21/09/2026

Do Coronelismo às Lideranças Neopentecostais

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

A educação tem a obrigação de instruir os educandos para que estes desenvolvam o discernimento necessário para perceber e atuar sobre o seu entorno. É preciso compreender que suas ações reverberarão, negativa ou positivamente, talvez por uma geração inteira, evitando tristes consequências sem precedentes.

Para isso, busquemos em nossa história os males causados pelo complexo sistema político-social denominado coronelismo. Conforme conceitua o jurista e cientista político Victor Nunes Leal[1], esse modus operandi ocorreu entre 1889 e 1930, sendo considerado a via mestra da Primeira República. O termo originou-se com a criação da Guarda Nacional em 1831, período no qual ostentar tal título era um privilégio de grandes fazendeiros que, consequentemente, criavam milícias privadas para a manutenção da ordem local.

Observe-se que "milícia" já é um termo bem conhecido no vocabulário do cidadão carioca, e todos conhecem os malefícios que ela traz onde se insere. Socialmente, a milícia atua como um câncer inserido propositalmente na célula mais vulnerável da sociedade.

Para Carvalho[2], no coronelismo é fundamental obter o controle do cargo público. Se observarmos bem, isso se tornou algo comum no Rio de Janeiro. Prova disso é que, após o afastamento do governador e a posse do governo interino, uma auditoria da Controladoria-Geral do Estado e do Gabinete de Segurança Institucional descobriu que até 78% dos cargos comissionados em secretarias fluminenses eram ocupados por funcionários fantasmas. Isso acarretou mais de 4 mil exonerações de servidores comissionados sem qualquer registro de acesso físico ou virtual, o que custava aos cofres públicos R$ 16,7 milhões em salários mensais.

Esse cenário pontua os resquícios da cultura coronelista: uma figura com certo capital político influencia seu curral eleitoral a eleger alguém de sua confiança para continuar perpetuando arbitrariedades. Como se não bastasse, esse mesmo governo do Rio de Janeiro repassou ao Banco Master — instituição envolvida na maior fraude financeira do país — o equivalente a R$ 3 bilhões, dinheiro extraído de fundos de aposentadorias.

Sob esta ótica, observa-se uma nova roupagem moderna em que o coronelismo se manifesta por meio de certas lideranças neopentecostais. Em vez de botas e chicote, o que impera hoje é uma face teocrática: a manipulação do texto bíblico para que fieis alienados terceirizem suas vontades e falas. Desse modo, reforça-se o antigo voto de cabresto, mas, onde outrora predominava a força física, hoje impera o constrangimento espiritual.

Um aluno dotado de discernimento possui a capacidade de perceber as nuances demagógicas contidas nos discursos políticos. Dito isso, nas eleições, confrontam-se dois modos de governo: um progressista, que enxerga o Estado como tutor dos mais vulneráveis e que prima pela educação, saúde, políticas públicas, soberania, meio ambiente e riquezas minerais; e outro que visa apenas ao bem da própria família, à vassalagem perante o governo estadunidense e que vê o Brasil não como um país soberano, mas como uma colônia.

Enquanto um projeto pleiteia o cargo de presidente reconhecido como um cidadão do mundo, o outro atua como um administrador colonial, fazendo de nosso país uma terra a ser explorada e uma extensão do "caso Epstein", adaptado para o benefício deles — afinal de contas, sob essa ótica, um “climazinho” pode pintar com nossas mulheres.

Um educando esclarecido percebe que discursos baseados no lema “Deus, Pátria e Família” muitas vezes carregam hipocrisia e uma moralidade doentia. Exemplo disso é que o vice de determinada chapa é acusado de estupro de vulnerável, sem contar que o próprio candidato responde a inquéritos por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, organização criminosa, além do histórico caso das "rachadinhas" na Alerj, divulgação de informações falsas e ataques às instituições.

Em suma, uma educação de qualidade instrumentaliza o educando para que ele perceba o histórico de quem está falando, analisando criticamente quais foram seus feitos e seus reais legados para a população.

 

[1] LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 7. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

[2] CARVALHO, J. M. de. Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: Uma Discussão Conceitual. Dados, 40(2), 229–250. 1997. https://doi.org/10.1590/S0011-52581997000200003

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