Educação Não é Comércio: O Erro em Generalizar a Crise do EaD no Brasil
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
De acordo com reportagem do Jornal da Noite, da Rede Bandeirantes, a primeira avaliação docente realizada pelo Ministério da Educação (MEC) indicou que mais de um terço dos professores avaliados não alcançou o nível básico para lecionar, com maior deficiência identificada na área de matemática. Esse índice corresponde a 35% dos profissionais reprovados, os quais foram considerados inaptos para o magistério. O resultado da avaliação explicitou a fragilidade de diversas faculdades a distância, motivando o debate sobre restrições ao ensino online[1] por parte do MEC. Contudo, ao analisar tais informações, percebe-se que o cenário delineado é equivocado e generalista.
Licenciaturas oferecidas na modalidade a distância por instituições como as Universidades Federais de Minas Gerais (UFMG), de Goiás (UFG), de Ouro Preto (UFOP), de Lavras (UFLA), de São Paulo (UNIFESP) e do Rio de Janeiro (UFRJ) obtiveram nota máxima (5,0) no Enade, enquanto outras alcançaram o conceito 4,0. Dessa forma, o discurso oficial do Ministério da Educação mostra-se excessivamente generalizador. O Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) atua como um braço forte de instituições renomadas e oferece educação pública de qualidade. Todavia, a falta de monitoramento transformou parte do Ensino a Distância (EAD) privado em um "mercado de diplomas", impulsionado pela lógica capitalista, o que acaba por retirar o mérito das instituições idôneas.
Os fatos evidenciam essa disparidade: uma cidade com pouco mais de 55 mil habitantes, por exemplo, abriga mais de sete polos de redes privadas de EAD. Esse crescimento desordenado reflete a existência de empresas educacionais que priorizam o lucro e a captação em massa, relegando a qualidade acadêmica a um plano secundário. Para tanto, investem em publicidades que prometem diplomas rápidos, sem esforço e a baixo custo. A baixa qualidade pedagógica manifesta-se na alocação de apenas um tutor para turmas superlotadas, na ausência de aulas síncronas e na aplicação de avaliações superficiais e automatizadas, que não exigem a autonomia intelectual do estudante. Soma-se a isso a precarização do trabalho docente, caracterizada pela demissão em massa de mestres e doutores, substituídos por ferramentas de Inteligência Artificial e tutores sobrecarregados[2].
Essas constatações são corroboradas por Capella e Souza (2026) [3], que afirmam que as faculdades focadas no mercado de diplomas caminham na contramão da democratização da educação superior. Segundo os autores, tais instituições reproduzem desigualdades sociais e econômicas por meio da exploração laboral docente, adotando moldes empresariais que funcionam como vetores da financeirização e da mercantilização educacional. Ao ingressarem na lógica da maximização do lucro — facilitada pela economia de escala, centralização de conteúdos e redução de custos operacionais —, essas redes privadas promoveram um crescimento exponencial de cursos sem compromisso com a excelência, transformando o direito à educação em um mercado promissor.
Diante desse cenário, em vez de punir indistintamente todas as instituições que oferecem EAD e extinguir a modalidade online, o poder público deveria utilizar os dados estatísticos a favor da educação. Para acolher este 1/3 de professores reprovados, o caminho ideal seria rastrear as instituições de origem desses egressos e exigir delas medidas que resguardem a qualidade do ensino, obrigando-as a ofertar, de forma gratuita, cursos de nivelamento e atualização para seus ex-alunos. O Sistema UAB demonstra que o ensino a distância pode se desenvolver em um contexto de ética, profissionalismo, qualidade e democratização gratuita. Afinal, a educação não deve ser tratada como comércio, mas sim como um direito inalienável do cidadão.
[1] https://www.instagram.com/reel/DbOyv4tu-RU/?igsh=ODdvOHVtaHI2a3o2
[2] ASSISTENTE DE IA. Mercado de diplomas e regulação do MEC nas EADs privadas. [S. l.]: OpenAI, 27 jul. 2026. Comunicação pessoal em formato de chat de IA.
[3] CAPELLA, Leandro; SOUSA, Andrea Luciana Harada. A eadização do ensino superior privado e a precarização do trabalho docente: contradições do capital à luz do Decreto nº 12.456/2025. e-Curriculum, São Paulo, v. 23, e73249, 2025. Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-38762025000100260&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 27 jul. 2026. Epub 12-Jan-2026. https://doi.org/10.23925/1809-3876.2025v23e73249.