Domine um segundo idioma0
Simpatizantes com os costumes de um país aprendem mais facilmente a língua padrão do local, diz pesquisador da Universidade de Brasília (UnB).
Fazer um curso de línguas no exterior está cada vez mais acessível ao bolso da classe média. Com um valor a partir de R$ 3,5 mil, é possível passar um mês em outro país, estudar o idioma local e alavancar a carreira profissional. Mas esse investimento pode ir por água abaixo se o aluno não tiver simpatia pela cultura visitada. A atitude positiva em relação aos costumes estrangeiros é o grande diferencial para se atingir uma boa proficiência em um segundo idioma.
É o que sugere a pesquisa "O papel da atitude cultural de alunos brasileiros imersos em cursos de inglês como segunda língua nos Estados Unidos". O estudo foi desenvolvido por Christian Philip Klein durante seu mestrado em Lingüística na Universidade de Brasília (UnB), concluído em março de 2006. Nele, indivíduos com atitude cultural positiva em relação aos Estados Unidos, depois de estudarem no país, tiveram um desempenho na prova de inglês até 50% melhor quando comparados com aqueles que fizeram o mesmo curso e não simpatizavam com os norte-americanos.
“Os fatores socioculturais podem facilitar ou dificultar o aprendizado. Alguns alunos entram em choque no contato com outra cultura, não interagem e nem se interessam pelos hábitos cotidianos dos nativos. Dessa forma, fazem poucos amigos, praticam menos a conversação e aprendem menos”, conta o pesquisador. Segundo ele, há até aqueles que não se adaptam ao país e voltam antes do tempo previsto, mesmo com toda a viagem já paga.
RESULTADOS – O experimento foi feito com dez indivíduos matriculados no intercâmbio English as a Second Language (ESL) nos Estados Unidos. Desses, oito foram para a mesma escola, a Universidade Brigham Young em Provo, estado de Utah. Eles estavam na faixa etária entre 21 e 40 anos, tinham o mesmo nível de inglês antes de começar a imersão e ficaram quatro meses nos Estados Unidos. Na pesquisa, fizeram duas avaliações de inglês e responderam dois questionários que mediram o nível de atitude positiva com relação à cultura norte-americana. Os testes foram feitos antes e depois do curso.
De todos os estudantes, o que teve a melhora nos conhecimentos de inglês mais significativa foi Anderson*, que teve 40% de acertos na primeira prova e 93% de acertos na segunda avaliação – uma melhora de 53%. Curiosamente, ele foi o aluno que tirou a segunda melhor nota no questionário sobre atitude cultural positiva: 160 pontos (89%) – ficou atrás apenas de Júnior* (162 pontos) nesse quesito, que teve uma melhora de 46% no inglês.
Indivíduos com atitude cultural negativa tiveram um mau desempenho na prova de inglês, mesmo depois de cursarem a língua nos Estados Unidos. O exemplo de Débora* é bastante ilustrativo. Ela teve um aproveitamento de 68% no questionário sobre atitude positiva antes de ir para os Estados Unidos e acertou apenas 30% da prova de inglês. Depois do contato diário com os norte-americanos, a atitude cultural positiva dela caiu para 28% e os acertos na prova de inglês não passaram dos 47%, ou seja, ela teve uma melhora de apenas 17% na proficiência.
“Quem tem a oportunidade de fazer um curso de imersão deve aproveitar ao máximo para conversar com os nativos. É isso que faz ele ser mais vantajoso”, aconselha Klein.
Segundo ele, alunos que estudam o inglês no Brasil também podem adquirir fluência, mas a diferença nas horas de estudo é significativa. “Um curso intensivo tem no máximo 10 horas/aula por semana. Já nos Estados Unidos, a média é de 25 horas por semana, que somadas a uma prática diária de oito horas dará 65 horas semanais”, calcula.
PESQUISA – Klein escolheu estudar os Estados Unidos por ser um dos países mais procurados pelos brasileiros – até o final dos anos 1990, ele dominava o mercado no Brasil. Depois dessa época a fatia passou a ser mais dividida. Dados de 2004 mostram que o Canadá é o mais procurado, com 25% das escolhas. Em seguida vêm os Estados Unidos (22%), o Reino Unido (21%), a Austrália (12%) e a Nova Zelândia (9%). “A opção por um curso no exterior tem se baseado mais no preço da viagem que na empatia pelo país. Acredito que o aluno deva fazer o contrário, estudar a cultura de um país e ir para lá. Dessa forma o curso será mais proveitoso”, analisa.
* Nome fictício
Imersão
Os cursos de imersão são programas de ensinos de segunda língua nos quais o aluno estuda por um período em outro país a língua materna. Entre os diferentes tipos de curso de inglês, destacam-se:
* Intercâmbio cultural (High School), no qual indivíduos de 15 a 18 anos podem estudar de seis meses a um ano numa escola. Geralmente, eles ficam em casas de famílias e agem como se fizessem parte das mesmas.
* Cursos de idiomas ministrados em faculdades, que preparam o aluno para uma graduação ou pós-graduação.
* Programas de trabalho nos quais os jovens adquirem fluência no idioma trabalhando em casas de família, estações de esqui, resorts, hotéis ou restaurantes.