Educadores são reconhecidos por iniciativas inovadoras no ensino público
Por Cássia Gisele Ribeiro, do Aprendiz
Auto-retratos para fazer com que as crianças conheçam a si mesmas e reflitam sobre suas vidas. Matemática aplicada à realidade dos alunos da zona rural. História a partir do contexto social vivido por cada aluno. Idéias como essas, aplicadas por educadores de escolas públicas de todo o país, foram grandes destaques do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. Em cerimônia realizada na última segunda-feira (15), Dia dos Professores, a Fundação Victor Civita destacou o trabalho de dez educadores de diversas regiões do país.
O Prêmio Educador do Ano, o mais importante da noite, foi entregue para a professora Paula Modenesi Ribeiro, que dá aulas de artes para turmas do primeiro ciclo do ensino fundamental da Escola Estadual Ludovinia Credídio Peixoto, em São Paulo. Os alunos tiveram acesso à história de vida e obra da mexicana Frida Kahlo, inspiração adequada para a produção de auto-retratos, já que esse é o ponto mais marcante das obras da artista.
A partir daí, a professora levou para as crianças diversas atividades de auto-conhecimento, nas quais os alunos puderam perceber suas características, identidades e, assim, pesquisar sobre suas origens. "Minha idéia era levar auto-conhecimento às crianças, que é fundamental para que elas se reconheçam como parte dessa sociedade", afirma a educadora.
Outros nove projetos receberam o troféu em diferentes categorias. Na área de Educação Física, destacou-se o professor José Carlos dos Santos, da Escola Estadual Euclides Bueno Garcia, em São José dos Campos. "Vivemos em um país onde as crianças reconhecem somente o futebol e o vôlei como esporte. Percebo a necessidade das crianças de escola pública conhecerem outras modalidades esportivas, para que possam ter autonomia para escolher os que mais gostam", diz.
Críquete, beisebol, softbol, taco, tênis de quadra e frescobol foram algumas das modalidades levadas para as turmas de 5º série da escola. Como o colégio sofre com a escassez de material para essas modalidades, o professor teve que improvisar com materiais como giz e raquetes de madeira, feitas pelo pai do professor. "O importante não é a forma como a atividade acontece, mas sim que eles conheçam as diferentes modalidades e escolham as que mais agradam", pontua.
Outro projeto de destaque foi a ação da professora de Matemática Vânia Horner de Almeida, da Escola Municipal Procópio Faria, do Mato Grosso. Com base em uma das maiores fontes de renda da região - o comércio e a produção de leite e derivados -, os alunos levantaram dados sobre a economia local, calcularam a renda mensal de suas famílias, os preços adequados para os produtos e avaliaram quais eram os mais lucrativos.
Um dos pontos mais importantes de diversos projetos escolhidos é o respeito aos conhecimentos trazidos pelos alunos. Na área de História, a educadora Iara Rodrigues Lopes trabalhou as grandes navegações de forma bastante diferenciada. "Primeiro contei às crianças um pouco sobre as grandes navegações, quanto tempo duraram, quando aconteceram. Depois, pedi aos alunos que desenhassem juntos uma grande caravela e, dentro dela, tudo o que consideram necessário para a efetivação da viagem", conta.
Apareceu entre os desenhos pizza, geladeira, fogão, cama, muita comida, microondas, entre outras coisas, impensáveis. "A partir daí começamos a trabalhar as características daquela época", conta. Até que uma das alunas disse: "não dá para ter geladeira, porque naquela época não tinha eletricidade!", disse.
Outro projeto com esse perfil foi realizado pela professora de Geografia Luzia Feitosa Jabra, da Escola Municipal Professor João de Lima Paiva. A escola recebe alunos da região de Guaianases, uma das mais populosas e com menor índice de desenvolvimento humano de São Paulo. Luzia levou seus alunos para a rua, de forma que fizessem uma intensa pesquisa sobre a história do bairro, sobre como ele nasceu e cresceu, sobre as necessidades locais e o quanto o espaço físico interfere em seu desenvolvimento. Nesse processo, os alunos aprenderam a reconhecer maquetes, a mapear uma região, e descobriram o que é índice de desenvolvimento e outros elementos importantes para o aprendizado de geografia.
"Olhando os mapas a gente vê que no bairro do Ipiranga os quarteirões são perfeitos, é bem planejado. Já o de Guaianases é uma bagunça. É que não foi planejado, né?", comenta um dos alunos. Entender o conceito de periferia e o por quê do bairro existir dessa forma é fundamental para que se pense mudanças e melhorias. Mas os adolescentes não identificaram só problemas: os grandes pontos de encontro, os moradores antigos e outros aspectos positivos também fizeram parte da pesquisa.
Um tema de bastante destaque durante a premiação foi o da alfabetização, que é considerado um dos maiores problemas da atualidade nas escolas públicas. Segundo dados do último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), muitas crianças chegam ao ensino fundamental II sem saber ler. Três projetos com esse foco foram premiados.
O primeiro deles, realizado pela professora Fátima Regina Reis Ribeiro, foi aplicado na educação infantil com crianças de quatro anos. Os alunos já começam a apreciar os livros infantis e com base em suas figuras e histórias, contadas pela professora, desenvolveram um livro coletivo. Iranez Ponsoni, professora da Escola Ângela Pellegrini Paludo, no Rio Grande do Sul, passou a trabalhar com artigos e textos jornalísticos com jovens de 8º série. Já a professora Renata Gomes Campos Pio dos Reis, que trabalha com crianças de 4ª série, encabeçou o lançamento de um livro escrito pelas crianças.
Na educação infantil, outro projeto foi premiado: A professora da Escola Municipal Francisca Aragão Silva, de Rio Branco, no Acre, criou junto com os alunos um insetário com espécies variadas. "Se as crianças são curiosas porque não aproveitar essa característica para ensinar?", constata.
E finalmente, a escola escolhida para receber o Prêmio Escola foi a Escola Municipal Cata Preta, de Santo André (SP). Segundo a diretora Silvana Tamassia, um projeto envolveu toda a comunidade escolar para a realização de diversas ações e resultou na diminuição dos índices de repetência e alfabetização em 90%.
"Reconhecer as atitudes de todos os professores comprometidos é um caminho para a valorização da profissão, elemento essencial para a melhoria da educação", afirmou o Secretário Municipal da Educação de São Paulo, Alexandre Schneider, durante a cerimônia de entrega do prêmio.
(Envolverde/Aprendiz)