30/03/2006

Ensinando a empreender

Professores exercem papel importante na multiplicação deste conceito.

Ser apenas mais um no mercado de trabalho? Certamente, esta não é a expectativa de um universitário que, muitas vezes, investe anos de sua vida em uma formação acadêmica. No dia-a-dia da profissão, não apenas o tempo despendido em horas de retroprojeção, giz branco e toneladas de material apostilado constrói resultados. Tanto quanto a capacitação profissional, este jovem precisa aprender a desenvolver suas iniciativas empreendedoras, ferramentas capazes de driblar os desafios do tão concorrido mercado. E é aí que a figura do professor entra em cena: como principal colaboradora deste processo.

O mundo dos negócios está mudando e a formação profissional precisa acompanhar estes avanços. "O padrão de trabalho apoiado no emprego se esgotou. Até porque o processo de industrialização assumiu novos padrões. No entanto, muitas universidades ainda formam pessoas para esta realidade de emprego, que não existe mais", afirma o professor de MBA da Fundação Dom Cabral, Fernando Dolabela. "Por isso, as aulas, sejam técnicas ou não, devem estabelecer conexões múltiplas com o sistema atual."

Antenados a essas mudanças e à necessidade de incentivar e semear o empreendedorismo, os professores e as instituições de Ensino Superior podem unir forças para levar estes conceitos para as salas de aulas. Diferente do que o censo comum prega, esta prática não se restringe aos cursos de Administração de Empresas e Engenharias. A ação deve percorrer os quatro cantos de um campus e passar por todas as áreas do conhecimento: Ciências Humanas, Sociais, Agrárias, Saúde, Exatas, Biológicas, Engenharias e Letras e Artes.

Sendo assim, esta capacitação empreendedora está diretamente relacionada à formação dos futuros donos de negócios. Certo? Não somente! O espírito empreendedor, segundo Dolabela, é uma característica exigida em todos os segmentos profissionais e, também, em qualquer cargo. "Sair da universidade sem ter capacidade de dar este impulso é o mesmo do que sair do Ensino Médio sem saber ler", assegura. O professor destaca ainda que o empreendedorismo é algo inerente ao ser humano, basta estimulá-lo.

Neste processo, os professores universitários exercem um papel importante. E é na sala de aula, muitas vezes, que esse estímulo acontece. Além do formador inserir em sua disciplina a prática empreendedora, é muito válido dar exemplos do que acontece fora dos muros da universidade. Não importa muito, neste contexto, qual é a metodologia adotada pelo docente, desde que, de uma forma ou de outra, consiga estimular este impulso empreendedor no aluno.

Rompendo com o convencional

Tudo começou com uma simples idéia. A partir dela, 24 novas empresas surgiram, acompanhadas da mudança cultural de uma universidade e a formação de, aproximadamente, 4.000 professores. Oficina do Empreendedorismo, esta foi a ferramenta capaz de colecionar tantos reflexos positivos em um país onde a cultura empreendedora é pouco difundida. O autor da idéia foi o professor Fernando Dolabela.

Incomodado com a formação desatualizada que as universidades ofereciam aos alunos, Dolabela decidiu adaptar, em sua disciplina do curso de Administração da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), algo que estivesse mais voltado à realidade do mercado de trabalho: o empreendedorismo. A partir daí, o professor começou a difundir esta metodologia por todo país e em todos os cursos, através do Seminário Formação de Formadores.

O primeiro passo desta metodologia envolve discutir alguns paradoxos e pontos que podem inviabilizar a educação empreendedora. "Não se pode ensinar empreendedorismo, mas pode-se aprender", conta Dolabela. Em seguida, o professor deve transformar a sala de aula em um ambiente de geração de conhecimento empreendedor. Neste sentido, os universitários são capazes de gerar dois aprendizados: o sonho em forma de empresa e os processos para viabilizar este projeto. "O empreendedor é alguém que gera conhecimento e não só reproduz", garante.

Aprendendo e repassando

Depois de ter contato com a metodologia adotada e criada por Dolabela, o professor Hermano Perrelli e sua equipe passaram a implementar a disciplina de empreendedorismo na grade curricular das graduações do Centro de Informática da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). De aprendiz a multiplicador do conhecimento empreendedor, Hermano atuou frente a este projeto durante seis anos. Hoje, mesmo comandando outras disciplinas, o docente não deixa de levar para a sala de aula o estímulo ao empreendedorismo.

Tudo que é novo e revolucionário, a princípio, provoca a reprovação de alguns. Mas, segundo Hermano, em pouco tempo, os alunos e os próprios professores da UFPE viram nesta metodologia uma maneira de aproximar o ambiente acadêmico do mercado de trabalho. "A postura empreendedora pode ser aplicada tanto na gestão de um negócio quanto no desenvolvimento de qualquer atividade profissional. E mais, esta característica está muito relacionada às exigências pertinentes à contratação de um profissional", assegura o professor. "Por isso, estimular esta expertise é uma missão das universidades e uma obrigação dos professores", ressalta.

Universo empreendedor dentro de sala

Empregado ou empreendedor? Qual dos caminhos seguir? Esta é uma questão que, durante a graduação, parece ser muito confusa. No entanto, é uma realidade que, mais cedo ou mais tarde, vai ter que ser enfrentada. Para facilitar este processo, o professor de Jornalismo e Rádio e TV da IMES (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) Roberto Araújo transforma a sala em um universo de negócios. Com isso, faz com que os alunos tenham atitudes empreendedoras e conheçam os dois lados da moeda: empregado e empregador.

"Esta foi uma iniciativa da própria universidade com objetivo de proporcionar aos estudantes uma aproximação com a realidade profissional. Desta forma, nossos alunos saem da graduação em sintonia com as expectativas do mercado", explica. Engajado neste objetivo e no comando da disciplina Planejamento em Comunicação, Araújo conduz suas aulas em duas etapas. Na parte teórica, o professor apresenta aos alunos o funcionamento e os segmentos do mercado de comunicação. Em seguida, os universitários precisam montar seu próprio negócio, levando em consideração a inovação, a criatividade, os planos e as estratégias de mercado.

Segundo Araújo, esta atividade já está mudando o olhar dos universitários para o empreendedorismo, aumentando, assim, suas perspectivas diante do futuro profissional. "Ter habilidades empreendedoras não significa apenas montar o seu próprio negócio, mas também buscar inovações e soluções criativas, independente do cargo e da empresa em que atua", alerta.

Nem que seja só para estimular

Transformar idéias em oportunidades. Este é o discurso que o professor do Centro de Estudos de Telecomunicações da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) Marco Antonio Grivet utiliza dentro de sala de aula para estimular o ato empreendedor de seus alunos. "A minha formação de empreendedorismo é nula, o que tenho é o gás e a vontade de estimular meus estudantes a caminharem nesta direção", confessa.

Por meio de exemplos e discursos, Grivit conduz suas aulas sem deixar que o conteúdo técnico e especializado seja comprometido. "É importante que os universitários tenham conhecimento técnicos referente à suas áreas, mas é essencial que eles conheçam a realidade do mundo dos negócios", conclui.

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