| No Ceará, uma organização não-governamental é referência nacional da promoção de projetos que envolvem crianças e adolescentes na produção de comunicação no próprio ambiente escolar. O meio principal de praticamente todos os projetos desenvolvidos pela ONG Comunicação e Cultura é o jornal produzido, de forma autônoma, pelos estudantes. Depois de mais de vinte anos, a instituição já ultrapassou divisas, chegando a municípios de vários estados do Nordeste e até do Sudeste.
Essa história começa no final dos anos 1980, no bairro do Mucuripe, uma das praias mais famosas de Fortaleza (Ceará), com o projeto de fortalecimento da memória da comunidade. Em 1987, a associação de moradores do bairro solicitou ajuda a um grupo de pessoas para a publicação de um jornal. A partir de então, os fundadores da organização deram início a uma série de ações envolvendo a mídia impressa popular. Quatro anos depois, foi lançado o projeto Jornais Comunitários Associados, que buscava facilitar a produção de jornais populares em diversos bairros da capital cearense.
Mas é a atuação nas escolas, que se tornou central a partir de 1994, a marca maior da Comunicação e Cultura. "Não conheço nenhum projeto como o nosso. É muito difícil você encontrar uma ONG que tope essa parada", avalia o sociólogo argentino Daniel Raviolo, coordenador-geral da ComCultura. Essa decisão de voltar-se para a escola provocou a necessidade de desenvolver uma iniciativa específica para organizar a demanda de estudantes, professores e diretores das escolas públicas de Fortaleza.
Surge, então, o "Clube do Jornal", que tem função de viabilizar a publicação de um jornal mensal por cada clube, formado por adolescentes do Ensino Médio. A presença nas instituições de ensino deu um impulso às atividades da ONG, fortalecendo o conceito de educomunicação, hoje razoavelmente bem difundido, sobretudo entre as entidades do terceiro setor que desenvolvem projetos junto a crianças e adolescentes. No projeto, são os estudantes que conduzem todo o processo de feitura das publicações, da concepção inicial à impressão, com orientação de educadores e apoio da gráfica mantida pela instituição.
Para qualificar a produção dos jornais e estimular a participação dos jovens, os integrantes passam por capacitações em vários temas, desde saúde reprodutiva a editoração eletrônica. Eles também se encontram regularmente para troca de experiências entre os clubes, que, além de dezenas de cidades cearenses, também já estão presentes em 13 escolas municipais de São Paulo. Um dos próximos passos, segundo Daniel Raviolo, deve ser o trabalho com "jornais multimídia" baseados na metodologia do Clube do Jornal.
Hoje, um dos principais carros-chefe da Comunicação e Cultura é o projeto "Primeiras Letras", que dá apoio a jornais editados a partir de textos, desenhos e outros conteúdos produzidos pelos estudantes do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental. O diferencial é a condução dos jornais, que, diferentemente do Clube do Jornal, fica sob a responsabilidade da direção e dos professores. A metodologia adotada pelo projeto prevê a complementaridade do jornal às atividades dos professores em sala de aula, integrando, inclusive, o Projeto Pedagógico da escola e o planejamento dos professores.
Para Raviolo, é difícil verificar o sucesso do projeto porque existem "muitas variáveis em jogo". Apesar disso, a Comunicação e Cultura tem recebido muitos convites para aplicar o "Primeiras Letras" em vários municípios do Rio Grande do Norte, Bahia, Pernambuco e do Piauí. Somente em 2008, por exemplo, foram impressas mais de 500 mil edições de jornais em cerca de 600 escolas desses estados. Além dessas iniciativas, a ONG desenvolveu, em 2008, um projeto com foco na participação de jovens de Fortaleza. Em parceria com a Coordenadoria de Juventude da Prefeitura, o "Jornais Juvenis Associados" articulou diversos grupos na cidade, que produziram jornais durante todo o ano.
*As matérias do projeto "Boas Ideias em Comunicação" são produzidas com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).
(Envolverde/Adital) |