a Unila. Agora, certamente, tudo isto estará muito bem desenvolvido até o final do governo Lula.

Aprendiz: A graduação dessas novas universidades já começará atendendo ao modelo do Ciclo Básico?

Candeas: Provavelmente sim, porque esta é uma tendência do ensino superior mundial. As universidades norte-americanas e várias européias já o fazem, porque nos dois primeiros anos o estudante ainda não tem a obrigação de definir seu curso, sua diplomação. No Brasil, ainda vivemos no sistema antigo de escolher aos 17 anos a profissão que deverá seguir na vida. Aqui você já entra no curso fechado, aumentando as chances de desistência. Acredito que a Imea e a Unila já devem seguir essa tendência, mas é algo que está sendo desenhado.

Aprendiz: Como estão as discussões sobre o ensino de espanhol?

Candeas: Nossa idéia é buscar estimular com as universidades a formação de professores de espanhol e português. No Brasil, já existe a Lei de Ensino do Espanhol, de 2005, que prevê até 2010 a obrigatoriedade de oferecer espanhol aos alunos do Ensino Médio de todas as escolas do país. Porém, faltam professores. E por isso, várias universidades brasileiras e outras da América Latina buscam a especialização da formação em espanhol e português. A idéia é que troquemos informações para discutir como aumentar o número de professores e a qualidade de ensino do idioma.
(Envolverde/Aprendiz)

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