Do Desprezo Político ao Linchamento Virtual: O Cotidiano Docente
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
É irrefutável que a docência é uma das profissões que mais geram adoecimento, sobretudo ao se analisar o desgaste da saúde mental e emocional, além do esgotamento profissional. A literatura aponta que o adoecimento docente está intrinsecamente ligado à precarização do trabalho, à desvalorização da carreira e ao descaso político institucional no que tange à representatividade da classe — haja vista que, para setores extremistas, os professores são pejorativamente rotulados como “vagabundos”.
Hoffmann et al. (2017) [1] pontuam que os reveses causados pela docência direcionam-se a danos psicológicos e sociais. Os primeiros remetem a um sofrimento intrínseco de caráter individual; já os danos sociais ligam-se à deterioração das relações do sujeito com seu convívio familiar e comunitário, manifestando-se por meio de agressividade, isolamento e conflitos. Cabe ressaltar, a partir da perspectiva dos autores, que a docência é uma profissão relacional; logo, a interação com alunos, pares e demais membros da comunidade escolar é de suma importância para o bom andamento das atividades pedagógicas. Dito isso, evidencia-se que o docente sofre tanto o esgotamento físico quanto o psicológico, quadro que se agrava quando a profissão é desvalorizada e hostilizada por representantes políticos.
Nessa linha, Cunha et al. (2024) [2] elucidam que as reformas impostas na década de 1990, sob influência neoliberal, impactaram severamente a vida dos professores. Os resultados de tais reformas precarizaram a educação pública e desvalorizaram a carreira docente, operando como um fator agravante para o adoecimento dessa classe trabalhadora. Sob essa égide, os principais males diagnosticados estão relacionados aos Transtornos Mentais Comuns (TMC) — como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e síndrome do pânico —, os quais acometem mais de 50% dos profissionais.
Somam-se a isso os problemas vocais, como a disfonia e os calos nas cordas vocais, decorrentes de esforços contínuos em ambientes com acústica inadequada ou em turmas numerosas e indisciplinadas. Esse cenário frequentemente resulta no afastamento dos professores de suas funções originais para assumirem atividades administrativas, fenômeno conhecido no meio educacional como "desvio de função" (comum quando o servidor possui estabilidade por ser efetivo no município ou Estado). Paralelamente, os distúrbios osteomusculares — representados por dores lombares, nos ombros, nas pernas e no nervo ciático — surgem como consequência de longas horas em pé e do estresse físico da rotina escolar.
Um fator que potencializa todos os males supracitados reside no próprio cenário acadêmico e na organização do trabalho: a falta de autonomia do professor, as excessivas exigências burocráticas e o desrespeito pela classe docente por parte de alunos e responsáveis. Diante dessas variáveis, constata-se que, para muitas instâncias governamentais, o professor ocupa uma posição na qual não lhe é permitido adoecer, sob a pena de sofrer punições e prejuízos funcionais[3].
Infelizmente, as famílias também oferecem uma contribuição significativa para o adoecimento dos docentes, na medida em que cobram, agridem, expõem fragilidades e questionam o profissionalismo do educador, explicitando uma profunda deficiência de valores. Como ilustração prática e recente desse cenário, cita-se o caso de uma professora que teve sua imagem exposta em um grupo de mensagens coletivas (WhatsApp) de pais da escola, no período em que se encontrava legalmente afastada por licença médica. Conforme assevera o professor Fábio Flores[4], “a falta de respeito com o profissional da educação está atingindo níveis inaceitáveis”.
A responsável pela exposição assumiu uma postura de julgamento e condenação sumária no grupo, o que reverberou pelas demais redes, gerando linchamento virtual e o uso de impropérios contra a docente. Tal episódio agravou severamente o estado de saúde da profissional, especialmente porque o registro divulgado flagrava um momento de seu tratamento clínico, em consulta com sua psicóloga.
Em suma, a profissão docente deveria figurar entre as mais valorizadas do país, posto que todos os cidadãos passam pela mediação do professor desde a mais tenra idade até a vida adulta, no desenvolvimento de habilidades, competências e conhecimentos. Todavia, a conduta e o caráter dos filhos cujos pais adotam posturas hostis contra os professores tendem a ser um mero reflexo do ambiente familiar. Como preconizado em minhas obras, o caráter provém da base familiar (do berço) e, nesse sentido, núcleos familiares eivados de má-fé apresentam elevada probabilidade de replicar esses comportamentos em suas linhagens — padrão este que já se manifesta, inclusive, no atual viés político.
[1] HOFFMANN, C. et al.. Psicodinâmica do trabalho e riscos de adoecimento no magistério superior. Estudos Avançados, v. 31, n. 91, p. 257–276, set. 2017.
[2] CUNHA, S. D. M. et al.. Vivências, Condições de Trabalho e Processo Saúde-Doença: Retratos da Realidade Docente . Educação em Revista, v. 40, p. e36820, 2024
[3]https://educacao.uol.com.br/noticias/2025/10/03/professor-sala-leitura-governo-sp-dispensa.htm
https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2025/10/governo-tarcisio-retira-aula-de-professores-que-tiveram-licenca-medica.shtml
[4] https://www.instagram.com/reel/DY4_Z6kREN8/?igsh=MWRvdnNkaXhzaW9pdQ==