22/04/2026

Educando contra o Genocídio Consentido

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Pode soar estranho, mas indivíduos que deveriam ser esclarecidos por seguirem a religião cristã demonstram, muitas vezes, uma profunda imbecilização ao defenderem as ações de Israel contra os palestinos. Utilizam como argumento um suposto direito dos israelenses de ocuparem aquelas terras pelo fato de seus ancestrais terem vivido ali em tempos remotos; ou seja, ignoram por completo a história, a própria origem e até mesmo a nossa ancestralidade.

Tomemos como ponto central esse argumento que permite dizimar vidas de civis — principalmente crianças atingidas na cabeça e no peito[1] — em nome de uma terra que pertenceu a um povo em um passado remoto. Observe a incoerência: aceitar essa lógica seria o mesmo que permitir que os povos indígenas matassem todos aqueles que ocuparam seus territórios. Afinal, quando europeus vieram usurpar as riquezas das Américas, já existiam civilizações estabelecidas que foram dizimadas e rotuladas como selvagens. Essa dinâmica faz valer as análises de Pappé (2016) [2], que identifica a ocupação não como um retorno, mas como um processo documentado de expulsão deliberada dos palestinos de seu próprio território.

A história frequentemente segue a narrativa dos opressores, que se vitimizam para justificar holocaustos cometidos, mantendo o foco na apropriação indevida de riquezas alheias em nome de um deus. Há, ainda, a demonização daqueles que tiveram a dignidade roubada e as vidas ceifadas, fenômeno elucidado por Said (2012) [3] ao argumentar que o Ocidente construiu uma imagem do árabe como um povo "selvagem" para justificar a colonização e a exploração de suas terras. O mesmo padrão ocorreu nas Américas, onde os nativos foram desumanizados sob o mesmo rótulo.

Benjamin Netanyahu destaca-se como o líder sob cuja gestão as maiores atrocidades foram cometidas. Somente em Gaza, até abril de 2026, as operações sob seu comando resultaram na morte de mais de 72 mil palestinos. Investigações baseadas em dados de inteligência apontam que 83% dessas vítimas eram civis, enquanto estudos publicados na revista científica Lancet[4] sugerem que o número real pode ultrapassar 75.200 mortos, incluindo cerca de 22.800 crianças e jovens.

O aspecto mais desolador é a omissão da mídia, que banaliza e até normaliza esses eventos sob o pretexto de uma "terra prometida" a um "povo escolhido", sugerindo que o Criador possua filhos prediletos em detrimento de outros. É triste observar cristãos favoráveis a tamanha violência. A estultice é tão gritante que defensores brasileiros abraçam a bandeira de uma nação acusada de genocídio, acreditando haver ali uma irmandade cristã, apesar de, na realidade, prevalecerem diversas formas de intolerância contra os cristãos naquela região.

Cabe à educação não aceitar essa banalização. É dever das instituições de ensino orientar os alunos a compreenderem a verdadeira história, discernindo que o deus pregado pelos defensores da guerra é um deus da morte, enquanto o verdadeiro Deus representa o amor, a compaixão, o perdão e a caridade.

Este texto não se trata de antissemitismo ou antissionismo; trata-se de reafirmar que o direito à vida é inalienável e independe de religião ou ideologia. As diferenças devem ser trabalhadas e respeitadas pela diplomacia, conforme ensinado nas escolas. Que possamos orientar nossos jovens a perceberem que o conhecimento é libertador e, por vezes, doloroso, pois quem alcança a consciência não pode mais aceitar as amarras da ignorância, tampouco terceirizar seus pensamentos aos manipuladores da fé.

 

[1] https://www.band.com.br/noticias/jornal-da-band/ultimas/exercito-israelense-matou-criancas-palestinas-com-tiros-na-cabeca-e-no-peito-202508261944

[2] PAPPÉ, Ilan. A Limpeza Ética da Palestina. Tradução de Luiz Gustavo de Queiroz. São Paulo: Editora Sundermann, 2016.

[3] SAID, Edward W. A questão da Palestina. Tradução de Sonia Goldfeder. São Paulo: Editora UNESP, 2012.

[4] LANCET, The. Estimating total fatalities in the Gaza conflict. Londres, v. 404, 2024/2026.

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