E a arte do aluno?
Por Isabel Marques e Fábio Brazil*
Antes de ignorar ou julgar a arte à qual os alunos estão expostos em sociedade, o professor de Arte pode aproveitá-la como ponto de partida, ponto de trabalho, ponto de chegada e ponto de articulação e transformação a partir do qual pode apoiar o conhecimento a ser trabalhado na escola.
Novela é arte? Propaganda é arte? Gibi é arte? Videoclip é arte? Dança da moda é arte? Baile funk é arte? Rock-garagem é arte? Grafite é arte? Coral da igreja é arte? Pagode é arte? Artesanato é arte? Manifestação popular é arte? O que vem pelas mídias e o que está na rua, é arte? - Independente das respostas que tenhamos para essas questões, é importante pensarmos como o nosso aluno as responderia.
Raramente nos perguntamos sobre a arte do aluno. A arte que o aluno traz para a escola. - O que fazer com ela? Afinal, é arte?
O aluno traz arte para escola o tempo todo. Traz, faz, aprecia e consome arte nas salas de aula, nos corredores, no pátio e na porta da escola. A arte dos alunos está sempre presente: está na forma como se vestem e como se movimentam; está no que falam, no que comentam, cantam e escutam; está no gesto, no traço, numa cor ou num ritmo; está numa palavra, frase ou gíria. A arte dos alunos está nas capas dos cadernos, nas camisetas, nas mochilas, na cor e corte dos cabelos, nos sons dos celulares, nos rabiscos nas carteiras, nas paredes e nas mensagens nos banheiros. O que fazemos com tudo isso?
Afinal, os detentores do “saber em arte” socialmente reconhecidos - artistas, professores e críticos - respeitam, dialogam e conhecem a arte que seu público-alvo produz, pensa e consome?
Em geral, a escola é impermeável à arte que vem dos alunos. Ela não é objeto de valorização, compreensão, problematização ou sistematização por parte dos professores. Nesse sentido, é possível estabelecer um importante paralelo entre a relação dos professores com a arte dos alunos e a visão que alguns artistas têm da função do público no sistema da arte.
Qual a importância, para o artista, do repertório de obras e conceitos de arte que o público possui? Deve o artista preocupar-se com isso? Deve buscar um diálogo com o público e seu repertório? É interessante a inclusão do público no diálogo interno do artista enquanto cria? A liberdade de criação incorpora a ignorância em relação à fruição? A dialogicidade, conceito cunhado por Paulo Freire, bastante conhecido na literatura pedagógica, que convida o professor a dialogar com o aluno interessa ao artista? Vale perguntar ao artista e ao professor: é importante saber o que o público-aluno traz como idéia de arte, expectativas em relação a trabalhos e conhecimento de arte?
São muitas e complexas as relações envolvidas no circuito artista-obra-público em nossa sociedade, vão do processo de marginalização da arte e do artista à sua transformação em produto e mão-de-obra na indústria do entretenimento, vão da vitalidade da cultura à transformação do fruidor em consumidor. Negando essa complexidade, tanto a indústria do entretenimento quanto alguns artistas e críticos crêem apenas numa cisão insuperável entre o público e a arte, acreditam respectivamente que “arte não vende” ou que procurar o público é “diminuir a arte”.
É crença comum a vários segmentos do sistema da arte que só existem mesmo duas possibilidades: alimentar a fome de arte do povaréu com clichês distribuídos pela indústria do entretenimento ou enclausurar-se nos guetos e meios acadêmicos e praticar monólogos impenetráveis. Dentre as múltiplas faces que a criação de arte assume em nosso meio social, essas duas possibilidades opõem-se e complementam-se, pois nascem dos mesmos pressupostos.
Uma face é composta por toda uma produção autoproclamada “arte para o povão”. Nesse contexto, encontra-se, alicerçada no pragmatismo da “lei de mercado”, a indústria do entretenimento. Sendo uma indústria, foca prioritariamente o consumo e necessita da repetição de clichês e produção em massa para sobreviver; assim, a pesquisa, a interlocução, a experimentação e o conhecimento em arte perdem importância diante do valor de compra e venda. A indústria do entretenimento, movida por leituras simplistas da sociedade, apregoa ser e fazer o que “o povão gosta” e apóia-se no pressuposto discutível da ignorância do público para produzir e vender uma arte adequada ao público e à sociedade que acredita existir e deseja padronizar.
Assumindo outra face no sistema da arte, há uma produção interna ou tutelada pelos meios acadêmicos que termina por criar um circuito fechado de informação redundante e fala unívoca. Nesse contexto, entende-se o público e a sociedade da mesma forma que na indústria do entretenimento – massa ignara - e almeja-se como público “a classe”, aqueles com as mesmas referências teóricas e estéticas dos autores. O grande público, entendido como “não preparado”, fica distante dos trabalhos, das pesquisas e do diálogo com a arte e os artistas. Algumas vezes, busca-se aproximação com o público não pelo trabalho artístico em si, mas oferecendo “obscuras explicações” nos debates após o espetáculo, nos releases dos programas, ou nas matérias de jornal para os que podem comprar mídia.
Tanto uma como outra face tornam a arte menos compartilhada e perdem o contínuo processo de mutação e movimento provocado pelo contato com o público. Será mesmo que para dialogar com o público é preciso ser “menos arte”?
Buscar compartilhar e aproximar-se do universo sócio-político-cultural-afetivo do público não quer dizer necessariamente tornar a arte popularesca, previsível e pautada por clichês. Não é preciso negar técnicas, teorias e fazeres complexos e atuais para que a arte converse com o público. A arte que busca abrir canais de discussão e reflexão com o público apenas pressupõe o outro, o olho de fora que na presença do trabalho artístico, elabora conceitos, sensações, emoções, afetos, histórias e trajetórias de vida.
Na presença do público e no diálogo com ele, o trabalho artístico reconstrói-se e possibilidades novas são abertas para outras relações entre as pessoas, a arte e a sociedade. Pensar e perceber o público como um dos elementos do processo criativo não impede a pesquisa e a elaboração do trabalho, é apenas iniciar o diálogo.
Dentro das escolas, nas aulas de Arte, o mesmo fenômeno repete-se. Se o professor não conhecer e considerar os conceitos, práticas e repertórios de arte que os alunos trazem, não será capaz de estabelecer diálogo, não será capaz de construir nem de transformar. Ignorar a arte que a escola recebe dos alunos em prol da aquisição de um saber externo reconhecido e aprovado socialmente – uma lista de conteúdos chamadas de currículo e planejamento – mantém o professor falando sozinho e perpetuando a imutabilidade social.
Refutar a arte fruída, produzida e conhecida dos alunos como arte de baixa qualidade, ou desclassificá-la por ser “produção de massa” significa cortar um importante vínculo que o professor de Arte poderia ter com seus alunos: a própria arte. Antes de ignorar ou julgar a arte à qual os alunos estão expostos em sociedade, o professor de Arte pode aproveitá-la como ponto de partida, ponto de trabalho, ponto de chegada e ponto de articulação e transformação a partir do qual pode apoiar o conhecimento a ser trabalhado na escola.
Partir do repertório de obras e conceitos que os alunos trazem não significa perpetuar incondicionalmente qualquer tipo de produção e repertório – isso não seria dialogicidade. Ao professor cabe convidar o aluno a repensar, refazer, refletir, retomar, sua produção e repertório e abrir as possibilidades de diálogo a partir de outros referenciais e leituras. Cabe perguntar se o professor de Arte tem mesmo outro repertório, outros referenciais e leituras e quer comprometer-se com opinar, ensinar, trocar, dar retorno, dialogar.
Em geral, o professor dissocia a arte que o aluno traz e faz da arte que será aprendida, produzida e apreciada na escola. Ainda que a arte do aluno venha carregada de clichês ou de reproduções canhestras de originais discutíveis, essa dissociação costuma impossibilitar o diálogo. Como também não é diálogo “tolerar” a arte que o aluno traz como nesga de motivação, ilusão de valorização, forma de “incentivar” a auto-estima, acabar com problemas disciplinares, obter participação, fazer passar o tempo mais rápido ou ainda candidatar-se ao título de “professor legal”.
Mas é possível e viável aceitar em sala de aula as músicas da Sandy? A reprodução do axé? A imitação da TV? Como aceitar na sala de aula o Faustão, o Gugu, a Xuxa, a Luciana Gimenez, os “Amigos”, os BBBs, a Hebe Camargo, o Lacraia, o pichador, as novelas nacionais e mexicanas, a Zorra Total e ainda mantermos a postura de artistas, professores e pesquisadores?
Talvez o primeiro equívoco e dificuldade resida aí: não é aceitar, trazer e simplesmente permitir que essas personagens manifestem-se por meio dos alunos. Não é simplesmente permitir que os alunos colem, imitem, repliquem, esta arte com que nos confrontamos fora do ambiente escolar. – Ainda, cabe novamente a pergunta: o professor de Arte tem mesmo outro repertório, outros referenciais e leituras e quer comprometer-se com opinar, ensinar, trocar, dar retorno, dialogar?
Inventariar e conhecer o repertório dos alunos é bem diferente de fazer o que os alunos “gostam e querem”. Repetir em sala de aula exatamente o que os alunos podem fruir e conhecer fora dela é inútil e inócuo – ainda que seja prática comum a muitos professores; isso não é diálogo. É preciso ir além do sarau de repetições, clones e clichês. É preciso trabalhar a arte como área de conhecimento, relacionando aquilo que os alunos consomem com outros autores e trabalhos e com o conhecimento da linguagem da arte. Conversar com a arte que o aluno traz é estabelecer o diálogo entre o repertório do professor e o do aluno, o conhecimento universal e o conhecimento local.
O professor é antes de tudo um interlocutor e um propositor. Seu conhecimento da linguagem, da história, sua prática artística, seu hábito de freqüentar arte fazem com que o professor seja o melhor interlocutor e propositor disponível para o aluno. A posição de interlocutor permite perguntar, indagar, olhar sob vários pontos de vista, comentar, comparar. A posição de propositor permite estabelecer relações entre o repertório de obras e conceitos do aluno e o repertório de obras e conceitos disponíveis na História da Arte e na sociedade contemporânea. Ainda, é papel do professor interlocutor e propositor articular esses dois repertórios por meio da linguagem da arte estimulando a produção.
Trabalhar com a arte do aluno não é programar atividades partindo do que o professor ingenuamente acredita que os alunos sejam e deveriam gostar: danças populares para os migrantes nordestinos e seus filhos, cantigas de roda para as crianças, samba para negros, RAP e funk para a periferia, baile da saudade para alunos de EJA e, para todos indistintamente, o que estiver na moda. - Não estaria assim, a escola, visando a ser “moderna e dialógica”, sendo apenas conservadora? - Reproduzir ingenuamente a suposta arte do aluno não permite recriar, articular, ampliar possibilidades e conhecimentos. Essa prática nega a dialogicidade, aproxima-se do conservadorismo e da negligência, escondendo-se por detrás do discurso da preservação das tradições e da inutilidade de alguns conhecimentos para certas camadas sociais.
Partindo de um real diagnóstico, de um inventário preciso e da construção de um acervo fidedigno da arte do aluno podemos ampliar e construir conhecimento. A arte do aluno contextualiza os conceitos e o saber específico de cada linguagem artística, por isso, na escola, deve ser relida, problematizada, recriada. Essa é a função da escola e do professor: trabalhar a linguagem, o conhecimento específico da disciplina Arte por meio do diálogo, da oferta e do questionamento, construindo um novo olhar, uma nova prática, uma outra perspectiva sobre o repertório de obras e conceitos que os alunos trazem articulando-o com um repertório mais amplo e universal. À escola, cabe o olhar distanciado, a experiência crítica e criativa sobre aquilo que os alunos já conhecem, sabem e gostam, somente isso vai permitir a criação pessoal, as sínteses coletivas e alguma transformação.
A arte é interlocutora privilegiada entre o professor e o aluno, entre a escola e a comunidade, entre o indivíduo e o conhecimento. A arte que os alunos escolhem revela valores, posturas, sonhos, percepções e histórias de vida. Trabalhar com a arte do aluno em processo dialógico com o conhecimento proposto pelo professor de Arte, permite a ambos irem além do convencional, crescer em crítica e julgamento, aprofundar conhecimento específico e interagir na sociedade com elementos de transformação e não mais de reprodução.
(*) Isabel Marques e Fábio Brazil, professores e artistas, dirigem o CALEIDOS ARTE E ENSINO em São Paulo, capital, ministrando cursos e prestando assessoria a secretarias de educação, escolas públicas e privadas nas áreas de dança e poesia.