06/12/2006

Criança não tem espaço para brincar

Por Ana Loiola e Julia Dietrich, do Aprendiz

"Como a nossa sociedade é desenhada para adultos, as crianças não têm espaço para brincar, construir e pensar. São vistas pela sociedade capitalista apenas como consumidores e não pessoas capazes de produzir intelectualmente e com criatividade. O mundo atual trata os jovens como mini-adultos e não lhes oferece condições e espaços próprios para que possam existir plenamente." A crítica é da diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Olavo Pezzotti, Maria de Fátima Borges de Oliveira.

Segundo a diretora, como as crianças não têm nem espaço, nem orientação para brincar, a escola se torna esse ambiente. "Elas continuam patinando sem ter um lugar, chegam na escola e, em vez de estudar, brincam. Os professores querem ensinar e os alunos querem se divertir," aponta.

Como alternativa a essa falta de espaços para a infância e para adolescência, Oliveira, acredita que a Associação Cidade Escola Aprendiz possibilita que eles exerçam sua capacidade de produção e criatividade, sem serem punidos pelos erros que eventualmente cometem nas suas tentativas. "A escola não está preparada para permitir o erro e deixar que projetos sejam refeitos."

Pesquisa realizada pela escola Olavo Pezzotti, demonstra que os alunos que freqüentam o Aprendiz por quatro anos ou mais têm melhora de 90% na atitude e no desempenho escolar, aumentando o interesse por cultura, arte, história e esportes, além de maior desenvoltura e desenvolvimento do senso crítico e analítico nos trabalhos que lhes são propostos.

As crianças da EMEF que participam de atividades conjuntas com a organização na-governamental apresentam, segundo os dados da pesquisa, significativa redução de atos infracionais e de violência física e moral, melhora do humor, aumento de freqüência às aulas, responsabilidade com as tarefas escolares, maior interesse pela leitura e maior respeito ao diferente.

Segundo a estudante da 7ª série da EMEF Olavo Pezzotti, Lorena Flores Vidal, de 13 anos, que participa há menos de um ano das atividades no Aprendiz, a ong é uma comunidade. "Aprendemos a conviver com os outros, respeitar aqueles que são diferentes de nós e nos tornamos mais companheiros", acredita.

"Devido aos projetos e atividades realizados, a criança desenvolve a idéia de começo, meio e fim. Enquanto na escola não se sentem estimuladas a concluírem uma atividade e, então, verificarem o produto final, no Aprendiz elas aprendem a pensar desde a atividade que cumprirão até a finalização da idéia concreta, diferentemente da nossa sociedade, onde a produção que não têm fins lucrativos e comerciais é desvalorizada ou menos importante," explica Oliveira.

"No Aprendiz, eu me tornei menos tímida, mais comunicativa e estou descobrindo novas experiências e possibilidades futuras", aponta Mariana de Lima , de 11 anos, aluna da 5ª série da Olavo Pezzotti.

Segundo Oliveira, eles transferem para outras situações da vida o que aprendem, fazendo algo concreto. "É uma união de quase 10 anos entre nossa escola e o Aprendiz. Nesse tempo, pudemos verificar que há grande melhora no aprendizado, na valorização da auto-estima e incentivo na auto-descoberta das crianças. Os alunos que participam dessa parceria passam a pertencer, constroem coletivamente essa sensação, o que reverbera e fortalece os laços na própria escola", diz ela que participa do seminário promovido pelo Aprendiz "Cidades Sem Muros - construção de comunidades de aprendizagem", no dia 11 de dezembro, a partir das 8:30 horas, no Museu de Artes de São Paulo (Masp).

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