Contra a educação que exclui
Por Renata Camargo
O Brasil é um país que tem dimensões continentais. Do Oiapoque (ponto mais extremo ao Norte) ao Chuí (extremo do Sul) são mais de 4.320 quilômetros. Mas a distância não fica só no mapa. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que no caso da educação, essas diferenças são marcantes. É o caso, por exemplo, do atraso escolar (defasagem das séries em relação à idade). Enquanto no município do Amapá essa diferença é de 53,6%, na cidade gaúcha, a taxa de distorção idade-série fica em 29,6%.
Para combater esse alto índice de exclusão, especialistas reunidos no 4º Telecongresso Internacional de Educação de Jovens e Adultos – que teve início na terça-feira (18), e segue até quinta-feira (20), em Brasília – sugerem, dentre outras medidas, a adoção da educação a distância (EaD). Promovido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi), Universidade de Brasília (UnB) e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o encontro será retransmitido para 13 mil pessoas no Brasil, Estados Unidos e Itália.
TOQUE HUMANO – Presente à cerimônia de abertura, realizada no auditório da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em Brasília, o reitor da Universidade de Brasília (UnB), professor Lauro Morhy, fez uma “provocação” – como ele mesmo definiu – comparando os tempos da Internet à era do cinema, com foco na educação. Para ele, com a criação da sétima arte, chegou-se a pensar que, em pouco tempo, os cursos seriam ministrados em telões e que os professores seriam dispensados. Hoje, com a chegada da Internet, o discurso se repete. “Ter um giz na mão do docente pensante é mais importante do que ter um computador na frente de um papagaio, que só repete as informações. Um bom professor é responsável por motivar o aluno”, afirma Morhy, ao ressaltar a importância dos tutores na EaD.
Esse papel insubstituível do docente foi exatamente um dos temas da primeira mesa de discussões do Telecongresso. Para a professora da Universidade Corporativa do Sesi (UniSesi) Urania Flores, essa humanização dos processos educacionais é necessária, mesmo que haja uso irrestrito da tecnologia. Ela participa do encontro para conhecer mais a fundo as discussões, nacionais e internacionais, a respeito da área. “A educação brasileira atual é excludente”, critica a professora.
INCLUSÃO - Urania aposta na educação a distância como uma importante ferramenta, mas acredita que é preciso acompanhamento rigoroso dos tutores. “Quando se pensa em EaD, só vem à mente a figura do computador. Não deve ser assim. É preciso humanizar esse processo”, reforça. Para o professor do Departamento de Sociologia da UnB Pedro Demo, mediador da discussão, o aprendizado pode ser facilitado pela tecnologia, mas não trocado por ela. “O potencial humano é insubstituível em qualquer sistema virtual”, reforça.
O encontro, que discutirá entre os temas a responsabilidade dos meios de comunicação no processo de aprendizagem, a importância da mídia para a formação de valores e construção da cidadania e o papel dos programas de TV e rádio educativos, será acompanhado em 250 localidades brasileiras. “Embora a tecnologia não vá substituir o professor, é uma importante ferramenta para garantir a oportunidade de aprendizagem e, por meio da educação a distância, atuarem para inclusão social”, afirma a secretária-executiva do Telecongresso, Joana D’Arc Machado Cerqueira.
LICENCIATURA VIRTUAL
O primeiro curso de licenciatura na modalidade de EaD da Universidade de Brasília (UnB) está com vestibular marcado para janeiro de 2006. Segundo o diretor do Centro de Educação a Distância da UnB, professor Bernardo Kipnis (foto)– que também participa da comissão executiva do Telecongresso –, o Curso de Biologia a Distância está previsto para ter início em março de 2006, quando deve começar o primeiro semestre letivo da universidade. “Ao utilizar a tecnologia mais moderna, amplia-se o acesso à educação. Não tenho dúvida de que teremos um aumento bem considerável do número de alunos com acesso ao ensino superior”, afirma Kipnis.
O Curso de Biologia a Distância já está aprovado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Conselho Universitário (Consuni). No âmbito da UnB serão oferecidas 250 vagas. “A EaD vai substituir aquele professor que apenas passa as informações aos alunos. Permanece o docente que, antes de tudo, valoriza a pesquisa, orienta o aluno na construção do conhecimento e motiva o estudante a aprender”, destaca Kipnis.