17/09/2026

Educação Elucidando o Capitalismo de Massa e o Voto contra o Próprio Bolso

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Estamos em época de eleição, período em que o debate público não deveria se resumir a uma arena maniqueísta onde o bem luta contra o mal, tampouco a um cenário em que forças divinas ungiram defensores de caráter vil para combater o suposto terror do comunismo. Na verdade, por trás desse verniz ideológico, a disputa concentra-se em um dilema econômico e social: de um lado, a manutenção dos direitos conquistados por meio de duras e sangrentas mobilizações históricas; de outro, a desregulamentação das normas trabalhistas, cenário no qual o empresariado passa a ditar unilateralmente as regras de contratação.

Argumentos extremistas reforçam que as empresas brasileiras tendem a migrar para o Paraguai devido aos custos, mas uma análise factual revela as severas assimetrias desse modelo. No país vizinho, não existe o recolhimento compulsório do FGTS e a jornada de trabalho padrão é mais extensa, atingindo o mínimo de 48 horas semanais. Além disso, o direito a 30 dias de férias é um privilégio restrito a quem possui mais de uma década de permanência na mesma empresa; o benefício é escalonado em apenas 12 dias úteis para até 5 anos trabalhados e em 18 dias para o intervalo de 6 a 10 anos de serviço. Sob a ótica estritamente corporativa, a folha de pagamento paraguaia é financeiramente mais vantajosa, e é justamente esse teto rebaixado de proteção social que certos setores tentam implantar no Brasil sob o pretexto de modernização.

Não é necessário ser formado em economia para compreender que o motor da engrenagem macroeconômica é o capitalismo de massa. O aumento real da renda gera a elevação do consumo que, por sua vez, demanda o incremento da produção, resultando na geração de empregos, no fortalecimento do mercado interno, em uma melhor distribuição de renda e na consequente redução da vulnerabilidade social do povo brasileiro. Conforme mencionado, essas garantias foram conquistadas pela pressão de base exercida por trabalhadores e sindicatos que buscavam dignidade no ambiente laboral.

Portanto, o discurso focado na moralidade serve apenas como cortina de fumaça. Resolver problemas estruturais equacionando os interesses da elite e do proletariado exige um esforço cognitivo para compreender que o lucro não deve custar a dignidade humana, e que a narrativa da meritocracia frequentemente mascara privilégios hereditários. Um exemplo flagrante dessa disfunção ocorreu no Maranhão[1], onde uma candidata — filha de um procurador e sobrinha de um desembargador — assumiu o cargo de delegada da Polícia Civil após se classificar em 2.018º lugar na prova objetiva. Embora o edital limitasse explicitamente a convocação para as fases seguintes aos 225 primeiros colocados, manobras institucionais permitiram que ela saltasse as etapas do certame. Esse caso ilustra como o critério da competência é subvertido pelo nepotismo estrutural, resultando na ocupação de cargos estratégicos por indivíduos tecnicamente inaptos ou beneficiados pelo apadrinhamento político e pelo uso instrumental de discursos teocráticos.

Diante dessas elucidações, o conceito de capitalismo de massa nos obriga a refletir sobre o paradoxo do consumo. Se todas as empresas reduzirem drasticamente os direitos de seus empregados e o país se tornar, em uma projeção pessimista, uma nova Argentina, quem consumirá os bens manufaturados pela própria indústria? A realidade argentina recente demonstra esse ciclo: a desregulamentação radical provocou a desaceleração da economia, o fechamento de mais de 22 mil empresas, a retração industrial, o desemprego em massa e o achatamento da renda formal e informal. Esse cenário foi agravado pelo aumento da jornada de trabalho para até 12 horas diárias e pela redução da indenização em caso de demissão, o que elevou substancialmente o índice de miserabilidade da população, além da forte inflação de serviços básicos como água, luz, gás e transporte público. A história econômica valida que o crescimento sustentável ocorre quando se respeita a lógica da teoria Keynesiana — ou o teto da demanda agregada —, a qual esclarece que economias fortes demandam trabalhadores com poder de compra estabilizado.

Dito isso, faz-se imperioso perceber que a educação, ao promover a autonomia intelectual, deve atuar em conjunto com a pressão de base para resguardar os direitos adquiridos. Por meio de uma formação crítica e desalienante, que estimule o protagonismo cognoscente, o trabalhador torna-se capaz de romper as linhas de manipulação da falsa meritocracia e do teocentrismo político. Na realidade concreta, a concentração de renda não decorre de escolhas divinas para a prosperidade; ou ela é fruto de heranças consolidadas historicamente, ou provém de mecanismos de corrupção estrutural, tais como a sonegação fiscal, favorecimentos ilícitos e a exploração do trabalho análogo à escravidão. Cabe à educação estruturar o desenvolvimento da consciência de classe e política dos estudantes, consolidando a premissa de que o ato de votar exige discernimento técnico e a completa superação do raciocínio motivado[2].

 

[1] https://revistaoeste.com/brasil/filha-de-procurador-eliminada-em-concurso-vira-delegada-no-maranhao/
https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2026/09/11/ma-filha-de-procurador-que-ficou-em-2018-lugar-de-concurso-vira-delegada.htm

[2] http://www.gestaouniversitaria.com.br/artigos/por-que-preferimos-uma-mentira-confortavel-entenda-o-raciocinio-motivado

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