Cotas: Justiça Social ou Segregação?
Como as universidades gerenciam o sistema de cotas
Não importa se você é negro, branco, índio, mulato. Tampouco se é rico ou pobre. Perante a Constituição, independentemente da origem, raça ou condição social, todos os brasileiros possuem os mesmos direitos e deveres. Na teoria, o discurso funciona bem. Mas e na prática? É, neste caso, a realidade é outra: os privilegiados, majoritariamente, continuam sendo aqueles que fazem parte de apenas uma pequena parcela da sociedade. Na maioria das vezes, brancos, com mais poder aquisitivo.
Você pode pensar: "Ah, não! De novo o discurso das minorias!" A hora, porém, não é de alienação. O atual cenário brasileiro, inclusive na Educação, mostra as reais diferenças de oportunidades. Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), dos 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, 70% são negros. E mais: 97% dos universitários brasileiros são brancos, contra 2% de negros e 1% de amarelos. Não dá para negar que é uma discrepância significativa.
Para minimizar os prejuízos desta "porção de excluídos", fornecendo meios para que eles tenham um futuro diferente do que o perpetuado até hoje, criou-se o sistema de cotas destinado a negros, índios e pessoas de baixa renda no Ensino Superior. Seria esta uma forma invertida de segregação? Como já era de se esperar, a iniciativa causa muita polêmica dentro e fora da universidade, entre alunos, professores, gestores e sociedade civil.
De um lado aqueles que defendem a idéia de que o sistema é a única forma de se resolver o problema da exclusão racial e social a curto prazo. Do outro, os que afirmam que as cotas baixariam a qualidade das universidades, reconhecidas por sua excelência. "O programa é visto como uma quebra de privilégios. Esta, na verdade, é uma maneira de forçar a sociedade a abrir espaços para os negros, índios e pobres", ressalta a cotista do segundo ano do curso de História da UnB (Universidade de Brasília) Lelia Charliane Andrade dos Santos, 21 anos.
Mas a estudante de Hotelaria e Turismo da UNOPAR (Universidade Norte do Paraná) Mel Cansian, 19 anos, não partilha do mesmo conceito. "É uma forma, a médio prazo, de esconder a situação do Ensino Superior brasileiro e, ainda, mascarar a defasagem do Ensino Fundamental e Médio do país", argumenta.
Muitas pessoas se sentem prejudicadas por essa medida. Este é o caso de Mel, que não conseguiu ingressar no curso de Administração da UEL (Universidade Estadual de Londrina) em função do sistema de cotas adotado pela instituição. "Ao todo, eram 90 vagas e passei na 94ª posição. Teve seis chamadas posteriores e ainda outras duas extraordinárias", conta. "Sei que a graduação é um direito de todos, mas não posso ser prejudicada por conta da irresponsabilidade do governo, que não cumpre o seu papel".
Roubar a vaga? Este pode ser um termo muito forte, mas expressa exatamente o sentimento das pessoas que concorrem o tão disputado vestibular universal. Mas que, na opinião do cotista do curso de Filosofia da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Marcos Antonio de França, 42 anos, é uma visão individualista. "Não roubamos vagas de ninguém. Pelo contrário, estamos assumindo uma posição que durante muito tempo foi nos tirada", garante.
Dizer que os cotistas não têm a mesma capacidade dos outros estudantes que ingressaram na instituição pelo sistema convencional é uma outra bobagem. "É inegável que estes alunos chegam na graduação com uma defasagem que trazem desde a Pré-Escola. A bagagem de conhecimento pode ser maior, mas as capacidades são as mesmas", afirma Lelia. "O que nos diferencia são as oportunidades".
Preconceitos nos campi
Junto a essas grandes polêmicas, correm pelos campi muitos preconceitos em relação aos cotistas. Desde piadinhas sem graça como: "Tinha que ser cotista para falar isso", até as mais agressivas: "Se não fossem eles, tudo seria mais fácil". Mas Lelia supera todos estes desafios sem deixar que as chacotas lhe tirem o prazer da conquista do sonho de concluir a graduação. "Supero tudo isso mostrando a minha capacidade e empenho escolar. Provo com atitudes que tudo isso não passa de pré-conceitos de uma sociedade quadrada", argumenta.
Embora França nunca tenha sofrido nenhum tipo de preconceito, afirma que as descriminações que acontecem dentro do campus são as mesmas vividas em qualquer outro espaço da sociedade. "Uma discriminação polvilhada", relata. "Ninguém quer nada de mão beijada, queremos a oportunidade para provar que somos capazes de correr atrás dos nossos ideais e sonhos".
Para minimizar as atitudes preconceituosas nos corredores acadêmicos, algumas instituições oferecem programas que promovem ações afirmativas. Um exemplo disso é o programa da Afroatitude da UnB, que visa fortalecer programas que colobaram para a inserção dos cotistas ingressos. "O desenvolvimento do Brasil passa necessariamente pela inclusão do negro na nossa sociedade", afirma o estudante do 5º semestre de Ciências Sociais da UnB e colaborador do programa Afroatitude, Cleiton Costa de Santana, 20 anos. "O sistema de cotas é uma forma de consertar um erro que a sociedade vem cometendo há muito tempo".
Além das cotas
Será que adotar o sistema de cotas, pura e simplesmente, vai resolver séculos de discriminação econômica e racial? Muitos acreditam que este seja apenas um primeiro passo. Outras ações precisarão ser implantadas para dar continuidade ao programa. "Não adianta apenas jogar este povo dentro da universidade, é preciso dar o mínimo de condições para que eles permaneçam lá", relata o estudante de filosofia.
De acordo com Mel, as ações deveriam começar no Ensino Fundamental. "Pular direto para a graduação parece ser a solução mais fácil, mas não mata o mau pela raiz", diz. "Seria mais eficiente o MEC poupar esforços para melhorar o ensino das escolas fundamentais e médias. Desta forma, todo mundo teria as mesmas oportunidades na hora de entrar numa universidade", explica a estudante.
Muito mais do que todas estas ações, a cotista Lelia acredita que o governo brasileiro tenha que investir em programas de conscientização. "O trabalho de convivência na sociedade é o mais importante e aí você tem que começar de baixo, conscientizando as crianças, seus pais e professores", afirma. "Se todos nós tivéssemos as mesmas condições de estudo, de moradia, de trabalho as cotas não seriam necessárias. As pessoas deveriam se envergonhar de saber que existe este sistema", conclui.