07/05/2009

Desafio da educação para uma sociedade sustentável

 

Por Neuza Árbocz, da Envolverde - especial para o Instituto Ethos

 

Lia Diskin, cofundadora da Associação Palas Athena e criadora de dezenas de programas culturais e socioeducativos, será uma das debatedoras da mesa-redonda “Saberes Necessários para a Formação do Cidadão: o Desafio da Educação para uma Sociedade Sustentável”, da Conferência Internacional Ethos 2009, que se realizará entre 15 de junho, em São Paulo. A mesa discutirá a construção de uma educação baseada em novos paradigmas, que seja incubadora de cidadania e valorize outros saberes que não apenas o técnico. É o que a conferencista chama de “cidadania planetária”, um senso de comunidade ampliada, já que tudo é próximo e, de um modo ou de outro, afeta a todos nós.

Lia é escritora, conferencista e coordenadora do Comitê Paulista para a Década de Paz – um programa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Recebeu, na celebração de 60 anos da Unesco, o Diploma de Reconhecimento por sua contribuição na área de Direitos Humanos e Cultura de Paz.

Instituto Ethos: Hoje em dia, muito se fala da necessidade da formação de um novo cidadão. Que cidadão seria esse?

Lia Diskin: A complexidade crescente das dinâmicas sociais evidencia a necessidade de ações conjuntas: governo, empresariado, universidade, organizações da sociedade civil e de classe, igrejas... Isso se deve em grande parte aos avanços na democratização das instituições políticas e à mudança de procedimentos imposta pela tecnologia da informação e, com ela, pelas mídias que acompanham diariamente os bastidores do processo decisório, desvendando um cenário de interesses que apenas uma década atrás era inacessível à grande maioria da população. Portanto, as informações e os canais de ação estão disponíveis. O que se requer agora é criar mecanismos que permitam qualificar o cidadão para contextualizar informações e planejar ações, isto é, para ele se tornar um agente permanente de transformação dentro de sua realidade local, que é onde mantém uma rede mais numerosa e significativa de relacionamentos com os quais partilha necessidades e aspirações, dificuldades e potencialidades. Desse modo, a corresponsabilidade permeará a ordem social na qual ele deseja viver e desenvolver suas capacidades.

IE: Que novos saberes são imprescindíveis a esse novo cidadão?

LD: Os gregos do período Clássico tinham a convicção de habitar quatro casas: o cosmos, a polis, ou cidade, o lar familiar e o ethos, ou caráter pessoal. Isso proporcionava um senso de comunidade ampliada, o que hoje chamaríamos de cidadania planetária, na qual nada é sentido como alheio, pelo contrário, tudo é próximo, diz respeito e, de um modo ou outro, afeta cada um de nós. Penso que sentir-se integrando uma comunidade de vida que abriga a todos nós, junto com as outras espécies, é o saber mais importante nos dias presentes. Isso afirma a interdependência e garante o compromisso com a sustentabilidade, que, por sua vez, impulsiona mudanças quanto aos modos de produzir, viver e consumir. Nada evolui no isolamento. Portanto, atender meus interesses particulares sem avaliar o impacto que eles provocam no meio biológico/cultural que me sustenta e legitima quebra a lei da reciprocidade que alimenta as redes de vida. Qual é a qualidade de meu ser e estar no mundo? Agrego valor, dignidade, confiança e desejo de futuro ou sou uma presença predatória, irresponsável e gananciosa, que tem olhos apenas para ver o que gratifica, causa prazer e aumenta o poder?

IE: Como as escolas podem contribuir para a aquisição destes saberes?

LD: Promovendo o senso crítico, a autonomia e a capacidade de reflexão sobre a urgência de implementar os direitos humanos em nosso dia-a-dia, nas próprias salas de aula, no seio das famílias e das comunidades. A democracia não é apenas um sistema de regulação do Estado, é um processo que afeta todas as relações interpessoais, inter-religiosas e institucionais nas quais se garantem direitos e se demanda o cumprimento de responsabilidades com o propósito de criar espaços de convivência confiáveis, saudáveis e justos. A escola é o primeiro lugar onde se vive o coletivo, onde é necessário compartilhar com outros a atenção do professor, da diretora, da assistente pedagógica ou da merendeira. É onde temos de ouvir os outros – cujas idéias e vontades nem sempre coincidem com as nossas – temos de realizar tarefas e participar de projetos. Mas é também onde descobrimos amigos, talentos e espaços de autoexpressão, conhecimentos que ampliam a compreensão de nós mesmos e do mundo à nossa volta, sentimentos de empatia, solidariedade e parceria.

IE: É possível estimular o aprendizado técnico e, ao mesmo tempo, o aprendizado social e emocional no ambiente escolar?

LD: Pesquisas recentes no campo da neurociência afirmam que o conhecimento está intrinsecamente vinculado às emoções, pois são estas que organizam, articulam e contextualizam as informações. O neuropsiquiatra Borus Cyrulnik chega a dizer que, para sermos inteligentes, temos que ter sido amados. Esse corte que fazemos entre a racionalidade e a emotividade de fato não existe. Por trás dos argumentos racionais que podemos apresentar ante uma determinada situação, há um repertório de emoções e crenças que orientam em outra direção. Lembrando que as emoções são a nossa resposta ao modo como nos afeta o mundo, esse padrão de resposta está presente em qualquer atividade que realizamos.

IE: Os professores estão preparados para fazê-lo? O que pode ajudá-los?

LD: As mudanças que estamos vivendo nestas últimas décadas acontecem em tamanha velocidade e intensidade que me permito dizer que ninguém está preparado para os desafios presentes. Será que os economistas estão bem capacitados para lidar com a crise que se desencadeou no ano passado? E, se estão, por que não anteviram as consequências de suas decisões? O mesmo podemos afirmar dos políticos, dos cientistas, dos empresários. Estamos nos preparando à medida que avançamos e o único que nos pode ajudar sem contradições é cultivarmos um espírito de humildade, que acolhe a diversidade de saberes com grande respeito e abertura, apostando, como diria Edgar Morin, que a multiplicidade de olhares advindos de múltiplas disciplinas nos permitirá compor um quadro da realidade mais justo, inclusivo e fraterno.

IE: As escolas podem ser pontos de partida de ações concretas por um novo mundo?

LD: Seguramente, pois é a educação que alavanca com maior rapidez as mudanças estruturais que uma determinada ordem social demanda. Um fenômeno evidente é o impacto que as aulas sobre meio ambiente estão provocando no comportamento dentro da família. A criança ou o jovem volta da escola para casa com um mundo de descobertas e informações que partilha com entusiasmo e pede adesão de propósitos, torna-se patrulheiro, ativista, militante, enfim, um excelente agente de mudança.


(Envolverde/Instituto Ethos)
 
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×