05/01/2006

Educação não detém desemprego

Nem sempre quem estuda mais tem trabalho garantido, é o que revela pesquisa da Universidade de Brasília.

É comum pensar que quem estuda mais tem melhores oportunidades de encontrar um trabalho. A realidade, entretanto, mostra que nem sempre é assim. Quanto mais pobre é o trabalhador, maior a probabilidade de ficar desempregado, independentemente dos anos de estudo. Esse quadro foi analisado na pesquisa "Características do Desemprego no Brasil. A Educação Protege contra o Desemprego?", da aluna do 6° semestre de Economia da Universidade de Brasília (UnB) Victoria Echeverría de Carvalho. Ela se baseou na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 1992 a 2003 (ano referência da última pesquisa), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e foi orientada pelo professor Carlos Alberto Ramos, do mesmo departamento. Ao verificar os dados da pesquisa, Ramos é enfático: “As pessoas estão comprando a ilusão de que, se estudarem, vão encontrar mais trabalho e isso não é verdade.”

Em 2003, entre as pessoas do 1° decil (10% mais pobres) que tinham nível superior completo ou incompleto (15 anos de estudo), 50% estavam desempregadas. Já as pessoas do 10° decil (10% mais ricos) tinham baixíssimos índices de desocupação. Na classe média, a taxa de desemprego era de 20%. Apesar dos resultados, a estudante não aconselha o abandono dos estudos. “Se as pessoas não estudarem, aí é que a situação não vai melhorar nunca. Na verdade, precisamos de processos seletivos mais transparentes e de um melhor ensino público para que as pessoas tenham chances reais de competir“, defende Vitória.

O fato de o desemprego persistir nas classes mais pobres pode ser atribuído a diversas hipóteses, segundo Ramos: 1) as pessoas se recusariam a trabalhar em qualquer posto de trabalho; 2) elas não conseguiriam ingressar nos cursos superiores para cursar carreiras mais promissoras ou que poderiam lhes proporcionar maiores rendimentos; 3) tais pessoas não teriam uma rede de contatos, relacionamentos-chave com pessoas que poderiam vir a oferecer empregos.

DESEMPREGO E RENDA – Victória também analisou o índice de desemprego por nível de renda, independentemente de nível escolar. O nível de desemprego é maior no 1° decil e se verifica uma curva ascendente. Entre 1992 e 2003, ele passa de 10% para 21% em tal segmento. Nesse mesmo período, entre os 10% mais ricos, o índice é praticamente o mesmo, na faixa de 4%, e entre a classe média (decil 5) praticamente se mantém, de 8% para 10%. Para Ramos, esse dado é preocupante, pois sinaliza que a taxa de desemprego aumentou mais entre os mais pobres. Por isso, o grupo merece mais atenção nas políticas de combate ao desemprego.

INSTRUÇÃO – Segundo a pesquisa, os dados sugerem que a educação não é um seguro contra o desemprego. As chances de desemprego são praticamente iguais para quem tem apenas o ensino fundamental e o nível superior. Em 1992, a taxa era 6% para o nível fundamental incompleto e 7% para o nível superior. Em 2003, as taxas praticamente se igualavam em 9%. Já entre quem está no nível médio (oito a dez anos de estudo), a taxa subiu de 10% para quase 15%, um crescimento mais significativo.

“Pessoas que completaram o ensino médio podem não aceitar trabalhar em postos de trabalho destinados àqueles que possuem qualificação inferior à deles. Mas não possuem qualificação suficiente para ocupar postos de trabalho mais elevados. Portanto, terminam mantendo-se na situação de desempregados”, explica a futura economista. “A oferta de pessoas com ensino médio também é cada vez maior e isso talvez explique as maiores taxas de desemprego nesse nível de instrução”, complementa Ramos. Veja a seguir o gráfico:

GÊNERO – Comparando homens e mulheres, na faixa de oito a dez anos de estudo, a taxa de desemprego em 2003 entre mulheres é maior (27%) do que entre homens (16%). Na realidade, considerando apenas a variável gênero, as mulheres têm sempre mais chances de ficarem desempregadas que os homens. No entanto, entre aqueles com nível superior, a taxa de desemprego se iguala.

DESEMPREGO E FILHOS – Em 2003, as mulheres que têm filhos têm consideravelmente menos chances de ficar desempregadas que as mulheres sem filhos. Isso acontece entre as mulheres que têm o ensino médio. “Essa mulher teria mais necessidade de entrar no mercado de trabalho para poder sustentar a família e, por isso, aceita qualquer emprego”, explica Victória. Entre as mulheres com nível superior, a taxa de desemprego é praticamente a mesma, 6% (sem filhos) e 4% (com filhos). Em regressões calculadas, as mulheres sem filhos têm 127% mais chances de ficarem desempregadas que as mulheres com filhos.

FORÇA DE TRABALHO – De 1992 a 2003, a quantidade de pessoas com ensino médio aumentou significativamente. Se em 1992, havia oito milhões de pessoas no Brasil com esse grau de escolaridade. Em 2003, o número já era de 23 milhões – expansão de quase 190%. O segundo maior crescimento foi na quantidade de pessoas com nível superior completo, que ficava na faixa de quatro milhões de pessoas em 1992 e, em 2003, dobrou para oito milhões. A curva de pessoas com ensino fundamental também é ascendente, mas o aumento é o menor de todos, vai de oito milhões para 13 milhões no mesmo período anos ou 62%.

“Talvez isso aconteça, pelo aumento na demanda de mão-de-obra mais qualificada exigida pelas empresas a partir do processo de abertura da economia”, supõe Victória (ver gráfico abaixo). De acordo com Ramos, à medida que aumenta a quantidade de pessoas com ensino médio completo, a tendência é que o desemprego também aumente nessa faixa. O mesmo se dará quando a maior parte da população tiver nível superior completo.

Resumo

* A probabilidade de ficar desempregado é maior em pessoas com ensino médio.
* Em pessoas com nível superior, a taxa de desemprego é maior do que entre os mais pobres.
* A probabilidade de a mulher ficar desempregada é maior do que a dos homens.
* Quanto mais pobre, maior a probabilidade de ficar desempregado.
* As mulheres sem filhos têm mais probabilidade de ficarem desempregadas do que as que têm filhos.

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