Diretora de escola pública revoluciona ensino
Por Ana Loiola e Julia Dietrich, do Aprendiz
Ativista, antiga militante da esquerda católica, forte opositora da ditadura e expulsa de casa pelo pai devido a sua constante atuação política, Maria de Fátima Borges de Oliveira deixou seu trabalho no setor privado para ser professora da rede pública. Há 10 anos é diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Olavo Pezzotti, na cidade de São Paulo,considerada referência entre as instituições públicas de ensino e notável pelo bom desempenho de seus alunos nas avaliações nacionais.
Crítica ferrenha do sistema educacional e árdua defensora da reformulação do modelo escolar, a diretora e pedagoga acredita que a educação pública é a coisa mais importante que o país tem para se preocupar. "O que se investe na educação não é tão pouco assim, mas o que produz é muito pouco em relação ao investimento", diz.
Segundo ela, o professor da escola pública não utiliza os recursos do colégio e não colabora para que a educação melhore a qualidade. "A partir do momento que permitimos que o profissional da educação (não só os professores) possa faltar 10 dias por ano, porque foi no congresso dele ou nas suas reuniões sindicais, embora obrigatórios no exercício da cidadania, temos um grande problema. Se cada professor do fundamental dois, por exemplo, onde o aluno tem oito professores, deixar de dar 10 dias de aula na mesma turma, serão 80 aula não dadas."
Borges insiste que não é uma falha do professor, mas do sistema educacional, pois o educador deve e merece ser valorizado pela qualidade de sua aula e não pela efetivação e pelo cumprimento de seu contrato de trabalho. "Outro grande problema são as estruturas de poder. A verba destinada à educação não é tão pequena assim. Diminuindo os gastos supérfluos e mau administrados no Legislativo, sobra dinheiro. Não adianta tirar da saúde para aumentar o orçamento da educação."
"Nós esquecemos de analisar o conceito de escola. Quando ela foi criada nesse formato, currículo, aula, professor, diretor, precisava ser assim. Se tudo é historicamente constituído, a escola também deve ser. A idéia de escola, o formato de escola, está vencido. Ou melhor, está falido. Ele não tem funcionado no Brasil e em lugar nenhum, mesmo nos países ricos, que valorizam a cultura, estão sofrendo com as mesmas coisas. Os professores vêm sofrendo igual, os Estados enlouquecidos igual e as crianças sem opção", explica.
Mesmo não podendo indicar um modelo ideal de escola, Oliveira acredita que alguns pontos, se modificados, contribuiriam para melhorar a qualidade da infância e da juventude no país. "A sociedade de hoje é semi-virtual e, por isso, é preciso começar a discutir uma escola com menos muros, menos cimento e areia e mais cinema, mais parques e mais museus - espaços que estão fora do muro dela, promovendo intercâmbio de espaços e trocas entre indivíduos", arrisca.
Vocação é certamente a palavra que melhor descreve a profissional que enfrentou inúmeras dificuldades, buscando parceiros no bairro da Vila Madalena e nas universidades públicas do estado para garantir, ao menos, maior chance de inserção e competição dos seus alunos na vida acadêmica e profissional. "Mas, até hoje não sei se a escola é referência porque tem parceiros ou se temos parceiros porque somos uma referência. É a lógica Tostines", brinca.
Parceira da Associação Cidade Escola Aprendiz, a diretora mostra-se apaixonada pela escola que dirige e acredita firmemente que modelos e espaços alternativos de educação são fundamentais para garantir que a criança e o adolescente se desenvolvam plenamente. "É no sentido do projeto sem-muros. Precisamos romper com as barreiras da escola - que é feita por adultos - e buscar novas acomodações para a infância. Precisamos fomentar a criatividade e a produção dos jovens. Eles precisam criar, desenvolver e ter suas idéias, tentativas e produções reconhecidas," explica.
Como alternativa às tradicionais e "politicamente corretas" visitas guiadas aos museus, Oliveira realizará uma gincana no Museu do Ipiranga. "Será proposto que localizem objetos, quem achar determinado objeto ganha pontos. Esses meninos, durante a procura terão que andar e olhar várias coisas. A cada nova coisa que eles forem descobrindo, passarão a ver o museu não mais como um lugar horroroso".