04/07/2007

Em quilombo pernambucano, adolescentes pedem escola que valorize tradições

Por Juliana Andrade, da Agência Brasil

Brasília - Uma escola com a proposta pedagógica voltada para as crianças e adolescentes quilombolas, que valorize a história, os saberes e valores culturais das comunidades negras. Essa é a principal reivindicação da pernambucana Maria Tatiana Gomes dos Santos, 17 anos. Moradora do Quilombo Feijão, em Mirandiba, no interior de Pernambuco, ela veio a Brasília participar do 1º Encontro Nacional de Crianças e Adolescentes Quilombolas (1º Quilombinho).

O Quilombo Feijão abriga 16 famílias. Na comunidade, há uma escola de 1ª a 4ª série do ensino fundamental. Já os estudantes de 5ª à 8ª séries têm que freqüentar a escola em municípios vizinhos. Maria Tatiana está na 8ª série e tem que percorrer cerca de quatro quilômetros para chegar à escola. “A gente vai a pé, de bicicleta, do jeito que pode”, diz a adolescente, que é filha de agricultores. Ela e seis irmãos dividem uma pequena casa com os pais e um tio.

Para a jovem pernambucana, uma escola específica para as crianças e adolescentes quilombolas, com professores da própria comunidade, ajudaria a manter viva a tradição dos remanescentes dos quilombos. “Gente da comunidade conhece e pode ver melhor a nossa tradição e a nossa cultura. Aquelas pessoas que vêm de fora entendem as coisas de outra forma. Então uma pessoa da comunidade é muito importante para continuar nossa cultura, tradição, nossos rituais.”

Outro problema que preocupa Maria Tatiana é a falta de acesso aos serviços de saúde no Quilombo Feijão. “A gente não tem posto médico na comunidade. Se adoecer, alguém tem que se deslocar para a cidade, quando chega lá passa mais de duas horas esperando para ser atendido. E quando é atendido não tem medicamento, e a gente não tem condições de comprar.”

As dificuldades no quilombo também passam pela área de saneamento básico. Um parceria com uma organização não-governamental possibilitou que um poço artesiano fosse construído na comunidade. Mas no quilombo não há esgotamento sanitário. “Os serviços públicos não chegam na nossa comunidade, é muito difícil.”

Mesmo com todas as dificuldades, Maria Tatiana disse que não troca o quilombo pela cidade. “A gente sempre amou nossa terra e a gente sempre vai em busca de mais coisas, de conhecimentos para a gente poder conseguir recursos para não sair de lá.”

A jovem diz que os alimentos que sustentam a sua família vêm da roça dos seus pais. “Na cidade só ia piorar mais. Lá no quilombo a gente tem a terra pra plantar, que é nossa, e na cidade a gente não teria emprego nem meio de vida.”

Legenda: Maria Tatiana Gomes dos Santos, 17 anos e moradora do Quilombo Feijão em Marandiba (PE), participa do 1º Encontro Nacional de Crianças e Adolecentes Quilombolas (1º Quilombimho)

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