Educação e a Cor dos Olhos: Rotulados para Falhar
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Em 1968, após a morte de Martin Luther King Jr., a professora estadunidense Jane Elliott realizou um experimento social em sua turma de terceira série do ensino fundamental, separando os alunos pela cor dos olhos: azuis e castanhos. O grupo de olhos azuis foi classificado como o das crianças mais inteligentes, superiores, puras e limpas. Já as demais crianças seriam cognitivamente inferiores, mais lentas e, consequentemente, menos capazes e não tão espertas. O experimento, planejado para durar meses, mostrou resultados em menos de um dia. Crianças que antes eram meigas, ao serem coroadas com o status de olhos azuis, começaram a dar ordens, humilhar e excluir os colegas de olhos castanhos, que carregavam um lenço marrom no pescoço como marca de identificação.
O resultado foi surpreendente e refletiu-se diretamente no boletim escolar. As crianças de olhos azuis passaram a ler mais e a solucionar problemas matemáticos com maior facilidade. Em contrapartida, os alunos de olhos castanhos, que antes apresentavam bom rendimento, começaram a titubear nas respostas, errar contas simples e demonstrar submissão. O experimento ressaltou que essas crianças não se tornaram menos inteligentes; elas somente acreditaram na história contada pela professora, a autoridade máxima da sala.
No dia seguinte, ao adentrar o recinto, a professora afirmou ter cometido um grave erro de confusão: na verdade, os portadores de olhos castanhos eram os inteligentes, superiores, puros e limpos, enquanto os de olhos azuis carregavam os adjetivos de menos capazes, lentos e não tão espertos. Prontamente, os papéis se reverteram. Os oprimidos viraram opressores, e as crianças que haviam tirado notas baixas no dia anterior começaram a obter notas altas, ocorrendo o inverso com o outro grupo.
Esse teste serviu para demonstrar que o ser humano performa não apenas de acordo com sua capacidade inata, mas principalmente pelo lugar no qual se encontra inserido. A performance da criança é ditada pelo "lenço" que ela estiver usando. Isto é: se for incentivada, tiver sua autoestima trabalhada e suas habilidades desenvolvidas, ela tenderá a ser uma pessoa e um profissional realizado. Caso contrário, ver-se-á sempre como um perdedor[1].
Cabe ressaltar que esse experimento converge com as ideias de Paulo Freire expostas em seu livro Pedagogia do Oprimido, no qual profere que pessoas que sofrem violência e controle tentam copiar o modelo do opressor. Ou seja, o oprimido tem internalizado o opressor como modelo de sucesso e poder. Esse ciclo só será quebrado quando a educação for verdadeiramente libertadora, desenvolvendo nas crianças — independentemente da cor de seus olhos ou de sua pele — o protagonismo cognitivo, a autonomia intelectual e a autoestima, para que acreditem sempre no próprio potencial. Afinal, já afirmava Freire: "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor".
Faz-se saliente esclarecer que, embora o experimento de Jane Elliott demonstre o peso do preconceito e da discriminação baseados em crenças e especulações arbitrárias, essas barreiras podem ser desconstruídas se cada indivíduo cultivar a consciência coletiva e o respeito pela diversidade. Dessa forma, cabe a nós, educadores, trabalharmos a fundo as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — como autoconhecimento, autocuidado, empatia e cooperação —, garantindo que nossos discentes nunca duvidem de suas capacidades, isto porque nem o céu deve impor limites para os seus sonhos.
[1] https://www.facebook.com/reel/2187501455439662