08/07/2006

Educação-América Latina: Professores examinados

Por Daniela Estrada

Santiago, 07/07/2006 – Que papel cumpre a idoneidade do trabalho docente na qualidade do ensino? Como avaliar o que fazem os professores? Mediante um processo de reflexão interna ou com mecanismos externos com recompensas por bom desempenho? Uma das chaves para melhorar a qualidade da educação está na articulação da carreira, no desenvolvimento profissional e na avaliação do desempenho docente, afirmou a IPS Magaly Robalino, especialista do escritório regional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura para a América Latina e o Caribe, a propósito da apresentação de um estudo comparativo em nível mundial.

“Apesar de se tratar de uma pesquisa descritiva e não de valor, dela se pode inferir que para melhorar o trabalho dos professores é necessário integrar estes três elementos”, afirmou esta especialista em formação docente. Magaly coordenou o estudo “Avaliação do Desempenho e Carreira Profissional Docente”, que compara as realidades de 50 países da América e Europa, mais os Estados da Califórnia e Carolina do Norte, nos Estados Unidos, que foi apresentado nesta quinta-feira na capital chilena. Em suas 120 páginas o documento explora o acesso à profissão de docente, os sistemas de promoção e de aposentadoria. Também analisa os sistemas de avaliação do trabalho docente utilizado em cada país.

A pesquisa, feita entre janeiro e março de 2005, centrou-se em professores do ensino básico que trabalham em escolas públicas. Nela se parte da base de que os países da América Latina avançaram em seus sistemas de carreira de docente, mas que ainda enfrentam muitos desafios. Segundo Magaly, na região se deveria desenvolver uma cultura da avaliação (mais do que procedimentos ou instrumentos específicos), gerar espaços de diálogo e busca de consenso entre os atores envolvidos, e aumentar a valorização e o reconhecimento social da profissão.

O estudo constata que para os países da Europa ocidental a prioridade em termos de carreira docente é atrair os melhores candidatos. A avaliação, por sua vez, é entendida como um processo de reflexão pessoal do professor, e os sistemas de promoção existentes têm por objetivo manter os educadores motivados. Na América Latina e nos países do leste europeu, ao contrário, trabalha-se principalmente para elevar a qualidade da docência e foram criados sistemas de avaliação externos, que incluem mecanismos de recompensa pelo bom desempenho. Quanto ao acesso ao exercício da profissão, o documento determina que em todos os países analisados existe algum sistema de seleção de candidatos, com exceção de Cuba, onde todos os que deixam os centros de formação de docentes têm emprego garantido.

Entretanto, foram identificados dois grandes modelos: o primeiro seria seguido pelos países anglo-saxões, nórdicos e bálticos, onde os centros docentes ou as autoridades locais têm uma forte tradição de autonomia na seleção dos professores. Em segundo lugar, estariam os países com práticas mais centralizadas (do sul e centro da Europa e da América Latina), onde a seleção é feita pela máxima autoridade central através de algum sistema eqüitativo para todo seu território, geralmente através de concurso. Segundo o relatório, não é de estranhar que os países mostrem uma limitada prática de avaliação do desempenho, já que é um assunto no qual se enfrentam interesses e opiniões dos políticos e administradores, dos professores e seus sindicatos e dos estudiosos da matéria.

Tomando como exemplo a Finlândia, considerada “símbolo da qualidade da educação”, o estudo concluiu que é possível conseguir um sistema educacional de qualidade sem uma avaliação externa do desempenho dos professores. Nesse país, só se estabelece uma relação de confiança com o docente, valorizando seu profissionalismo. No caso de implementar uma avaliação externa, acrescenta o estudo, é necessário que o sistema seja aceito pela comunidade educacional e seja tecnicamente impecável.

Este trabalho foi apresentado durante o segundo dia de atividades do Encontro Internacional sobre Avaliação, Carreira e Desenvolvimento Profissional Docente, organizado pelo escritório da Unesco para a América Latina e Caribe, pela universidade privada Cardeal Raúl Silva Henríquez e pela Rede Kipus Chile, que reúne várias instituições formadoras de professores do país.

Para o encontro, aberto quarta-feira e que termina hoje na capital chilena, foram convocados representantes dos ministérios da educação, instituições formadoras, centros de pesquisa, sindicatos, movimentos da cidadania, meios de comunicação e escolas da região. O objetivo foi compartilhar conhecimentos e trocar experiências no sentido de avançar para regimes integrais de avaliação, carreira e desenvolvimento docente que ajudem a melhorar os sistemas educacionais da América Latina e do Caribe.

Carlos Eugênio Beca, diretor do Centro de Aperfeiçoamento e Pesquisa do Ministério da Educação do Chile, disse à IPS que o estudo mostra a diversidade de enfoques que são seguidos em grande parte do mundo, informação que contribuirá para melhorar as políticas de cada país. Além disso, se mostrou satisfeito com o sistema de avaliação que há um par de anos foi implementado no Chile, que tem um caráter formativo, apesar da oposição de um grupo de professores reunidos no colégio da ordem. “Evidentemente que os aspectos técnicos podem ser aperfeiçoados. Creio que temos de continuar trabalhando a relação entre a avaliação do professor e a da escola”, afirmou.

Da mesma forma, Beca comemorou a recente aprovação da Lei de Certificação Universitária, que cria um sistema de garantia da qualidade da educação superior no Chile. Uma das principais medidas estabelecidas na lei é a obrigatoriedade da certificação das carreiras de medicina e pedagogia. No ano passado houve um importante avanço em matéria de formação docente no Chile, depois de formada uma comissão integrada pelo Ministério da Educação, instituições que formam professores e o Colégio de Professores.

Entre outros êxitos, as universidades que tinham carreiras de qualidade duvidosa (mediante educação á distância, sem requisitos de ingresso e com insuficientes materiais de apoio) se comprometeram a encerrar esses programas. Atualmente, as entidades formadoras estão discutindo a eventual aplicação de uma prova aos que se formam em pedagogia para avaliar sua preparação para exercer a docência, e, também, o estabelecimento de um sistema de acompanhamento dos novos professores que ingressam no sistema. (IPS/Envolverde)

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