Educação de qualidade só para quem pode pagar
Por Julia Dietrich, do Aprendiz
"Oferecemos uma educação pobre para pobres. A educação de mercado atende com qualidade só quem pode pagar". A crítica foi feita pelo deputado federal e ex-secretário de Ensino Superior do estado de São Paulo, José Aristodemo Pinotti (DEM-SP), durante IV Simpósio Nacional de Direito Educacional, na cidade de São Paulo (SP).
Pinotti contou que apenas 12% das crianças que têm entre zero e quatro anos freqüentam creches públicas, enquanto a quase totalidade das mais ricas tem acesso às particulares. "Justamente a mãe que precisa trabalhar não tem onde deixar seus filhos", disse. Para o deputado, a universalização do ensino deve compreender de antemão a educação infantil, por ser justamente a fase de entrada do indivíduo no cotidiano escolar.
A falta de acesso ao ensino infantil acarreta, segundo o deputado, no mau desempenho escolar futuro. De acordo com os dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), apenas 4% dos estudantes do ensino fundamental público estão em condições adequadas de aprendizado, enquanto 50% se encontram em estado crítico ou muito crítico. "E o professor não tem nenhuma culpa por isso", disse. "Não adianta mudar os conteúdos pedagógicos e teorias para mudar o ensino. Devemos é olhar o porquê", pontuou.
Apesar de tudo isso, ele apontou que há um problema em relação à qualidade e capacitação dos profissionais da educação. 87% dos que trabalham na educação infantil têm só ensino médio normal e no 1º ciclo do ensino fundamental, apenas 38% têm formação superior. "Além disso, há a questão dos salários baixos. É uma hipocrisia dizer que a educação é uma prioridade e manter os profissionais da educação excluídos", observa.
Como possíveis explicações para a evasão e baixo rendimento dos alunos do sistema público, Pinotti trouxe dados sobre a qualidade de vida das crianças e jovens. Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), verificou que entre os alunos das escolas públicas, há 8% de subnutrição, 8,3% de sobrepeso e 9,7% de obesidade. 4,3% das crianças e jovens têm baixa estatura, mais de 50% das crianças com até 24 meses têm anemia grave e 59%, das com até 12 anos de idade, têm lesões graves dentárias. 10% precisam de óculos e 21% estão com diferentes tipos de verminose.
Para o deputado são doenças simples que podem ser tratadas com medidas básicas no próprio ambiente escolar. "Estamos perdendo a oportunidade de tratá-las. Para curar a anemia, por exemplo, é só colocar gotinhas de ferro na merenda, para resolver tanto a obesidade. Em relação à subnutrição, é só estabelecer um plano nutricional para as famílias", ponderou, indicando que o custo destas medidas é muito baixo.
Ao ser questionado sobre a medida da administração do prefeito de São Paulo (SP), seu correligionário, Gilberto Kassab, na licitação da Nestlé na diminuição de nutrientes na merenda escolar, Pinotti reverberou: "Estamos andando para trás. É uma pena", apontou.
Para ele, outra medida para solucionar a evasão e a má-qualidade de ensino no sistema público é a escola em tempo integral. "É preciso que essas crianças façam esporte, informática, atividades artísticas e possam brincar, enquanto os pais trabalham, no próprio ambiente escolar, onde há segurança e alimentação", completou. Segundo ele, apenas 8% das crianças fazem no máximo "escolinhas de futebol" uma vez por semana como atividade fora de classe.
(Envolverde/Aprendiz)