04/07/2007

Comunidade coloca escola em primeiro lugar no Ideb

Por Marina Rosenfeld e Julia Dietrich, do Aprendiz

É difícil imaginar como uma favela e uma loja de luxo juntas são capazes de transformar uma escola. Mas essa é a realidade da Escola Municipal Professora Maria Antonieta D'Alkimin Basto, na Vila Olímpia, em São Paulo, que conquistou o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), teste realizado com alunos de 1º a 8º série do Ensino Fundamental.

Diferentemente da maioria das escolas, em que a diretoria ou os professores são apontados como o motivo de sucesso, na D'Alkimin, como é conhecida, o grande diferencial está no envolvimento que a comunidade mantém com a escola.

Uma associação de pais e mestres participativa, uma universidade preocupada com o ensino básico, um posto de saúde que atende e forma adolescentes, um teatro e uma biblioteca abertos para receber a comunidade, um núcleo sócio-educativo que assiste os alunos, uma associação de moradores de uma favela que visa o desenvolvimento local e uma equipe de pais e professores que realmente se apropriaram da educação dos seus filhos e alunos. Todos esses atores, de uma certa forma, podem ser responsabilizados pela boa colocação da escola no Ideb.

"Uma grande parcela de pais e professores veste a camisa da escola. A participação comunitária reverteu a imagem negativa que a escola tinha, com a promoção de festas, a organização do espaço e a participação ativa de cada aluno. Certamente, as ações desempenhadas pela comunidade na integração da escola são visíveis. Isso aconteceu a partir de uma diretora que esteve no cargo no ano de 2003 e que uniu a comunidade na recuperação da escola. Acredito que o bom resultado no Ideb vem dessa época.", diz a ex-aluna, mãe de alunos e membro da Associação de Pais e Mestres da escola, Ana Lúcia Teixeira Costa, que ajudou a implementar o grêmio escolar.

Na Favela do Coliseu, por exemplo, 150 crianças que moram no local e estão matriculadas no D'Alckimin têm aulas complementares de música, capoeira e esportes, além do acompanhamento pedagógico. Já a loja de luxo Daslu, localizada na região, por meio do Centro Educacional Vila Daslu, oferece educação integral para outros 40 estudantes, com aulas de reforço escolar, capoeira, artes e catequese. O Instituto Escola Brasil, do Banco Real, mantém parceria com a escola, oferecendo aulas de tênis.

Somente no mesmo quarteirão da escola, há uma série de instituições públicas e privadas que contribuem com a melhoria do ensino da D'Alkimin, hoje com 965 alunos. A Universidade Anhembi Morumbi já aplicou aulas de inglês e computação. Um posto de saúde dá palestras sobre prevenção e saúde na adolescência dentro da escola, o Núcleo Sócio-Educativo Santa Tereza assiste as crianças e o Teatro e Biblioteca Anne Frank cede espaço para atividades. Uma escola de Educação Infantil e outra de Ensino Fundamental também colaboram com o que podem.

Coordenadorias de Educação, Saúde, Assistência Social e Cultura também mantém interface com as ações locais. Um grupo itinerante que visa o fortalecimento da rede de atendimento à criança e ao adolescente e o desenvolvimento local discute com a comunidade soluções para os problemas. Fazem parte desse grupo, conhecido como Café Pedagógico, agentes de saúde e de proteção, ONGs, representantes de duas favelas, poder público regional, instituições privadas e jovens. Além disso, a Associação de Moradores da Comunidade Funchal tenta fortalecer a relação entre moradores da Favela Coliseu com a escola.

"Essa relação vem muito dos próprios professores e principalmente dos serviços públicos e da sociedade civil do entorno, que tenta entrar na escola", afirma Roberta de Oliveira, educadora comunitária e articuladora da rede local, que usa o conceito de bairro-escola, aplicado pela Associação Cidade Escola Aprendiz, para promover o desenvolvimento local, a partir da articulação da comunidade.

De acordo com Oliveira, como resultado dessas ações está sendo revitalizado um fórum regional dos direitos da criança e do adolescente com o propósito de ajudar os alunos de algumas escolas a fortalecer a rede através dos grêmios.

Para Costa, a D'Alkimin é muito plural pelo fato de receber alunos de diferentes regiões e o segredo está justamente em administrar essa pluralidade. "Além de potencializar as ações da comunidade, também é preciso identificar como cada aluno pode contribuir com a melhoria do ensino", acredita.

Entretanto, segundo a responsável pelo Centro Educacional Vila Daslu, Ana Maria Menezes Macedo, apesar da comunidade ser muito presente na escola, "muita coisa ainda precisa ser feita para chegar no ideal. É preciso mais segurança, mais profissionais e professores substitutos. Quando falta um professor as crianças ficam sem aula".

Segundo Costa, assim como outras escolas, na D'Alkimin problemas como falta de professores, poucas oportunidades de capacitação e reciclagem do corpo docente também persistem. Mas para ela, o diferencial está na atitude de alguns professores muito criativos e comprometidos com o dia-a-dia escolar. "A professora de informática, por exemplo, revitalizou o equipamento de rádio da escola, que estava parado sem utilidade, desde o fim de um projeto de educomunicação realizado em parceria com a USP. Ela busca capacitar os alunos no uso do instrumento como ferramenta para trabalhar as aulas de tecnologia. Uma outra professora tenta trabalhar a leitura de forma diferenciada, atendendo a curiosidade dos alunos que querem e gostam de ler".

Rosana Maria dos Santos, líder comunitária da Favela do Coliseu e mãe de ex-aluno, conta que a vontade da comunidade de se apropriar da escola é maior do que a direção permite. "A escola tem inúmeros espaços inutilizados, como uma cozinha e salas de aula que poderiam abrigar cursos de capacitação e profissionalização para a vizinhança que tem pouco ou nenhum acesso a esse tipo de atividade. Essa não abertura faz com que muitas das ações da favela se percam".

Costa completa dizendo que outro fator que prejudica a escola é a descontinuidade das políticas públicas. "A diretoria precisa reagir às mudanças propostas pelo governo de uma forma mais autônoma para que muitas ações não sejam perdidas".

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