29/04/2006

Educação: A grande oportunidade para a América Latina

Por Daniela Estrada

Santiago, 28/04/2006 – Os países da América Latina e do Caribe devem aproveitar a cobertura quase universal do ensino primário e a redução da população em idade escolar para orientar melhor os recursos no setor e aumentar a qualidade, segundo especialistas da Organização das Nações Unidas. Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgada por ocasião da Semana de Educação para Todos, que termina nesta sexta-feira, avalia a situação dos professores e a qualidade de ensino na região e no mundo. Também examina “as medidas que podem ser adotadas para reduzir a discrepância entre esses dois fatores, em particular nos países em desenvolvimento”. Nesse estudo, são comparadas forças e fraquezas em matéria de contratação de educadores, analisadas as políticas de distribuição geográfica deles e as condições de trabalho em cada país.

“Enquanto outras regiões do mundo devem contratar novos professores para atingir a universalidade da educação primária até 2015, a América Latina e o Caribe, hoje, podem reduzir a força docente devido à constante diminuição da população em idade escolar”, diz o informe da Unesco. Conseguir a educação primária universal é a segunda das Metas de Desenvolvimento do Milênio a ser cumprido até 2015, segundo foi aprovado em 2000 pela ONU. Também se propõe, nesse prazo, reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos.

As Metas do Milênio também incluem reduzir à metade, em relação a 1990, a proporção de pessoas na indigência e com fome, promover a igualdade de gênero, combater a propagação da aids, malária e outras doenças, assegurar a sustentabilidade ambiental e criar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul. O contexto educacional da região oferece uma grande oportunidade para melhorar sua qualidade, com o investimento de mais recursos por aluno e professor, afirma o documento, apresentado terça-feira, simultaneamente em Santiago, Nova York, Montreal, Bruxelas e Paris.

Somente Bahamas, Guatemala e Paraguai precisam expandir ligeiramente a força educacional para conseguir a cobertura universal da escola primária na região, afirma o estudo intitulado “Os docentes e a qualidade da educação: acompanhamento das necessidades mundiais para 2015”, realizado pelo Instituto de Estatísticas da Unesco. A agência decidiu publicar o estudo durante a Semana de Educação para Todos, que anualmente recorda o Fórum Mundial da Educação realizado em 2000, em Dacar. Este ano, o tema foi “cada criança precisa de um professor”.

O Instituto de Estatísticas estima que, na próxima década, será necessário contratar mais de 18 milhões de professores em todo o mundo. Menos de 10% desse total correspondem à região. O estudo, realizado em 102 países, 20 deles latino-americanos e caribenhos, afirma que, em 2004, havia 26 milhões de professores. A Unesco adverte, também, que os países da América Latina e do Caribe devem dar especial atenção na redução da repetência, já que esta diminui as possibilidades do aluno completar o curso e causa considerável pressão sobre os professores.

Entre 2005 e 2015, serão necessários 1,6 milhão a mais de professores primários na região, pois estima-se que 6,5% dos professores em atividade deixam a profissão a cada ano por diversas razões. Todos os países latino-americanos e caribenhos têm, em média, menos de 40 alunos por professor, considerado o máximo para uma educação de qualidade. Cuba tem uma das proporções mais baixas do mundo, com dez alunos por professor. Quanto à preparação acadêmica do docente, o informe diz que os padrões são relativamente bons. “Mais da metade dos países exige o terceiro grau (universitário ou técnico-profissional) e a proporção de professores que atualmente contam com essa qualificação é muito alta”, diz o estudo.

A situação da América Latina e do Caribe contrasta com a de outras regiões que devem atender a uma população estudantil cada vez maior, o que exige o aumento do investimento para construir novas escolas e contratar mais professores. Nesse sentido, a África subsaariana ostenta o maior desafio, já que entre 2006 e 2015 está obrigada a aumentar em 68% o número de professores, isto é, 1,6 milhão a mais, para que todas as crianças possam ter o curso primário. Os países que necessitam de mais professores são os que, ao mesmo tempo, apresentam grandes restrições orçamentárias. “Para muitos deles resta somente a opção de recorrer a paradocentes que, em geral, têm uma qualificação profissional inferior à dos professores titulares e recebem salários muito menores”, adverte o informe.

O Escritório Regional de Educação da Unesco, com sede em Santiago, sugeriu que “os esforços dos países devem ocorrer no sentido de melhorar as condições do trabalho pedagógico e de estimular a criação de equipes de docentes, que permitam superar o isolamento daqueles profissionais que trabalham em regiões com populações dispersas”. Também propôs ampliar os serviços de atenção na primeira infância, desenvolver estratégias de apoio pedagógico às escolas e aos professores que permitam assegurar melhor aprendizado, reduzir a repetência e liberar recursos econômicos adicionais, além de reduzir o tamanho dos grupos de alunos.

“A situação do professorado chileno é agridoce”, disse á IPS Juan Eduardo García-Huidobro, diretor da Escola de Educação da Universidade Alberto Hurtado (particular) e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação. “Embora a maioria dos professores em atividade tenha se formado em instituições de educação superior, o que dá certa vantagem, atualmente enfrenta grandes dificuldades”, afirmou. Por um lado, os professores têm problemas para compreender as novas gerações, “globalizadas e especialistas em tecnologias”, questão que os obriga a permanente reciclagem, acrescentou.

García-Huidobro também lembrou quem durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1993-1990)m a profissão de professor foi desvalorizada com a redução de salários, o enfraquecimento das faculdades de educação e o recrutamento de pessoas com baixo nível acadêmico, algo que também aconteceu em outros países da América Latina sob regimes semelhantes. Ainda restam desconfianças dessa época, apesar de a coalizão de centro-esquerda, que governou o país desde o retorno à democracia e continua no poder com a presidente Michelle Bachelet, faz grandes esforços para reverter a deteriorada imagem social do magistério.

O especialista acredita que, atualmente, dois dos principais obstáculos para os professores conseguirem aprendizagem de qualidade são a insuficiente preparação que possuem para tornar realidade a mudança curricular e o extremamente desigual sistema educacional chileno. Entretanto, o presidente interino do Colégio de Professores do Chile, Darío Vasquez, comentou a preocupação que tem o magistério do país sobre a redução em 10% da matrícula escolar durante a próxima década, já que isso se traduzirá em instabilidade trabalhista, a qual aumentará paulatinamente.

Também criticou as condições de trabalho dos professores, que ensinam em salas de 45 alunos, em média, e que dispõem de pouco tempo para planejamento. Destacou, ainda, que o magistério chileno sofre com uma grande incidência de doenças físicas e mentais, tal como constatou, em 2005, um estudo do Escritório Regional de Educação da Unesco.

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