27/04/2009

''Cultura e arte são instrumentos privilegiados para a educação''

Por Talita Mochiute, do Aprendiz

 

“A cultura e a arte são instrumentos privilegiados para a educação formal e não-formal”, afirmou o fundador-presidente da rede europeia Banlieues d’Europe, Jean Hurstel, durante o seminário internacional “Linguagens da Cultura – Desafios da Educação Não-Formal”, promovido pelo projeto Rumos do Itaú Cultural, em São Paulo (SP).

Durante sua participação, o arte-educador enfatizou a importância da arte e da cultura como matérias-primas para a aprendizagem e formação do indivíduo. Para ele, esse processo pode acontecer tanto dentro como fora das salas de aula. “Não podemos pensar o desenvolvimento do indivíduo e de uma comunidade sem considerarmos a dimensão cultural”, reforçou.

A coordenadora do escritório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em São Paulo, Vera Paolillo concordou com Hurstel. “A diversidade cultural e o direito à educação são importantes para qualquer projeto de desenvolvimento. Por isso, é necessário construir políticas públicas para a proteção da identidade cultural e para a promoção da diversidade, baseadas em valores como tolerância, convivência e cultura de paz”.

Jean Hurstel trouxe como exemplos algumas iniciativas desenvolvidas em bairros pobres europeus, marcados pela exclusão social. Relatou o trabalho da rede Banlieues d’Europe (http://www.banlieues-europe.com/), que reúne projetos artísticos e grupos de pesquisa de diversos países europeus, e também suas experiências como diretor da Laiterie - Centre européen de la jeune création à Strasbourg, na França.

Uma dessas experiências foi o projeto “Kepler, a linguagem necessária”, implementado na Laiterie. O objetivo era que os jovens excluídos criassem uma peça teatral sobre o astrônomo, descobridor do movimento elíptico dos planetas. Para que soubessem da biografia e do trabalho do cientista, eles tiveram encontros com pesquisadores universitários. Após nove meses de estudos, o grupo apresentou um espetáculo teatral. “Eles puderam aprender noções de ciência moderna e contemporânea. E demonstraram seu potencial”, disse Hurstel.

Para reforçar o poder de projetos culturais no processo de formação do indivíduo, Hurstel lembrou de uma experiência em Bruxelas na Bélgica. Jovens analfabetos foram motivados a ler e a escrever a partir de um processo artístico. Começaram descobrindo a cidade com seus inúmeros signos. Depois foram apresentados às letras. No final de três anos, conseguiram escrever um livro.

“A cultura ajuda a mudar a visão que tenho sobre mim e também a visão que os outros possuem sobre mim”, falou Hurstel ao defender a sua tese de que a cultura é motor essencial no processo de inserção social.

Vínculos sociais e Democracia

De acordo com o arte-educador, a cultura está no centro dos vínculos sociais, uma vez que se relaciona com a imaginação e a representação dos valores transmitidos. Para exemplificar essa tese, Hurstel cita os desfiles na cidade de Lyon, na França. Mais de 100 mil pessoas trabalham em ateliês nos bairros pobres para organizar o desfile que reúne milhares de espectadores a cada dois anos no segundo domingo de setembro. “É um exemplo de como refazer o sentido simbólico da unidade de uma cidade”.

Essas intervenções artístico-culturais contribuem para o desenvolvimento do trabalho em grupo e trazem benefícios para uma comunidade. Também é um exercício de democracia.

Segundo Hurstel, no desenvolvimento dos projetos culturais, as pessoas se exprimem e precisam também escutar o outro. A etapa seguinte é o debate, o momento da confrontação das ideias e da negociação para a construção do projeto.  “Esses quatro elementos estão na base da vida democrática”, disse.


Crédito da imagem:www.sxc.hu


(Envolverde/Aprendiz)
 
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