Doação da família completa acervo sobre vida de Joaquim Nabuco
Imagine saber os diálogos entre senhores de engenho defensores da abolição da escravatura, no século XIX, sob a ótica de um dos mais importantes pensadores da época: Joaquim Nabuco. Some a isso ler cartas trocadas entre familiares e diários pessoais com ideias e reflexões sobre os mais distintos temas, além de ver a carta-manuscrito na qual o Barão do Rio Branco convidou Joaquim Nabuco para ser embaixador do Brasil em Washington (EUA), entre os anos de 1905 e 1910.
Parece algo distante, mas em breve será uma realidade, ainda mais para quem pretende desenvolver uma pesquisa científica sobre os ideais do historiador pernambucano. O acesso a todo este material será possível graças a uma doação feita pela família Nabuco de Araújo à Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), órgão público vinculado ao Ministério da Educação, nesta semana, que completará o acervo já existente no local sobre o diplomata, que também foi político, jurista, orador e jornalista.
Após uma solenidade simbólica que homologou a entrega do material, ainda desconhecido pela comunidade acadêmica e pelo público, o restante do acervo que estava em posse da família de Nabuco – cerca de 5,5 mil documentos – se juntará aos mais de 15 mil itens que já estão na Fundaj, desde 1974. O evento ocorreu como parte das comemorações pelos 70 anos de existência da instituição fundada pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). As homenagens se estenderão até julho de 2019.
“São dois baús com uma variedade de documentos, como cartas trocadas entre os donos de engenho produtores de cana-de-açúcar que simpatizavam com o movimento abolicionista, bem como algumas fotografias variadas de reuniões, conversas do meu bisavô com escravos, correspondências familiares e uma carta-manuscrito do convite feito pelo Barão do Rio Branco para que ele fosse embaixador do Brasil nos Estados Unidos”, explicou Pedro Nabuco, cineasta e bisneto de Joaquim Nabuco, responsável por fazer a doação simbólica à Fundaj.
Todo o material doado, incluindo um exemplar da primeira edição do livro O Abolicionismo, obra na qual Joaquim Nabuco assumiu a defesa incondicional da abolição, deverá estar à disposição da fundação e da sociedade a partir de 2019. Antes, será totalmente catalogado e passará por processo licitatório que envolve, entre outros pontos, o transporte com seguro à sede da Fundaj, no Recife. Lá, receberá um tratamento específico de limpeza documental, uma nova catalogação, digitalização e, posteriormente, será objeto de exposição.
A presidente da Fundaj, Ivete Lacerda, esclareceu que o todo o processo de doação foi amplamente discutido com os herdeiros de Joaquim Nabuco e que a fundação debaterá um formato ideal para o conhecimento público do restante do acervo, incluindo a definição de um curador que será responsável pelas futuras exposições.
“Havia um pedido da Fundaj para que a doação fosse feita e ele foi debatido durante alguns anos, até porque envolve a intimidade de Joaquim Nabuco. Ele é o patrono da Fundaj e, a partir de agora, nós seremos a casa desse arquivo. Com esta doação, fecha-se um ciclo em reunir todo o seu acervo, diante da simbologia que ele representa. Agradecemos a responsabilidade e confiança que a família depositou na fundação", afirmou.
Com o complemento do material doado, que será incorporado ao Arquivo Privado Joaquim Nabuco, reconhecido como Memória do Mundo Unesco-Brasil 2008, essa parte da história de Joaquim Nabuco dará melhores condições dos pesquisadores avaliarem como se construiu sua figura. Além disso, reafirma a Fundaj enquanto instituição pública de pesquisa, preservação e acesso à memória brasileira.
Referências – Na avaliação de Pedro Nabuco, doar uma parte desconhecida do acervo é “como jogar uma garrafa ao mar”, dando a oportunidade de estudiosos e pesquisadores entenderem melhor o pensamento do historiador. Ele relembrou um pouco das referências que teve ao longo da vida com histórias contadas por seu avô José, filho caçula de Joaquim Nabuco.
"Meu avô José dizia aos seus netos que atrelassem sua vida a uma estrela e fizessem dessa estrela o seu ideal. Acho que ele pensava em Joaquim Nabuco quando nos falava isso. Nós temos convicção de que a documentação vai receber o melhor abrigo possível na Fundação e a nossa família fica muito feliz de tê-la como guardiã desse acervo”, pontuou.
Assessoria de Comunicação Social - MEC (25.07.2018)