09/06/2006

Educador critica postura da escola de hoje

Rui Canário esteve em Curitiba no mês passado.

Admirador de Paulo Freire e pesquisador nas áreas de sociologia e formação de adulto, o professor Rui Canário, hoje catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, em Lisboa, afirma que não é possível prever o futuro da escola, mas é possível problematizá-lo a partir de uma reflexão crítica.

Em passagem recente por Curitiba, no mês passado, onde lançou o livro “ A Escola tem Futuro? Das promessas às Incertezas ”, e proferiu palestra a educadores, o professor defendeu as instituições de ensino e lembrou, porém, que modificações devem ser feitas para tornar a escola um ambiente mais próximo da comunidade.

O educador, que se considera um otimista, acredita que o futuro da escola está em se aprender pelo trabalho e não para o trabalho. Em sua opinião, a escola deve desenvolver e estimular o gosto pelo ato de aprender. Deve ser o lugar onde possa se viver a verdadeira democracia. Para Canário hoje a educação é obsoleta e sofre um déficit de legitimidade. “Faz o contrário daquilo que promete”, afirma o educador.

Problemas - Embora haja muitas críticas em relação ao setor educacional no terceiro mundo, o educador lembra que problemas vividos hoje por esses países são os mesmos dos países desenvolvidos. Em Portugal, por exemplo, há índices de analfabetismo. França e Inglaterra também passam por crises como desinteresse ou rejeição por parte dos estudantes e isso gera indisciplina e violência. Além disso, em quase todos os países, diplomas não garantem o melhor emprego, um fenômeno muito comum no Brasil também.

Para Canário o mundo está desencantado com a escola

Para Canário o que muda entre os países não são os problemas, mas o grau de dificuldade em administrar esses problemas. Em sua opinião o mundo passa hoje por um desencanto com a escola. O motivo: as instituições de ensino não foram capazes de prevenir desigualdades sociais. Para ele hoje não há uma democratização da escola. E tampouco uma aproximação da comunidade com as instituições. “Não há mais como se viver num processo educativo fechado. As barreiras têm que desaparecer”, garante.

Ele lembra que em Portugal uma das barreiras quebradas entre comunidade e escola foi a abertura das instituições de ensino nos finais de semana. A mudança aproximou a comunidade e as instituições e tornou os locais centros de educação permanente.

Para o educador, a transformação da escola deve se basear em dois planos fundamentais: pensar a escola a partir de uma educação não-escolar; e caminhar no sentido de desalienar o trabalho escolar para que o trabalho de aprender possa ser vivido como uma “obra”. “Na escola temos que criar seres curiosos”, diz.

A questão curricular também é muito importante. Sem deixar de lado o conhecimento universal, na opinião de Canário é fundamental que a escola aproxime o aprendiz da sua realidade. Um trabalho positivo apontado por Canário no Brasil é a forma adotada pelo Movimento Rural Sem Terra (MST). “Tive a oportunidade de conhecer o trabalho. Esse é um exemplo de como a própria comunidade pode modificar uma realidade”, disse.

As cotas e os nove anos do ensino fundamental

Conhecedor do sistema educacional brasileiro, Rui Canário aponta algumas medidas adotadas recentemente como positivas para o país. Entre elas a proposta da adoção de 9 anos para o ensino fundamental. Para ele essa é uma tendência que já é utilizada por países na Europa. Outra medida positiva é a garantia de cotas dentro das universidades. Segundo ele esse é um processo de discriminação positiva que vai aproximar as minorias e combater, assim, a desigualdade.

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