23/12/2025

Educação para o Século XXI: Os Quatro Pilares de Jacques Delors em Perspectiva.

Por - Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor, Pesquisador, Pedagogo, Graduado em Educação Especial, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista em Psicopedagogia Institucional.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2342324641763252

 

A educação no século XXI enfrenta desafios profundos decorrentes das transformações sociais, tecnológicas, econômicas e culturais que redefinem as relações humanas, o mundo do trabalho e a produção do conhecimento. Nesse cenário de aceleração histórica, marcado pela desestabilização de certezas e pela emergência de novas formas de exclusão, torna-se insuficiente e até anacrônica uma concepção educacional limitada à transmissão de conteúdos ou à formação meramente técnica, exigindo-se uma educação radicalmente comprometida com o desenvolvimento integral do ser humano e com a consolidação da cidadania democrática, crítica e ativa (ANTUNES; PADILHA, 2010).

O Relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenado por Jacques Delors e publicado sob o título “Educação: um tesouro a descobrir”, constitui um marco teórico fundamental ao propor os Quatro Pilares da Educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser (DELORS, 1998). Esses pilares não são apenas objetivos paralelos, mas são concebidos como aprendizagens interdependentes e sinérgicas, que devem orientar os sistemas educacionais ao longo de toda a vida, superando visões fragmentadas e estritamente instrumentais da educação que ainda predominam em muitas práticas escolares. O relatório se apresenta como uma resposta prospectiva ao dilema central de nosso tempo, ou seja, como fornecer, simultaneamente, os "mapas de um mundo complexo e a bússola para navegar por ele", preparando os indivíduos para uma realidade de mudanças contínuas.

O aprender a conhecer refere-se ao desenvolvimento da curiosidade intelectual, do pensamento crítico e, sobretudo, da capacidade de aprender continuamente, indo muito além da simples acumulação de informações estáticas. Este pilar enfatiza o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento, "aprender a aprender", como condição para a autonomia intelectual em uma sociedade saturada de dados. Essa perspectiva dialoga intimamente com a concepção de educação permanente e com práticas pedagógicas que valorizam a pesquisa, a reflexão, a problematização e a construção ativa do saber pelo educando, em contraposição à mera recepção passiva (FAURE et al., 1972; GALVÃO; LEAL, 2005).

Já o aprender a fazer relaciona-se à aplicação criativa e contextualizada do conhecimento. Ele transcende a antiga associação com a formação profissional restrita, exigindo o desenvolvimento de competências transversais como criatividade, flexibilidade, capacidade de trabalhar em equipe, solucionar problemas complexos e tomar decisões em situações de incerteza, especialmente em uma sociedade marcada pela inovação tecnológica acelerada e pela reconfiguração constante do mundo do trabalho (DELORS, 1998; MARTINS, 2012). Este pilar reconhece que o saber só se completa na ação transformadora sobre a realidade.

O pilar aprender a conviver assume centralidade urgente em um contexto global de intensificação das desigualdades, conflitos sociais, fundamentalismos e intolerâncias. Ele pressupõe o reconhecimento positivo e ativo da diversidade, o desenvolvimento da empatia e a construção de relações intersubjetivas baseadas no diálogo respeitoso, na cooperação e na gestão pacífica de conflitos. A educação em direitos humanos constitui elemento fundamental e operacional nesse processo, pois promove valores e atitudes concretas de respeito à dignidade humana inalienável, à justiça social e à construção de uma cultura de paz, objetivos fundamentais tanto para a convivência escolar imediata quanto para a sociedade em escala macro (UNESCO, 2012; FAVARÃO, 2011). Trata-se de um antídoto educativo contra a barbárie.

Por sua vez, o aprender a ser representa a síntese e o horizonte ético dos demais pilares, voltando-se ao desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade, à autonomia moral, à formação de um juízo crítico próprio, à criatividade e à responsabilidade social e política (DELORS, 1998). É o pilar que resguarda a educação contra o risco de alienação e massificação, insistindo que seu fim último é a realização de cada indivíduo em sua singularidade, "não deixando inexplorado nenhum dos tesouros escondidos em cada pessoa". Esta é uma visão profundamente humanista que ressoa com perspectivas filosóficas que veem a educação como processo de libertação e de construção da subjetividade autônoma.

No contexto brasileiro, os princípios humanistas e integradores dos Quatro Pilares da Educação encontram sólido respaldo na Constituição Federal de 1988, que define a educação como direito de todos e dever do Estado, visando ao "pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (BRASIL, 1988). Contudo, apesar desse alinhamento discursivo, observa-se persistentemente que as práticas educativas no cotidiano das escolas ainda privilegiam de forma desequilibrada o aprender a conhecer (muitas vezes reduzido à memorização) e aspectos utilitaristas do aprender a fazer, relegando o aprender a conviver e o aprender a ser a um plano secundário, incidental ou meramente retórico. Essa distorção compromete gravemente a formação integral dos sujeitos e reproduz um modelo escolar que pouco contribui para a superação das crises éticas e sociais que nos assolam (GADOTTI, 2008a; PADILHA, 2007).

Nesse cenário, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), instituída pela Resolução CNE/CP nº 2/2017, emerge como um instrumento de política educacional com o potencial de reequilibrar essa balança, pois sua estrutura é profundamente influenciada pela visão integral dos Quatro Pilares. Conforme aponta BRASIL (2017), a BNCC organiza-se em torno de dez competências gerais que explicitam a necessidade de articular, de forma indissociável, conhecimento, habilidades, atitudes e valores, superando uma visão compartimentada do currículo. Essa estruturação dialoga diretamente com a proposta de Delors, que insiste na interdependência dos pilares como eixo de uma educação completa.

intersecção entre a BNCC e os pilares de Delors é clara e propositiva. O aprender a conhecer encontra sua contraparte prática na competência 4 da BNCC, que prevê o uso crítico de diferentes linguagens para se expressar e construir significados, e na competência 5, que trata da compreensão e utilização crítica das tecnologias. Já o aprender a fazer se concretiza na competência 2, que exige a mobilização de conhecimentos para investigar causas e elaborar soluções, e na competência 3, que valoriza o repertório cultural para argumentar e fundamentar escolhas. O aprender a conviver é o núcleo da competência 9, dedicada ao exercício da empatia, do diálogo e da cooperação, e da competência 10, que instrui a agir com responsabilidade e ética. Por fim, o aprender a ser é diretamente trabalhado pela competência 6, sobre valorizar a diversidade e acolher as diferenças, e pela competência 8, que foca no autoconhecimento, no autocuidado e na construção de um projeto de vida (BRASIL, 2017).

Dessa forma, a BNCC não apenas reflete, mas também institucionaliza e operacionaliza os princípios de Delors no ordenamento educacional brasileiro. No entanto, como alertam CURY (2018) e SACRISTÁN (2013), a mera existência de um documento normativo não garante a transformação da prática. É necessário um esforço conjunto de gestores, formadores e professores para interpretar essas competências à luz dos contextos locais, desenvolvendo metodologias ativas, processos avaliativos formativos e situações de aprendizagem que integrem os quatro eixos de maneira concreta. A formação continuada de professores, portanto, assume um papel decisivo para que a BNCC e os pilares de Delors se tornem, de fato, o cerne de uma prática pedagógica transformadora e emancipatória nas salas de aula.

Com um sentimento humanista, conclui-se, portanto, que os Quatro Pilares da Educação, longe de serem uma formulação datada, permanecem extraordinariamente atuais e constituem um referencial teórico essencial e vigoroso para repensar políticas educacionais, currículos e práticas pedagógicas verdadeiramente comprometidas com a formação humana integral. Ao articular de forma interdependente conhecimento, ação prática, convivência democrática e desenvolvimento pessoal, a proposta de Delors oferece um quadro coerente para uma educação humanizadora, democrática e socialmente comprometida. Ela se configura como um projeto pedagógico capaz de revelar o “tesouro” presente em cada ser humano e, ao fazê-lo, de promover a construção coletiva de uma sociedade mais justa, solidária, pacífica e sustentável, respondendo aos dramáticos imperativos do nosso tempo. A tarefa urgente é transformar essa poderosa teoria, agora também amparada por diretrizes como a BNCC, em uma prática educacional transformadora generalizada.

Referências Bibliográficas

ANTUNES, Ângela; PADILHA, Paulo Roberto. Educação Cidadã, Educação Integral: fundamentos e práticas. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2010.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 5 out. 1988.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação Infantil e Ensino Fundamental. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2017.

CAMBA, Salete Valesan. ONGs e escolas públicas: uma relação em construção. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2009.

CURY, C. R. J.; REIS, M.; ZANARDI, T. A. C. Base Nacional Comum Curricular: dilemas e perspectivas. São Paulo: Cortez, 2018.

DELORS, Jacques (coord.). Educação: um tesouro a descobrir: Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Tradução de José Carlos Eufrázio. São Paulo: Cortez Editora; Brasília: Unesco, 1998.

FABRE, Juliana Zacarias. Ações Afirmativas e Estado Democrático de Direito: consequência ou resistência? Dissertação (Mestrado) – Universidade de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, 2005.

FAURE, E. et al. Aprender a ser: o mundo da educação hoje e amanhã. Relatório da Comissão Internacional sobre o Desenvolvimento da Educação para a UNESCO. Paris: UNESCO, 1972.

FAVARÃO, Maria José. Gestão escolar e educação em direitos humanos. In: PINI, Francisca Rodrigues de Oliveira; MORAES, Célio Vanderlei (orgs.). Educação, participação política e direitos humanos. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2011. p. 189-196.

GADOTTI, Moacir. Convocados, uma vez mais: ruptura, continuidade e desafios do PDE. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008a.

______. Educar para a sustentabilidade: uma contribuição à década da educação para o desenvolvimento sustentável. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008b.

GALVÃO, Andréa; LEAL, Telma Ferraz. Há lugar ainda para métodos de alfabetização? Conversa com professores(as). In: MORAIS, Artur Gomes; ALBUQUERQUE, Eliana Borges Correia de; LEAL, Telma Ferraz (orgs.). Alfabetização: apropriação do sistema de escrita alfabética. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. p. 11-28.

HERKENHOFF, João Baptista. Para onde vai o Direito? Reflexões sobre o papel do Direito e do jurista. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001.

MARTINS, Eliana Bolorino Canteiro. Educação e serviço social: elo para a construção da cidadania. São Paulo: Unesp, 2012.

PADILHA, Paulo Roberto. Educar em todos os cantos: reflexões e canções por uma educação intertranscultural. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2007.

ROTHBARD, Murray Newton. Educação: livre e obrigatória. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013.

SACRISTÁN, J. G. (Org.). Saberes e incertezas sobre o currículo. Porto Alegre: Penso, 2013.

SILVA, Alexandro Fernando et al. Formação de educadores sociais: Projeto JovemPaz: Construção intercultural da paz e da sustentabilidade. São Paulo: Cortez, 2004.

UNESCO. Programa Mundial para a Educação em Direitos Humanos: Plano de Ação. Brasília: UNESCO, 2012.

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×