30/10/2007

Elas são minoria nos romances

Levantamento da UnB mostra que mulheres aparecem menos em livros escritos por homens

As personagens femininas criadas por uma escritora são diferentes das mulheres criadas por escritores. A distinção parece evidente, mas revela limitações que o leitor não costuma imaginar. Nas obras escritas por mulheres, 52% das personagens são do sexo feminino. Elas representam 64,1% dos protagonistas e 76,6% dos narradores. Mas, em livros de escritores, as mulheres representam apenas 32,1% das personagens, 13,8% dos protagonistas e 16% dos narradores. Ou seja, tem um papel secundário.

"A explicação para isso talvez esteja na própria predominância masculina na literatura, que proporciona às mulheres um contato maior com as perspectivas sociais masculinas", analisa Regina Dalcastagnè, coordenadora da pesquisa A construção do feminino no romance brasileiro contemporâneo.

"Outra hipótese é que, diante dos avanços promovidos pelo feminismo, os homens se sintam cada vez mais 'deslegitimados' para construir a perspectiva feminina", completa. O estudo foi realizado por alunas do Departamento de Teorias Literárias e Literaturas da Universidade de Brasília (UnB) e levou em conta os livros publicados pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco nos últimos 15 anos.

As análises mostraram que menos de 40% de todas as personagens estudadas são do sexo feminino. "Além de serem minoritárias nos romances, as mulheres também têm menos acesso à ‘voz’, quer dizer, à posição de narradoras, e estão menos presentes como protagonistas das histórias", comenta a professora. O escritor homem trata a mulher com uma visão mais tradicional e conservadora.

O trabalho coordenado pela professora é fruto de uma pesquisa mais abrangente realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, do Departamento de Teorias Literárias e Literaturas da UnB. O grupo, formado por alunos da universidade, fez um levantamento dos livros de literatura publicados pelas editoras mais importantes do Brasil nos últimos 40 anos com a intenção de traçar um perfil das personagens criadas pelos autores nacionais. O estudo, chamado Personagens da narrativa brasileira contemporânea, avaliou 1.754 personagens e possibilitou a abertura de várias frentes de trabalho.

DESCRIÇÃO - Para organizar a pesquisa sobre as mulheres, a professora dividiu as personagens femininas em brancas e não-brancas (negras, orientais, indígenas, etc). Quando restringiu a avaliação à protagonistas brancas, o grupo percebeu que os homens as descrevem a maior parte das vezes como jovens (42,3%) e adultas (50%). Segundo Dalcastagnè, elas não chegam sequer à meia idade, e têm como principal qualidade a beleza (42,3% são belas, 50% são atraentes e apenas 34% são inteligentes). Entre outras características, as mulheres dos escritores são menos escolarizadas, não dominam a norma culta, ocupam menos a posição de intelectuais e dependem mais dos homens financeiramente (42,3%). Elas são quase sempre donas-de-casa. Um detalhe curioso é que, nas narrativas masculinas, há poucas descrições do corpo feminino, mas, quando elas aparecem, identificam a mulher brasileira como relativamente magra, loira e com cabelos longos.

Já as autoras representam mulheres em diferentes faixas etárias, da infância à velhice. A principal característica das protagonistas de escritoras é a inteligência (63%). Essas personagens têm formação superior, e muitas vezes são mais escolarizadas do que os cônjuges (22,6%) - nos autores masculinos o número é de 3,8%. Elas são mais independentes - apenas 25,9% dependem financeiramente de homens - e têm como principal talento a escrita (33,3%). Mas isso tudo se aplica apenas às personagens brancas. Nenhuma personagem não-branca escreve. Seus "talentos" são a cozinha, a costura e a dança (42,9% para cada), o que, de acordo com a pesquisadora, demarca com clareza os espaços ocupados por cada grupo.

SATISFAÇÃO - Outra descoberta feita pelo grupo diz respeito à satisfação das mulheres. Nas narrativas femininas, as protagonistas se sentem mais insatisfeitas, em relação ao sexo (59,3% delas gostam de sexo e 25,9% "aceitam" fazê-lo) e à própria sexualidade (33,3% estão insatisfeitas). Talvez por isso, entre as autoras, as mulheres traiam mais e sejam mais traídas.

Nos livros escritos por homens, 65,4% das personagens femininas gostam de sexo e apenas 3,8% estão insatisfeitas com sua sexualidade. "Nesse aspecto também há discrepância em relação às personagens não-brancas escritas por mulheres, que, ao contrário das brancas, gostam muito mais de sexo (71%) e estão mais satisfeitas com a própria sexualidade", ressalva a pesquisadora.

As diferenças se evidenciam também no modo como a maternidade é abordada. Entre os autores homens as personagens ocupam mais a função de mães. As autoras, por outro lado, diminuem o "fardo" da maternidade para as brancas (29,6%), mas o impõem em dobro para as não-brancas (57,1% delas são mães), e lhes dão um número maior de filhos.

SONHOS - Para os autores masculinos as mulheres continuam sonhando principalmente com a constituição de uma família (23,1%). Já as protagonistas das mulheres sonham com tranqüilidade (37%). A constituição de uma família aparece bem atrás, e divide espaço com a ascensão profissional, a satisfação física, as mudanças sociais e a riqueza. Para as escritoras, apenas as personagens não-brancas estão, em sua grande maioria, preocupadas com a constituição de uma família (71,4%).

Crédito da imagem: Apoena Pinheiro/UnB Agência



(Envolverde/UnB Agência)

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