| Por Talita Mochiute, do Aprendiz | Como as novas tecnologias e a Internet podem ampliar o acesso ao conhecimento? Como romper com mecanismos restritivos que impedem o livre acesso a conteúdos para uso educacional? Essas foram algumas das questões abordadas no debate “Direitos Autorais e Educação”, promovido na última terça-feira, 24 de março, pela Ação Educativa e pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para Acesso à Informação da Universidade de São Paulo (GPOPAI – USP), na capital paulista.
Desenvolvidos por meio de processo colaborativo, o Livro Didático Público, desenvolvido pelo Projeto Folhas, da Secretaria da Educação do Estado do Paraná, e a Wikilivros foram apresentados no debate como exemplos de experiências de material didático de livre acesso.
O Livro Didático Público é resultado do Folhas, programa de formação continuada que propõe aos professores a produção de material didático, incentivando, dessa maneira, a pesquisa. Ao participar do projeto, o educador realiza um estudo sobre um tema de sua disciplina e depois escreve um material em linguagem acessível aos alunos. O conteúdo é validado ou não por outros professores da rede.
Em 2005, a secretaria paranaense de Educação selecionou as melhores “folhas”, reunindo 60 autores para escreverem livros para as disciplinas do Ensino Médio: Arte, Biologia, Educação Física, Física, Filosofia, Geografia, História, Língua Portuguesa e Literatura, Língua Estrangeira Moderna, Matemática, Química e Sociologia. Na etapa final, os livros foram ainda avaliados por consultores de universidades.
Em 2006, 450 mil exemplares foram impressos pela Secretaria e distribuídos para os alunos do Ensino Médio do estado. Todos os volumes da coleção, que custou cada R$ 36 para o governo paranaense, estão disponíveis na Internet para download. A reprodução total ou parcial do livro está autorizada. As “folhas” que não foram selecionadas para coleção impressa também têm acesso livre. A secretaria já desenvolve projeto para o Ensino Fundamental e realiza a 3ª edição do Livro Didático Público do Ensino Médio.
“O material complementa o livro didático, dando maior profundidade aos temas. E, principalmente, faz parte de um programa de formação de professores. A pesquisa e o exercício da escrita ajudam o docente melhorar a qualidade de suas aulas”, comentou o coordenador do projeto do Livro Didático Público, Jairo Marçal.
Livros Coletivos na Rede
Com o objetivo de promover o desenvolvimento colaborativo de livros, manuais e outros textos didáticos de conteúdo livre, a Wikimedia Foundation criou o projeto Wikilivros. “Você pode colocar conteúdo e editá-los em qualquer momento. Qualquer usuário pode participar como leitor ou produtor de informação”, explicou o colaborador da Wikilivros, Helder Geovane Gomes, ressaltando o diferencial da ferramenta.
Para Gomes, o professor pode orientar seus alunos a elaborarem novos textos ou aprimorarem textos da Wiki a partir das pesquisas realizadas. “Dessa maneira, trabalha com os alunos a escrita, a criatividade e a leitura crítica”.
“Os professores também podem acrescentar suas aulas na Wikilivros e os alunos podem organizar suas anotações de aula na Internet. Esse material é útil para outras turmas e também fica disponível para todo público”, relatou Gomes.
Quem mais tem colaborado com o Wikilivros são alunos de graduação e pós-graduação da área de informática, segundo Gomes. Há estudantes que publicam seu Trabalho de Conclusão de Curso neste espaço.
Ao ser indagado sobre a falta de precisão e qualidade causada pelo processo colaborativo de conteúdo, Gomes argumentou: “Erros, você pode encontrar em qualquer fonte. Por ser aberto, é possível corrigir os erros e melhorar o conteúdo”.
Acesso à produção científica
O acesso à produção científica também foi discutido na mesa sobre experiências de material didático de livre acesso. O coordenador geral de pesquisa e manutenção de produtos consolidados do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), Hélio Kuramoto, apresentou o projeto do Portal de Livros Didáticos Eletrônicos, em fase de implementação pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).
A ideia é disponibilizar conteúdos didáticos produzidos por instituições governamentais, oferecendo acesso livre à informação científica de artigos de revistas acadêmicas. “O Portal será dividido em quatro partes: repositório, wiki, pergunta/resposta e sebo virtual. Além dos órgãos públicos, voluntários e autores contratados pelo MCT e pelo Ministério da Educação poderão colocar conteúdo no Portal”, explicou Kuramoto.
De acordo com Kuramoto, um grande problema para a implementação do projeto é garantir a segurança desse conteúdo eletrônico. Outro desafio é conseguir que as revistas científicas disponibilizem seu material.
Uma das pesquisas do GPOPAI da USP tem como foco o acesso ao conhecimento científico produzido no Brasil. Uma das hipóteses da pesquisa de Pablo Ortellado, um dos coordenadores do grupo, é de que o público pagaria duas vezes pelo conhecimento científico: pagaria para produzi-lo por meio das universidades e agências de pesquisa e para ter acesso ao conhecimento quando compra as revistas, os livros e os softwares.
O GPOPAI tem se dedicado à investigação de temas relacionados à propriedade intelectual e aos mecanismos restritivos ao acesso público à informação, à cultura e ao conhecimento. (Envolverde/Aprendiz) |