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Por Carmo Gallo Netto, do Jornal da Unicamp
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O Grupo Formar-Ciências, da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, promove nos dias 16 e 17 de outubro, o VI Encontro de Formação Continuada de Professores de Ciências (Enfoco). O evento privilegia professores da educação básica de Campinas e municípios da região, graduandos de cursos de licenciatura e pós-graduandos em educação e áreas afins. Embora de caráter regional, o Encontro, que ocorre no Salão Nobre e salas da FE, é aberto à participação de professores, alunos e pesquisadores de todo o País.
O encontro tem como objetivo discutir as relações existentes entre o ensino de ciências e a educação ambiental e resgatar-lhes aspectos históricos; refletir sobre as tendências da educação ambiental e seus impactos na educação escolar e nos espaços não escolarizados; propiciar um espaço de discussão entre a academia e os professores de educação básica, contribuindo para sua formação continuada; homenagear a memória do professor Hilario Fracalanza, educador e pesquisador do ensino de ciências e de educação ambiental, falecido no inicio deste ano, e que desempenhou importante papel na fundação e desenvolvimento do grupo. O VI Enfoco está estruturado em uma dinâmica que envolve palestras, mesas-redondas, grupos de debates e “Oficinas de Produção em Ensino de Ciências e Educação Ambiental”.
“Trata-se de um encontro acadêmico voltado principalmente para professores da educação básica, para estudantes de graduação e de pós-graduação e também pesquisadores na área de ciências”, explica o professor Jorge Megid, ex-diretor da FE e um dos organizadores do evento. “Procuramos articular os conhecimentos produzidos na universidade com os conhecimentos produzidos pelos professores da educação básica em sua prática cotidiana”, observa. “Disto resultam novos saberes para todos os participantes, inclusive para nós da universidade”, completa.
A idéia, segundo Megid, é aproximar mais ainda os professores da educação básica e a universidade. ”Realizamos diversas ações de colaboração com a escola básica, mas sempre de forma não autoritária ou imposta, e sim de maneira a constituir parcerias com os professores e escolas com o objetivo de produzir mudanças,ainda que lentas, construídas pelos próprios professores e por isso mais efetivas e duradouras”, explica.
O professor Edilson Duarte dos Santos, membro da comissão organizadora do encontro, considera que o grupo de pesquisa tem dois eixos principais de discussão acadêmica, que são o ensino de ciências na educação básica, notadamente nos nove anos do ensino fundamental, e a importância da abordagem da educação ambiental no ensino de ciências. Para ele, a oportunidade é impar para que de alguma forma o grupo de estudo e pesquisa Formar-Ciência socialize o que tem produzido nos mais de dez anos de atividades, formando mestres e doutores e promovendo cursos para formação continuada de professores da rede pública.
Santos concorda com o fato de que o professor da educação básica enfrenta problemas de formação para o ensino de ciências, e que há necessidade de um preparo mais acurado desses profissionais. Segundo ele, o encontro se propõe a constituir uma das alternativas para que isso aconteça. Ele considera que o salto de qualidade que seria desejável não depende apenas da boa vontade do professor e nem do que a academia procura fazer para ajudá-lo. Além disso, segundo Santos, o profissional precisa de boas condições de trabalho, entre elas, um ambiente que lhe possibilite fazer atividades de experimentação. Mais que isso, porém, ele tem que estar consciente de que no ambiente natural também se faz ciência e que é necessário explorar o grande laboratório da natureza. E afirma, enfaticamente: “Para isso, a escola tem que possibilitar condições e meios e este é o grande nó do ensino de ciências no Brasil”.
Santos lembra que as oficinas programadas têm estreita relação com projetos desenvolvidos pelo Grupo Formar-Ciências, que terá a oportunidade de passar aos participantes questões trabalhadas e resultados conseguidos. “Trata-se de uma grande oportunidade para a universidade sair dos seus intramuros e dialogar com aqueles que têm o direito de se apropriar dos conhecimentos que ela está produzindo”, observa. Para Santos, essas atividades têm um efeito instigador sobre o professor, que será levado a pensar sobre o que poderá desenvolver no cotidiano da escola.
De acordo com Santos, nas séries iniciais do ensino fundamental, em uma parcela significativa das escolas, principalmente públicas, o ensino de ciências ainda não é visto com prioridade. Na segunda parte desse grau de ensino as ciências constituem disciplina especifica, o que faz seu ensino mais intenso, embora ainda envolva transmissão de conhecimentos básicos centrados no animal, na vegetação e no ser humano, a exemplo do que se observa tradicionalmente nos livros didáticos. Já no ensino médio ocorre a preocupação com o conteúdo, que é feito principalmente através de apostilas. Esta situação o leva a afirmar que “realmente trabalhar com educação ambiental oferece dificuldade maior”. Segundo ele, o que se coloca é como os professores estão sendo preparados pelas universidades.
Mas afinal, que concepção de ciências se está ensinando? Santos explica que na época da corrida espacial, se pretendeu ensinar ciência para formar o cientista de amanhã. “O ensino de ciências deve visar a formação do cidadão, para que ele possa conversar com a natureza fazendo parte dela”. É o ensino de ciências, na abordagem de educação ambiental em que o homem faz parte do processo. Santos atribui o baixo interesse pela cultura cientifica no Brasil à falta de estimulo para o conhecimento cientifico, que considera de responsabilidade da mídia e da academia.
Ele enfatiza, porém, que não basta a universidade fazer o seu papel, dedicando-se à formação continuada do professor. “É necessário ainda a valorização do ensino por parte das políticas públicas, que precisam ser mais incisivas e arrojadas, a exemplo de outros países desenvolvidos que incentivam os bons alunos a se dedicarem à educação”, destaca. “Porque, só assim, as instituições conseguirão atrair alunos de qualidade e terão estímulos para formar bons profissionais”.
Megid não acredita que o interesse do público pela ciência seja baixo. “Relativamente baixo é o nível de compreensão dos fenômenos e a aprendizagem dos conceitos básicos”, pondera. Segundo ele, isso ocorre porque há uma valorização excessiva nos primeiros anos de escolarização exclusivamente da alfabetização e letramento em língua materna e matemática, esquecendo-se que isto também pode ser conseguido com o estudo de outras disciplinas, como ciências, história, geografia e artes.
Além disso, segundo Megid, há uma excessiva centralidade num ensino de ciências baseado na aquisição de conceitos ou processos algébricos, desvinculados do contexto que lhes dá origem: os fenômenos naturais, sociais, e socioambientais. Uma outra razão, de acordo com o professor, é que se exige dos alunos muita memorização e pouca compreensão ou construção significativa do mundo em que vive. “Posso acrescentar ainda a falta de variados espaços culturais, artísticos e também científicos em nossas cidades, que pudessem fomentar a alfabetização científica e o "letramento" científico a toda a população em fase escolar ou não”.
No que diz respeito ao baixo nível de cultura científica do brasileiro, Megid esclarece que essa é uma realidade quando se leva em conta apenas os padrões acadêmicos e científicos. “Por outro lado, a população tem uma riqueza de conhecimentos construídos em suas experiências de vida, em seu cotidiano, que se entrelaçam com os conhecimentos chamados científicos e que têm de ser considerados não de maneira depreciativa e desvalorizada”, destaca. “Os chamados saberes populares, ou saberes da prática ou saberes do cotidiano, também explicam o mundo em que vivemos e devem ser levados em conta nos processos educacionais com o mesmo valor do conhecimento científico”.
O grupo Formar-Ciências é um grupo de pesquisa da Faculdade de Educação da Unicamp criado em 1997, que se dedica a estudos e investigações sobre formação de professores na área de ciências da natureza e mais recentemente também de matemática. O grupo atua na graduação e na pós-graduação e também em programas de formação continuada de professores. Mantêm diversas linhas de pesquisa como formação inicial ou continuada de professores; educação ambiental; avaliação de materiais didáticos; pesquisas do estado da arte; história do ensino de ciências; educação matemática.
Crédito da imagem: Antoninho Perri Edição das imagem: Everaldo Silva
(Envolverde/Jornal da Unicamp)
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