09/07/2026

Educação Elucidando a Cegueira Moral

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

As ciências humanas têm muito a nos ensinar. Dito isso, o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman afirmou certa vez que “a cegueira moral é a incapacidade de ver a humanidade no outro e, por consequência, a incapacidade de agir de maneira justa e solidária”. Essa fala foi dita em um contexto no qual as pessoas estão perdendo a sensibilidade e a própria humanidade.

Cabe à educação trabalhar essa humanidade em seus discentes, balizando-se na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que aborda a Autoconsciência, tendo como fulcro o autoconhecimento, a autoestima e a autoconfiança. A Autogestão perpassa pela autoavaliação, pelo gerenciamento do tempo e pelo gerenciamento de crises. Na mesma linha, a Consciência Social tem como fulcro a empatia, a valorização cultural e a cooperação, o que é reforçado pelas Habilidades de Relacionamento, que trabalham o respeito, a comunicação respeitosa e o pensamento crítico. Por último, mas não menos importante, a tomada de decisão responsável é alavancada pela responsabilidade, pela ética e pela criatividade.

O fato é que, hoje, a mercantilização das escolas tem subtraído a verdadeira função da educação, limitando-a a currículos tecnocratas, de forma a aumentar a massa de manobra para a exploração de mão de obra não pensante, alienada e docilizada, a ponto de aceitar as arbitrariedades impostas pela elite e sugestionadas por políticos que a representam.

O problema é que a política molda as diretrizes da educação. Como temos uma política totalmente individualista, a educação acaba assumindo um viés voltado ao mercado, ou seja, a formação discente é privada de trabalhar a criticidade, o protagonismo social e o discernimento. Como consequência, esses estudantes e egressos transformam-se em cidadãos moralmente cegos, a ponto de elegerem justamente os políticos que trabalham contra o próprio povo, reforçando o sistema apático e injusto.

Hodiernamente, a política extremista sofre de uma miopia ética, fazendo com que o outro deixe de ser visto como um ser humano com sonhos e dignidade, e passe a ser visto como um número, uma mercadoria e até mesmo um voto para a perpetuação do poder. Isso reverbera por toda a sociedade, fazendo imperar a desumanização do outro, a terceirização da culpa e a cultura do medo.

A desumanização ocorre porque os políticos passam a tratar os problemas sociais complexos como números e estatísticas, desconsiderando a vida humana e a dignidade, e trabalhando apenas com gráficos e possíveis votos. Em relação à terceirização, a política que sofre da cegueira moral deixa claro que a responsabilidade do bem-estar social é única e exclusivamente do próprio cidadão. Ou seja, o fracasso é visto como falta de esforço da pessoa, e não como falha na estrutura social do Estado, o que desobriga o próprio Estado de ter ações solidárias. Na Cultura do Medo, os políticos fazem uso desse recurso para criar barreiras de forma a justificar a perda de direitos dos cidadãos — como a ameaça de aumento do desemprego caso acabe a escala 6x1, dentre outros absurdos que privilegiam a elite em detrimento da dignidade do povo brasileiro.

Cabe a nós, educadores, a subversão quanto a essa política que impõe a cegueira moral. Para isso, faz-se mister que resgatemos a arte do diálogo, desenvolvamos a imaginação moral, substituamos a competição pela cooperação, estimulemos o pensamento crítico e pratiquemos a cidadania ativa, como ressaltado por Porcheddu (2009) [1] ao enfatizar que, como docentes, temos o dever moral de resistir à superficialidade, ao individualismo e à lógica do consumo e, em concomitância, promover laços de solidariedade, amizade, respeito e empatia.

[1]PORCHEDDU, A.. Zygmunt bauman: entrevista sobre a educação. Desafios pedagógicos e modernidade líquida. Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 137, p. 661–684, maio 2009.

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