Diferença é reconhecida, mas ainda pouco trabalhada
Por Julia Dietrich, do Aprendiz
"Todas as guerras do mundo são iguais./Todas as fomes são iguais./Todos os amores, iguais iguais iguais./Iguais todos os rompimentos./A morte é igualíssima". Foi com o poema "Igual- Desigual", de Carlos Drummond de Andrade, que a coordenadora da Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação, Camila Croso, começou o debate Práticas da Educação: os cenários da diversidade, que aconteceu no Fórum Mundial de Educação do Alto Tietê, em Mogi das Cruzes (SP).
Para ela, é preciso encontrar o eixo comum que liga os países da América Latina. "Somos muito próximos e embora tenhamos enorme multiplicidade de saberes, línguas, histórias e culturas, temos inúmeras características comuns. O segredo está em encontrar a igualdade a partir do diferente", observou.
Para promover aquilo que chama de heterogeneidade ligada à equidade no convívio social, Croso insiste na necessidade de políticas públicas que busquem na diversidade das pessoas pontos de entendimento comuns. "As políticas, assim como as pessoas, devem ser heterogêneas", complementou.
A presidente da plataforma de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Descha) do Brasil - braço de frente social da Organização das Nações Unidas (ONU) -, Denise Carreira, propôs um aquecimento aos presentes que, na grande maioria, eram educadores do sistema público de ensino. "Quero que cada um pegue três minutos e discuta com a pessoa ao lado alguma dificuldade que teve ao tentar discutir a diferença nas escolas".
A reação foi imediata e um jovem professor, que preferiu não se identificar, se manifestou. "Como dificuldade, aponto algo que está acontecendo aqui. Não encontramos nenhum jovem de escolas públicas da periferia local aqui no evento. A periferia, até nos eventos de educação, é vista como um corpo estranho que parece não pertencer ao debate geral", pontuou. Durante todo o Fórum, inclusive, outros manifestantes expuseram a mesma questão.
Para Carreira, que aprovou a colocação do ouvinte, tanto nos modelos de educação formal, quanto não-formal, há reconhecimento das diferenças, mas ninguém pensa em como resolver a questão e como propor políticas de integração. "Existem diversas classificações e hierarquias na escola que perpassam as diferenças. Fica muito difícil para o professor travar certas batalhas contra a direção ou contra o próprio sistema", explicou.
Porém, ela insistiu que é justamente na escola, e mais especificamente na educação infantil, que a criança está apta a reconhecer e aceitar o outro. E, segundo a presidente, antes de pensar na inclusão é fundamental reconhecer quem é a sociedade. "Precisamos reconhecer que vivemos em uma cultura preconceituosa dentro das nossas próprias casas, trabalhos e na política", disse.
Como conquistas públicas no combate desses preconceitos, Carreira cita a Lei 10.639/2003 que instaurou a obrigatoriedade do ensino da cultura e história dos povos africanos na educação básica brasileira. "Essa foi uma vitória justamente porque o movimento negro não fugiu do conflito com a ordem que estava estabelecida. Não podemos fugir, devemos enfrentar essas questões de frente", complementou.
Outra ação necessária, segundo a presidente, está em superar o conceito de que a inclusão das diferenças só beneficia os grupos marginalizados. "Devemos perpassar essa perspectiva assistencialista. Devemos buscar compreender o quanto todos crescem ao conhecer o diferente. Do ponto de vista pedagógico, são inúmeras as pesquisas que a inclusão gera bens comprováveis para os indivíduos".
Ela contou que é necessário combater o que chama de "síndrome dos penduricalhos" no currículo e estrutura escolar. "Fazemos um projeto aqui, outro acolá. Devemos, no lugar, realizar uma transformação de base que modifique todo o sistema e efetivamente reconheça a pluralidade das relações nas diferentes culturas e grupos sociais", observou.
Para realizar essa tarefa, tanto Carreira, quanto Croso pontuaram a necessidade de articulação de redes e debate entre os diferentes segmentos sociais do espaço. "Fazendo alianças estratégicas e promovendo o diálogo conseguimos lutar. Devo lembrar que nossos direitos estão sempre em vias de desaparecimento e por isso devemos conquista-los diariamente", observou a presidente da Plataforma Descha. "O governo deve ouvir os movimentos sociais e os professores que trabalham no cotidiano com a questão", complementou.
Crédito da imagem: Sxc.hu
(Envolverde/Aprendiz)