Conselho de Repúblicas mostra força dos estudantes da Esalq
Por Olavo Soares, da USP
A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, já tem mais de 100 anos. Com tanta história, é natural que muitas tradições acabem por se consolidar nas práticas da escola. Uma dessas tradições está nas “repúblicas” dos alunos. A Esalq está localizada em Piracicaba – justamente por isso, existe um grande número de estudantes que saem de suas cidades de origem e, por necessidade, acabam por montar suas residências em parceria com outros colegas de curso.
Algumas dessas repúblicas já ultrapassaram a barreira dos 50 anos de existência. Grande parte já tem mais de 10. Claro que os moradores vão se alternando – a cada ano, saem os que se formam e entram os calouros – mas o espírito das repúblicas permanece.
Com tanta tradição, os moradores dessas repúblicas decidiram fazer de sua importância dentro da escola um canal para a discussão de melhorias para a Esalq e realização de iniciativas sociais. Funciona, ininterruptamente desde 1993, o Conselho de Repúblicas da Esalq. O grupo reúne 50 repúblicas, representando um total de 500 estudantes, o que equivale a um terço do total de alunos da graduação da escola.
Um episódio marca a história do Conselho. No final de 1993, o Centro Acadêmico da Esalq tinha um prédio que teria que ser penhorado por conta de atraso de pagamentos. As 17 repúblicas mais tradicionais se uniram e organizaram uma festa. A arrecadação da festa serviu para o pagamento das dívidas e o prédio permaneceu como posse do Centro Acadêmico. “Então eles perceberam que tinham força dentro da escola”, conta o atual presidente do Conselho, Marcelo Moretti, da república Fazendinha.
O sucesso nessa empreitada motivou o Conselho a ambicionar vôos maiores. Outras festas e torneios esportivos, como o tradicional Inter-Repúblicas, foram organizados. “Mas falando com os professores, eles nos disseram que não deveríamos apenas fazer ações em prol das repúblicas. A gente tinha que tentar ver uma coisa maior, uma responsabilidade social”, diz Moretti.
O Conselho então começou, recentemente, uma nova fase em seus trabalhos. Os alunos que integram a organização passaram a se empenhar em iniciativas sociais como arrecadação de alimentos e doação de sangue. E em agosto, o Conselho realizou a maior de suas ações: a doação de R$ 15 mil para a Biblioteca Central da Esalq. Esses recursos não saíram dos cofres das repúblicas, e sim de uma iniciativa de fôlego da entidade: “começamos a correr atrás de empresas que poderiam nos ajudar. Mas a crise no setor agrícola está muito forte. Então entramos em contato com a Comissão de Formatura, que tinha sobras de anos anteriores. Eles precisam investir esse dinheiro em algo de interesse dos estudantes. Então iniciamos esse processo, com apoio da Fealq [Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz]”, explica Marcelo Moretti. A entrega oficial dos recursos à biblioteca aconteceu no dia 18 de agosto.
Para que uma república faça parte do Conselho, é necessário que ela tenha mais de cinco anos de funcionamento. “Aí temos certeza que já é uma república com tradição, não apenas uma que se formou e acabou quando os estudantes foram se formando”, diz Moretti, do quinto ano de agronomia.
Vivendo em república
A república em que Moretti mora, a Fazendinha, já existe há 50 anos. É uma das mais tradicionais da cidade. Atualmente, a Fazendinha está instalada em uma confortável casa em Piracicaba, com três quartos, uma grande cozinha e um grande quintal. O nome da república vem de sua fundação, na década de 1950: a casa em que moravam os estudantes à época tinha um quintal gramado onde se faziam plantações. Daí nasceu a “Fazendinha”, nome que perdura até hoje.
Os estudantes que moram nessa república seguem um “código de ética” específico, que garante harmonia para a casa. Por exemplo, os alunos dos primeiros anos são encarregados de acordarem os veteranos todos os dias. Em contrapartida, ficam com os mais velhos as responsabilidades maiores da casa, como pagar o aluguel e assinar contratos.
Para Marcelo Moretti – que dentro da república é chamado de “Obelix”, apelido atribuído pelos colegas – esse sistema faz com que os alunos da Esalq vivam um verdadeiro amor pela escola. “Existem muitas repúblicas aqui em Piracicaba, mas todas têm um ponto em comum: a hospitalidade. A república é fundamental para o aluno que chega em outra escola, outra cidade na maior parte das vezes sem conhecer ninguém. Esse modo de vida traz muitos benefícios à Esalq”, aponta.