19/02/2026

Educação e a Essência da Vida Além do Estigma

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

A vida é composta por pessoas com coragem para enfrentar o sistema, o estigma e o status quo de uma realidade abusiva, que dilacera a dignidade humana e subtrai a essência da própria vida. Embora Nellie Bly fosse apenas uma repórter investigativa, ela deixou um legado tanto para a saúde pública quanto para a educação, ao demonstrar como o meio pode interferir drasticamente na saúde emocional e mental dos indivíduos.

Em 1887, Bly recebeu do jornal New York World a missão de se infiltrar em um manicômio feminino em Blackwell's Island, Nova Iorque, para investigar as condições reais de tratamento das pacientes. Aos 23 anos, simulando amnésia e comportamentos atípicos, bastaram apenas 48 horas para que médicos a examinassem e a considerassem insana.

Ao adentrar na instituição, ela testemunhou a desumanização: tratamentos de choque, banhos de água gélida e comida estragada. Era um ambiente insalubre onde imperava a pseudociência. Aquelas mulheres eram verdadeiras cobaias sob a custódia de mãos diplomadas, porém desumanas e criminosas. Muitas não eram pacientes psiquiátricas, mas imigrantes que não dominavam a língua nativa e mulheres pobres sem rede de apoio. Conforme reforça Eguiluz (2021)[1], o ponto crucial do trabalho de Bly foi denunciar que a instituição servia como um "depósito" de mulheres barbarizadas e violadas em seus direitos humanos fundamentais.

O testemunho de Bly motivou o Estado a investir mais de um milhão de dólares na reforma da assistência psiquiátrica e tornou-se um marco para que outras jornalistas seguissem seus passos, como Magda Donato na Espanha e Daniela Arbex no Brasil — esta última com a obra Holocausto Brasileiro, que denunciou as barbáries no hospital psiquiátrico de Barbacena. Gerk (2025) [2] complementa que a aceitação dessa missão por Bly desafiou as normas da época e legitimou a presença feminina no jornalismo investigativo.

A desumanização era a constante nessas instituições. Pessoas sãs, submetidas a tratamentos violentos, acabavam desenvolvendo sintomas de loucura. O ambiente e o contexto "fabricavam" a doença mental; o tratamento era, na verdade, o gatilho para o colapso psíquico. Como afirma a especialista em saúde mental Telma Abrahão[3], o trauma é uma resposta normal a um ambiente anormal. Muitas vezes, um comportamento difícil é apenas uma estratégia de sobrevivência em um meio insalubre.

Diante disso, faz-se mister que nós, educadores, aprendamos a enxergar o ser humano por trás dos sintomas. Educar exige um ambiente saudável e profissionais que vejam o estudante como um indivíduo singular, que necessita ser ouvido por meio de uma escuta pedagógica e acolhido por uma gestão afetiva que promova o senso de pertencimento.

 

[1] EGUILUZ, I.. Entre Ulises y Penélope: integrar la perspectiva de género en los estudios sobre la salud mental de las mujeres migrantes. REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, v. 29, n. 63, p. 159–177, set. 2021.

[2] GERK, C.. Ser mãe e jornalista no Brasil: uma análise social e autoetnográfica . Galáxia (São Paulo), v. 50, p. e68568, 2025.

[3] https://www.facebook.com/reel/924948063263455

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