Em Nova Iguaçu, bairro escola é política pública efetiva
Por Karina Costa, do Aprendiz
Cerca de 500 crianças andando diariamente pelas ruas da baixada fluminense. Saem da escola a caminho do cinema, aulas de dança, natação, música e outras atividades de lazer. Lá, as escolas ficam abertas também durante a noite para a prática de esportes. Pela madrugada, vê-se movimento nas praças. A agitação é da comunidade que participa das atividades de uma academia de ginástica ao ar livre, de aulas de skate e que assistem a shows e espetáculos de teatro. Essa é a rotina da comunidade de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde o bairro-escola tornou-se política pública efetiva.
O programa bairro-escola é um projeto que visa proporcionar às crianças e jovens entre cinco e 18 anos, estudantes de escolas municipais, um turno a mais de ensino. O foco principal da ação é articular atores sociais - comunidade, professores, estudantes, governo local - em busca de um único objetivo: a promoção da educação integral.
Aproveitando equipamentos que já existem na cidade e que, por muitas vezes, permanecem ociosos, atividades multidisciplinares que envolvem aprendizado na prática, cultura, esportes e lazer são oferecidas aos estudantes. Todos chegam às sete horas da manhã na escola. Parte da turma vai para sala de aula e a outra parte para o bairro. São salões de igrejas, clubes, corpo de bombeiros que se transformam em local de estudo e construção de conhecimentos. Acompanhamento pedagógico, atividades de reforço escolar e incentivo à leitura, informática, capoeira fazem parte das atividades. Ao meio dia, os estudantes se encontram para tomar banho e almoçar. À tarde, as turmas invertem o processo de ocupação dos espaços.
Nas atividades externas, os alunos são acompanhados por monitores da prefeitura municipal para circularem no bairro. Quem fica com as crianças no horário contrário ao escolar, são jovens beneficiados por programas federais e estaduais, voltados para a geração de renda como Pró-Jovem, Ponto de Cultura e Segundo Tempo. "É interessante para esses jovens pois antes eles só aprendiam uma determinada atividade. Agora, podem colocar em prática o conhecimento adquirido", explica Judith Terreiro, coordenadora do Centro de Formação da Cidade Escola Aprendiz, organização não-governamental (ONG) que inspirou o projeto em Nova Iguaçu. "Atualmente, para ser um cidadão completo, ter um emprego, é preciso conhecer coisas novas, ter acesso a lazer, cultura. Há uma tendência grande à educação integral, que é somar essas duas coisas, o que é muito importante," acha Terreiro.
O projeto tem mudado também a rotina dos bairros que o receberam. Miguel Couto, Tinguá, Vila de Cava, Jardim Tropical, Cerâmica e Prata adaptaram a estrutura urbanística das comunidades às necessidades do bairro-escola. Uma equipe de arquitetos e urbanistas está projetando soluções que respeitam a história e tradições do bairro. "Além disso, há o esforço das comunidades. Quando as crianças começaram a andar pelo bairro, os hábitos dos comerciantes locais mudaram, por exemplo. Eles deixaram de colocar mesas, cadeiras e mercadorias na calçada. O trânsito que era muito perigoso por conta da rapidez dos veículos, se disciplinou. Motoristas de táxi e ônibus se envolveram e se educaram para o trânsito. O lixo não fica mais nas ruas, espalhado. O movimento do bairro-escola obrigou as pessoas a colocarem o lixo no lugar certo", conta Terreiro. A requalificação urbanística envolveu também a comunidade. As ações vão desde pinturas em muros e intervenção artística para embelezar o caminho até a simpatia dos moradores. "
Quando as crianças passam em frente às casas, as pessoas saem para desejar um bom dia a todos, quantas vezes for preciso. A comunidade abraçou a causa para educá-los e para educar a si mesmos", acredita.
O bairro-escola é uma política pública, desenvolvida e articulada junto à prefeitura de Nova Iguaçu, suas secretarias de governo além da comunidade escolar e pais, organizações sociais e institutos. Atua junto ao projeto Escola Aberta, do governo federal, que promove a abertura de escolas públicas de ensino fundamental e médio, nos finais de semana, para toda a comunidade. "Procuramos articular juntos todos os projetos que chegam no município. Isso vem potencializar cada um deles além de provocar a redução de custos," explica a coordenadora do bairro-escola de Nova Iguaçu, Maria Antônia Goulart. "Com a junção dessas propostas, de segunda a sexta-feira, a escola vai para o bairro e, nos finais de semana, o bairro vai para a escola. O que queremos é ter cidadãos ativos, fortalecidos, jovens que canalizem energias nessas atividades e percam o atrativo pela violência", revela Goulart.
Dezesseis escolas da rede municipal, que somam 13 mil alunos, são atendidas pelo bairro-escola. Na Escola Municipal Professor Darcy Ribeiro, que atende crianças da pré-escola à 4ª série do ensino fundamental, os resultados já estão aparecendo. "Muitos alunos que não se alfabetizavam de jeito nenhum conseguiram se desenvolver em atividades de reforço escolar; oficinas de aprendizagem despertaram as crianças para a leitura. Outras coisas como as cinco refeições diárias oferecidas, além da parceria com o posto de saúde que cuida dos alunos estão contribuindo para a qualidade de vida da comunidade," conta a diretora Rita de Cássia Freire Barbosa.
Para os educadores da Cidade Escola Aprendiz, Eymard Ribeiro e Fernanda Salles, que visitaram Nova Iguaçu há um mês, a articulação dos professores tem destaque nas ações. "Os professores do município estão muito entusiasmados com o projeto, fazem acontecer. Tudo que presenciamos fortalece nossa vontade de desenvolver, cada vez mais, nossas ações em São Paulo, no bairro Vila Madalena", diz Ribeiro. "Vimos escola dialogando com a igreja, com o clube e outros espaços. O projeto é construído junto a pessoas envolvidas com a causa e mostra o quanto funciona na prática", acha Salles.
O projeto de Nova Iguaçu, se consolidou como bairro-escola em 2006. Porém, desde 2004, são realizadas no município atividades para a promoção da educação integral e que trouxeram resultados significativos. Em 2004, 60 mil crianças eram atendidas nas 96 escolas municipais. Em 2005, esse número subiu para 72 mil crianças; No ano de 2004, a evasão escolar foi de 3,8%, número que diminuiu para 0,8% em 2005. As creches, que tinham 6,7% de evasão, hoje têm evasão zero. "Nossa luta agora é para que a educação em tempo integral não se confunda com apenas estar com os estudantes em horário integral, o que pode desqualificar as ações", diz Barbosa.
O bairro-escola já tem suas metas para 2007: ampliar o projeto para toda rede municipal de ensino, melhorar gradativamente a qualidade das atividades e ampliar o repertório de atividades para os familiares dos estudantes. "A região, que sempre foi estigmatizada, mostra agora na prática que é possível um projeto de educação funcionar em um bairro mesmo sendo precário e com altos índices de pobreza. Aqui há, de fato, a mobilização local em prol da educação", diz Goulart. X