Como a Educação Deficitária Cria Massa de Manobra
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A educação tem um trabalho hercúleo a fazer com essa geração para que ela desenvolva a consciência de classe e política, aprendendo a separar os bons políticos dos oportunistas, já que estes últimos fazem amplo uso do parasitismo narrativo[1].
Peguemos como exemplo uma candidata a deputada federal por um dos partidos mais conservadores — que sempre buscou retirar os direitos das comunidades LGBTQIAPN+, um grupo diversificado de pessoas unidas pela luta por respeito, igualdade e visibilidade em relação à orientação sexual, identidade de gênero e características sexuais. Do mesmo modo, observam-se pessoas pretas defendendo bandeiras levantadas por partidos que têm, em sua maioria, filiações neofascistas onde predominam o preconceito e o racismo. Por um misto de ingenuidade e/ou oportunismo, esses indivíduos criticam os direitos já conquistados e se filiam a legendas que buscam extinguir tais garantias.
No exemplo da candidata transexual, ao buscar um breve histórico de sua vida, constata-se que um de seus discursos prega o fim de auxílios sociais (como o Vale-Gás e o Bolsa Família). Todavia, ela mesma faz uso de assistência governamental desde 2018, segundo dados do Portal da Transparência. De acordo com as informações do portal, ela recebeu mais de R$ 27 mil dessas iniciativas sociais, o que demonstra duas coisas: hipocrisia e mau-caratismo[2].
Esses candidatos defendem que o cidadão deve conseguir o próprio sustento por meio de seu trabalho e habilidades, e não por assistencialismo. Como acreditam na teologia da prosperidade, argumentam que a transferência de renda — adotada para reduzir a desigualdade social e minimizar a miséria imposta pela própria elite — é uma forma de manipulação eleitoral. Isso ocorre porque não enxergam que o Estado tem obrigações com seus cidadãos. Em um Estado democrático, o governo é eleito pelo povo para governar para o povo, e não para a elite, como acontecia nas monarquias ou no feudalismo, períodos em que os trabalhadores tinham apenas o mínimo para a subsistência e a riqueza gerada era totalmente transferida para os soberanos.
É interessante pontuar que, quando essa escória política recebe benefícios, estes são vistos como um direito legal; em contrapartida, quando os benefícios são destinados a pessoas em vulnerabilidade social, são rotulados como privilégio ou esmola. Peguemos como exemplo o Plano Safra, um recurso destinado ao agronegócio que mobiliza dos cofres públicos o equivalente a quase quatro vezes o orçamento do Bolsa Família: são R$ 525,1 bilhões para a Agricultura Empresarial (médios e grandes produtores rurais), enquanto o Bolsa Família recebe o equivalente a R$ 158,6 bilhões.
O mesmo acontece com grandes empresários que recebem subsídios econômicos, incentivos fiscais e renúncias tributárias. O valor total desses benefícios corresponde a R$ 678 bilhões — o que equivale a mais de quatro vezes o Bolsa Família —, mas o problema levantado por esses políticos como o "verdadeiro entrave" ao crescimento do país é justamente o Bolsa Família.
Tal discurso deveria ser inócuo. Todavia, mediante a falta de conhecimento dos eleitores, encontram-se defensores que ecoam essa hipocrisia sem conhecimento de causa. Esse cenário é fruto de uma educação deficitária, que não se preocupou em trabalhar a cidadania crítica e tampouco o protagonismo cognoscente; sua preocupação limitou-se a conteúdos estéreis para moldar indivíduos como massa de manobra.
A educação desempenhará a sua verdadeira missão quando conseguir fazer com que as pessoas sejam subversivas em relação às diferenças sociais — não romantizando a situação — e também quando elas perceberem que essas disparidades são frutos de más escolhas coletivas. Escolhas realizadas com falta de discernimento ao não perceberem a manipulação de discursos balizados por narrativas oportunistas, as quais se aproveitam de cenários que envolvem um alto grau de vulnerabilidade.
[1] http://www.gestaouniversitaria.com.br/artigos/o-parasitismo-narrativo-na-politica-o-medo-como-moeda-eleitoral
[2] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/08/19/candidata-do-pl-que-critica-bolsa-familia-recebe-beneficio-desde-2018.amp.htm
https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/candidata-do-pl-que-criticou-bolsa-familia-recebe-o-beneficio-ha-8-anos/