17/05/2011

Criados com iPods, alunos jogam bridge em escolas dos EUA

Quatro jogadores de bridge fitam suas cartas, tentando determinar qual dupla faria o papel do chamado carteador e o morto. Então um dos quatro, Max Plati, 8 anos, se desmancha em risadas ao falar para o garoto sentado do outro lado: "você é o morto!".

A professora, Eleen Crowley-Bloss, lembra seus alunos da segunda série que no bridge, o significado de "morto" é "parceiro silencioso". Ainda mais incomum pode ser o jogo calado dos alunos e sua determinada concentração, tudo sem o envolvimento de um aparelho eletrônico.

Xadrez ainda é um jogo preferido entre educadores, mas o bridge se populariza em um número crescente de escolas, grupos comunitários e centros recreacionais dos Estados Unidos. Muitos veem o jogo de cartas oferecendo os benefícios mentais do xadrez, porém com um componente social.

O distrito de Lakeland, no norte da cidade de Westchester County, começou a ensinar bridge este ano como um meio de reforçar habilidades de matemática e resolução de problemas, assim como socializar uma geração de crianças criadas com passatempos solitários como jogar videogames e escutar iPods. Agora, jardins da infância aprendem a classificar naipes e números altos e baixos, enquanto alunos mais velhos jogam em clubes de bridge e competem online em torneios virtuais.

Seus esforços para promover o bridge entre estudantes ajudou a reavivar um jogo que alcançou uma popularidade nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial e o redefiniu de um passatempo de lazer para os idosos para um jogo feito para competições interescolares, nas quais jovens jogadores competem por troféus, bolsas de estudo e o direito de se gabar.

Em 2009, um garoto de 9 anos da Geórgia, Richard Jeng, tornou-se o jogador mais novo a ganhar o título de campeão da Liga Americana de Bridge, a maior organização de bridge do país; a média de idade dos 165 mil membros é de 67 anos. Espera-se que 300 jogadores jovens de alto nível disputem no quarto ano do Campeonato de Bridge da Juventude Norte-Americana, em Toronto, em julho, enquanto outras centenas jogarão em torneios locais este ano.

"Ver alunos de sétima e oitava série se sentando e se concentrando por três horas não acontece se não no bridge", disse Bud Brewer, cujo grupo sem fins lucrativos, Reno Youth Bridge, presidiu um torneio em abril, após ensinar o jogo a 160 alunos de 14 escolas públicas e três escolas particulares em Reno e Sparks, Nevada.

Programas de bridge para jovens similares brotaram em mais de uma dúzia de outras cidades, incluindo Atlanta; Raleigh, Carolina do Norte; Pensacola, Flórida; Phoenix, Arizona, e Honolulu. A Atlanta Junior Bridge, que foi criada por jogadores de bridge em 2006, ensinou o jogo a 1,7 mil alunos em aulas vespertinas e acampamentos de verão, e este ano desenvolveu um currículo de matemática baseado no bridge que está sendo lecionado em escolas como a Buford Middle nos subúrbios de Atlanta.

Leslie Markes, professora de matemática da oitava série em Buford, lembra que alunos intrigados perguntaram no começo se iriam construir pontes. Agora a aula de 30 minutos de bridge é tão popular que ela precisa recusar alunos. "Queríamos ensinar-lhes matemática de um novo jeito", disse ela. "Contudo não a anunciamos como 'venha ter aulas extras de matemática'".

Os benefícios do jogo
Bridge é um jogo desafiador até para adultos, demandando estratégia e memorização de regras complexas. Todavia, as evidências de seus benefícios acadêmicos ainda são amplamente anedóticas. Um estudo de 2005 de Christopher C. Shaw, professor aposentado de administração e jogador de bridge, descobriu que um grupo de alunos da quinta série jogadores de bridge em Carlinville, Illinois, teve maiores ganhos em testes padrão do que seus colegas de sala, mas estudiosos acadêmicos denominaram tais descobertas limitadas e preliminares. Shaw está conduzindo um estudo de bridge similar com alunos de Mount Pleasant, Iowa.

"Minha intuição diz que o bridge é uma ferramenta muito boa para desenvolver pensamento crítico e raciocínio inferencial, e ainda lhes dá uma habilidade recreacional para a vida", disse Shaw.

Bill Gates e Warren Buffett foram dissuadidos por sua própria experiência, como jogadores de bridge, a garantir US$ 1 milhão em 2005 para promover o bridge em escolas. O dinheiro foi usado para ajudar a criar a Liga Escolar de Bridge, programa que gerou interesse no jogo por aulas introdutórias, torneios online e apresentações em conferências de professores. Os esforços fracassaram, em parte porque escolas estavam cortando programas, não aderindo a eles, e alunos acharam difícil aprender o jogo com apenas um punhado de aulas.

Fundadores da Liga Escolar de Bridge eventualmente devolveram US$ 400 mil a Gates e Buffett em 2010. Entretanto, tentaram novamente no último verão, reorganizando o programa sob a direção de Enith Berg, professor aposentado e jogador de bridge. Estão tentando construir programas mais compreensivos em menos distritos, começando com crianças mais novas e uma versão mais simplificada do jogo, conhecido como mini-bridge. Desta vez, o programa é dirigido com um orçamento modesto com doações de, entre outros, Jon Sandelman, financiador de fundos de hedge, e David Barger, executivo chefe da JetBlue, que doou 25 passagens aéreas, algumas das quais usadas como prêmios em torneios.

Na cidade de Nova York este ano, a Liga Escolar de Bridge ajudou a apresentar o jogo à Anderson School, escola municipal para estudantes dotados e talentosos que ensina bridge a alunos da terceira série. A escola também criou uma aula eletiva para alunos da escola secundária e organizou um evento familiar de bridge em março. Outra escola, a Midtown West, formou um clube de bridge para alunos de quarta e quinta série e u grupo de bridge para pais.

"Diferentemente do xadrez, força alunos a colaborar juntos", disse Dean Ketchum, diretor da Midtown West. "E estamos proporcionando uma atividade acadêmica às famílias, que eles poderão compartilhar por toda a vida".

Até escolas onde o dinheiro é curto tentam encontrar uma forma de ensinar bridge. O distrito escolar de Orange Township, em Nova Jersey, iniciou clubes de bridge para 30 alunos em duas escolas primárias no ano passado, após um privilegiado programa de aulas de bridge ser eliminado em cortes de orçamento. No próximo outono, o distrito planeja expandir os clubes de bridge para outras duas escolas em resposta ao crescente interesse.

George Stone, o superintendente do distrito de 6,2 mil alunos de Lakeland, disse que decidiu apresentar o bridge em cinco escolas primárias após conhecer seus benefícios com Berg, também seu vizinho. Disse que espera expandi-lo para escolas secundárias e de ensino médio. A Liga Escolar de Bridge, a qual financia o programa, gastou cerca de US$ 5 mil em baralhos, materiais e instrutores de bridge para estudantes e funcionários.

Stone não é um jogador. "Tentei aprender e não tive sucesso como nossos alunos", disse ele. "Envolve regras, memorização, habilidades de raciocínio, lógica e trabalho em equipe, é impressionante que crianças possam se adaptar ao jogo tão rápido".

Recentemente na turma de Crowley.Bloss, os alunos de segunda séries sentaram-se nas carteiras em grupos de quatro e calcularam pontos de suas cartas, escrevendo problemas adicionais. Então os jogos começaram. Max, lançando o olhar ao parceiro, baixou um ás para ganhar o lance. "Apenas gosto de ganhar", afirmou Max, que também joga xadrez. "Bridge é mais divertido que xadrez, porque você tem um parceiro para te ajudar se você está em uma situação difícil".

Melhor que videogame
Na escola das proximidades, a Benjamin Franklin, uma sala de quinta série revê regras de bridge e o vocabulário em uma projeção de PowerPoint. Na tela está a pergunta: quando alguém consegue uma carta mais alta que a sua, como isso se chama? (Resposta: trunfo, ou em inglês, trump). "Pense em Donald Trump", disse a professora Annamarie Conte aos alunos antes de reunirem suas cartas e sentarem para jogar.

"Parece que nos ensina matemática, mas gosto mais que matemática", disse Jack Schwerner, 10 anos, que classificou o bridge como melhor que videogame, mas não melhor que futebol.

Patricia McIlvenny, a diretora, afirmou que aulas com trabalho de equipe e cooperação aprendidas em torno de uma mesa de bridge são tão importantes quanto às aulas acadêmicas. "Você pode comunicar sua estratégia para seu parceiro", disse. "Na verdade você tem que baixar o celular e interagir em torno da mesa. É reintroduzir muitas habilidades sociais que foram perdidas".

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