30/04/2010

Educar para libertar

Indo a pé o melhor é subir o morro pela escadaria que existe na Rua Sá Ferreira, em Copacabana. Ao final dela – são muitos os degraus, portanto, recomenda-se não contar – e um pouco sem fôlego vemos logo em frente várias casas em estilo colonial pintadas de verde. Cinco ao todo, mas apenas uma delas ainda não ganhou a cor da esperança. Estamos na Rua Saint Roman onde nessas casas funciona o Solar Meninos de Luz, ONG que promove a educação formal e integral dos três meses aos 18 anos quando então os jovens são encaminhados ao ensino superior e ao mercado de trabalho. O Solar inicia o ano letivo de 2010 com 380 alunos, entre crianças e adolescentes, uma fila de espera de cerca de 250 crianças e evasão zero. Segundo Isabella Maltaroli, uma das coordenadoras da instituição, a comunidade sempre reconheceu e respeitou o trabalho do Solar, mas o sucesso veio mesmo em 2006 quando formaram no ensino médio a primeira turma de alunos que havia entrado ainda no berçário e essa turma toda ingressou na universidade. Daí por diante, o Solar virou o sonho de todas as mães do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo.

Quem atesta é Valdeci, mãe que chega correndo ao Solar para amamentar a filha. Agente comunitária de saúde, da equipe responsável pelo combate à dengue no Pavão-Pavãozinho, conta que desde que a filha Isabella estava na sua barriga ela vinha ao Solar pedir uma vaga na creche. Perguntada se é coincidência a filha ter o mesmo nome da coordenadora, ela sorri e diz que não. Foi uma forma de agradecimento e homenagem. A porta de entrada do Solar é mesmo a creche: berçário, maternal e jardim de infância. Depois a educação das crianças segue o caminho tradicional, cursam da primeira a quinta série do ensino fundamental e em seguida da sexta à terceira série do ensino médio. A diferença no Solar é que a educação além de integral é universalista e humanista. Os alunos entram às 7h30 e saem às 17h30 e não ficam com tempo ocioso. Recebem as três refeições diárias e como numa universidade tem as matérias obrigatórias e as seletivas. O dia é preenchido com aulas de música (coral, teoria, percussão, instrumentos como violino,violoncelo e violão), dança (balé, sapateado,dança de salão), artes plásticas, teatro, capoeira, informática, atividades na biblioteca e mais. “Entre as atividades, são obrigatórias o inglês, a evangelização, o estudo dirigido que é o dever casa e o reforço escolar. As demais atividades complementares eles podem escolher. A ideia é estimular todos os talentos em diversas áreas”, esclarece Isabella Maltaroli.

Assim na casa de nº 43 encontramos o centro de saúde, a sala de dança e a sala das oficinas de arte. Na casa nº 136, cinco salas que abrigam as turmas do sexto ao nono ano e a coordenação do ensino de sexto a terceira série. Já na de nº 138, turmas do primeiro ao quinto ano também distribuídas em cinco salas, mais a coordenação do ensino infantil ao ensino fundamental I. Ao lado, na casa nº 142, está o berçário, a creche, a cozinha, a sala de multimeios (dança, capoeira, judô...), o laboratório de ciências e ao fundo do terreno a quadra poliesportiva oficial, vestiários e estrutura para construção da piscina semi-olímpica. Subindo mais a ladeira, na casa nº 146 fica a sala de música e coral, as bibliotecas comunitária, infantil e escolar, a sala de arte e a galeria de arte. E por fim, na casa nº 149, o ensino médio, as turmas de primeira a terceira séries acomodadas em três salas, o laboratório de informática, a sala de reuniões, a direção e a administração geral. Isabella admite que o Solar ainda é fraco nas atividades esportivas. “Não terminamos o centro esportivo, a piscina. Precisamos de parceiros para finalizar a obra. O esporte é tão necessário e as crianças gostam tanto. Por enquanto, oferecemos somente educação física e recreação”.

A sustentabilidade do Solar vem de doações de pessoas físicas e jurídicas, tendo entre seus grandes mantenedores o Lar Paulo de Tarso – Instituição Espírita de Estudos e Assistência Social e o Instituto Paulo Coelho. Mas são muitos os parceiros. A maioria deles contribui com serviços. Como OSB – Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira ministrando as aulas de violino, violoncelo; a UniverCidade com bolsas integrais para alunos oriundos do Solar; a Learning Fun com aulas de inglês; a Módulo e a Computer Toys, empresas parceiras na informática; a ValorArte Academia de Dança, com instrutores para as aulas de dança; o Monobloco, com oficinas de percussão; o Hotel Fasano, o primeiro emprego para jovens formados do Solar; a TOTVS, com instrutores para o Programa Menor Aprendiz, isso citando apenas alguns dos atuais 46 parceiros da instituição, todos de suma importância para o desenvolvimento do trabalho.

Manter a estrutura física – três das casas são próprias, duas cedidas em comodato e uma alugada – e uma equipe com 70 profissionais contratados com carteira assinada exige um volume considerável de recursos. Pensando em novas soluções para a sustentabilidade, no final do ano passado o Solar lançou a campanha “Padrinho de Coração”, onde pessoas e empresas contribuem financeiramente de forma regular para o custeio da educação de uma criança. A campanha ganhou uma madrinha de peso, a atriz Regina Duarte, que convidada a participar acabou virando garota-propaganda da iniciativa. A forma de participação é muito simples: cada cota tem o valor de R$ 2,00 e o mínimo de contribuição para pessoa física é de quatro cotas e para pessoa jurídica é de dez cotas mensais. É possível debitar no cartão de crédito ou pagar através de boleto bancário. “O lançamento oficial da campanha foi em dezembro, quando o Solar comemorou 18 anos. Em breve vamos fazer mais barulho a respeito e divulgar de forma muito mais ampla”, anuncia Isabella.

O trabalho do Solar também voltará a ficar em evidência no final de 2010 quando a primeira turma de formados pela instituição concluir a faculdade. Uma vitória a ser comemorada. “Eles mantém contato com o Solar. Ligam para contar como vai a vida, aparecem aqui para nos visitar. Uns foram fazer curso de Publicidade, Jornalismo, Ciências da Computação, Marketing. Nosso objetivo aqui não é formar profissionais. O Solar trabalha com uma educação holística para formar homens e mulheres de bem”.


No túnel do tempo

São 18 anos como instituição devidamente constituída, só que a atuação do Solar no Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, começou bem antes. Tudo teve início na madrugada da véspera do Natal de 1983, quando a caixa d´água comunitária do morro Pavãozinho desmoronou sobre os barracos, destruindo e matando 12 moradores. A família Maltaroli de Moraes Rego que até hoje mora na rua Sá Ferreira, presenciou todo aquele sofrimento. Na manhã seguinte, Iolanda Maltaroli de Moraes Rego, mãe de Isabella, subiu o morro para prestar ajuda. No outro dia levou as filhas, Isabella e a irmã Andréa, e na outra semana, os filhos Guilherme e Daniel. Depois foram envolvendo outros parentes e amigos e daquela assistência emergencial, prestada num primeiro momento nas instalações da Associação de Moradores da comunidade, o trabalho foi crescendo, se organizando até chegar ao estágio de hoje, quando a Iolanda e filhos ainda buscam transformar a vida de crianças e adolescentes em situação de risco social – e suas respectivas famílias – através de uma educação universalista e com valores humanistas.

Alçando voo para além do Solar

No início do ano Caroline tinha que decidir se fazia matrícula na faculdade de Economia da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro ou na faculdade de Administração de Empresas da PUC – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Isso mesmo, Caroline Evelyn Coutinho da Silva, que estudou no Solar desde os três anos de idade, havia passado nos dois vestibulares. Sua classificação no vestibular da PUC foi tão boa que tinha direito a bolsa de estudos integral. O que ela fez? Optou pela PUC. “Sei que nas duas faculdades eu teria uma ótima qualidade de ensino, mas preferi cursar Administração”, fala Caroline muito centrada nos seus 18 anos. Conta que no Solar fez dança, coral, flauta, capoeira, aproveitou tudo que era oferecido. “No Solar sempre existiu a preocupação com o bem-estar do aluno. Éramos incentivados e estimulados. E a opinião da gente ouvida de um jeito bem democrático. Era como se estudássemos num colégio particular”. Caroline também ressalta a base religiosa recebida. “Apesar dos coordenadores serem espíritas, a Isabella, a Iolanda, elas nunca impuseram a sua doutrina. Eu sou católica e não houve nenhum problema com isso”. Ela se considera uma privilegiada por ter passado pela instituição e diz que sempre que tem oportunidade faz a maior propaganda do Solar.

Elisabete dos Santos Pereira, que também entrou para o Solar na creche, acabou se formando no ensino médio numa escola em Oregon, nos Estados Unidos, através de um intercâmbio. E com tudo que tem direito uma típica estudante americana: o baile de formatura, a cerimônia ao ar livre com beca e chapéu jogado para o ar. “Foi tudo através de um projeto do Solar. Primeiro ganhei uma bolsa para estudar inglês no IBEU e depois fui para Oregan através de uma iniciativa intitulada “Students Helping Street Kids”. Terminei o ensino médio lá. Isso foi em 2007. Uma experiência inesquecível e que só me abriu portas. Na volta fiz vestibular e passei na faculdade de Turismo da UniverCidade também parceira do Solar”. Hoje aos 20 anos, Elisabete faz parte da equipe do call center do Hotel Fasano e cursa o quarto período de Turismo. “Meu plano é um dia voltar para ajudar o pessoal do Solar de alguma forma. Fazer pelos outros exatamente o que fizeram por mim”.

(Envolverde/Revista Plurale)

 
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