17/08/2006

Comemorando 69 anos, UNE lança 5ª Bienal de Arte, Ciência e Cultura

Todo universitário que se preze já arriscou uns acordes no violão, ou conhece alguém que já dedilhou algumas cifras. Todo universitário que se preze já encarnou Gianfranceso Guarnieri ou conhece alguém que nunca usou black tie. O fato é que o ambiente acadêmico sempre foi espaço de criatividade e ebulição artística, revelando importantes nomes da cultura nacional. Apesar de todo esse fervor, as atividades culturais das entidades estudantis, desde o fim do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, em meados da década de 1960, mantiveram uma característica de descontinuidade: não se ligavam a realizações anteriores, nem lançavam bases para programas futuros.

Partindo desta constatação, a UNE lançou, em 1999, o ousado projeto das Bienais de Arte, Cultura e Ciência, que chega agora à sua quinta edição. Nesta sexta-feira, 11 de agosto, uma festa no charmoso Museu da República, no Rio de Janeiro, dará o pontapé inicial para o maior festival da cultura universitária do país. O evento de lançamento também comemorará os 69 anos de vida da UNE. A 5ª Bienal de Arte e Cultura e UNE acontece entre os dias 27 de janeiro e 1º de fevereiro do ano que vem na cidade carioca, oferecendo rica programação de mostras convidadas e universitárias, conferências, debates, shows e oficinas.

Inscrições abertas

As Bienais são a grande novidade dos últimos 10 anos na relação da UNE com os artistas universitários. "Sempre refletimos sobre a criação de um mecanismo que pudesse, ao mesmo tempo, quebrar as formas massivas e uniformizadas de pensar a cultura e fortalecer a produção artística dentro das universidades", explica o coordenador do festival, Tiago Alves.

"Atualmente, as Bienais são os principais canais de comunicação entre estudantes e artistas. É o momento em que a produção do Nordeste cruza com a do Sul, em que o cineasta de São Paulo troca experiências com o núcleo audiovisual da Universidade Federal de Pernambuco, por exemplo", analisa.

Já o presidente da UNE, Gustavo Petta, prevê a realização da maior Bienal que a entidade já organizou. "A expectativa é que participem cerca de 20 mil pessoas diretamente, além de envolvimento de grande parcela da comunidade carioca. O evento terá um sabor especial porque será a primeira atividade envolvendo as comemorações dos 70 anos da UNE", anuncia.

Petta informa que as coordenações nos Estados já estão formadas e as curadorias de cada área sendo definidas. Segundo ele, o objetivo imediato é divulgar as inscrições para que o máximo de estudantes tenham tempo de inscrever seus trabalhos.

A partir do dia 11 de agosto estarão abertas as inscrições para as mostras de trabalhos nas áreas de Literatura, Ciência e Tecnologia, Música, Artes Ciências, Arte Visuais, Cinema e Vídeo. Todo o regulamento estará disponível no site da UNE.

Brasil-África: um Rio chamado Atlântico

Nas quatro edições anteriores da Bienal (Salvador-1999, Rio de Janeiro-2001; Recife-2003 e São Paulo-2005), a UNE sempre propôs discussões que refletissem a construção da identidade do povo brasileiro. Desta vez, sob a temática "Brasil-África, um Rio chamado Atlântico", a 5ª Bienal pretende fazer uma reflexão sobre os elementos que compõem a formação da cultura popular brasileira, colocando em destaque a influência africana dentro do contexto nacional. A escolha do tema partiu da leitura do clássico "Um Rio Chamado Atlântico", do historiador, diplomata, africanista e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva.

Em entrevista ao EstudanteNet, o diplomata avalia a formação do povo brasileiro: "O esqueleto é português, o sistema nervoso é africano e o sistema reprodutivo é ameríndio". Para ele, é fundamental que valorizemos o patrimônio que veio da África, da mesma maneira que valorizamos o patrimônio que veio da Europa e do ameríndio, pois toda a arte brasileira foi influenciada pelos africanos. "O fato mais importante da história brasileira é a escravidão. Ser escravo era um castigo. O Brasil nunca quis ter um herói nacional, mas se tivesse um, seria o escravo", avalia.

Sobre o titulo de seu livro, Alberto da Costa e Silva relembra que, em uma viagem de carro por alguns países da África, teve a percepção de que não havia saído do lugar, numa referência às semelhanças entre os dois continentes. "Vi gente pescando e puxando arrastão, como na Bahia. Vi as canoas de pescadores. Vi as casas de barro socado com cobertura de palha como eu via em Fortaleza e em Pernambuco. Os coqueiros, os palmeirais. Vi uma senhora curva, na frente de um conjunto de casinholas, varrendo o pátio com a vassoura feita de gravetos, igual a da minha irmã", observa.

O escritor então chegou à conclusão: "Isso para mim era uma paisagem repetida. Então me veio essa idéia naquele momento de que na realidade o oceano era um rio, que no passado se atravessava com a maior naturalidade, porque o sentido de tempo que se tinha era diferente do nosso. Ficar três ou quatro meses numa viagem não era nada. O Brasil era a margem de um rio e a outra margem tinha ficado lá do outro lado, na África", analisa.

5ª Bienal e a consolidação do CUCA

Esta edição da Bienal também vai celebrar uma realização especial: a consolidação do Circuito Universitário de Cultura e Arte, o CUCA da UNE. Uma das experiências mais bem-sucedidas do movimento estudantil na última década, o CUCA é fruto da 2ª Bienal, em que foram germinadas as bases de um projeto cultural, levado adiante pelos estudantes, com uma organização horizontal e democrática, hoje presente em 10 estados do país.

Para Tiago Alves, que também é coordenador-geral do circuito, o desafio do CUCA nas bienais é o de dar relevo aos elementos que compõem a formação da identidade nacional. "Portanto, nada mais natural do que discutir a África e sua relação com a identidade do povo brasileiro", enfatiza.

O professor da PUC Minas e da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), José Marcio Barros, também é um entusiasta do CUCA. Doutor em Cultura e Comunicação pela UFRJ e mestre em Antropologia pela Unicamp, ele coloca a cultura como elemento fundamental na formação da cidadania. Em entrevista ao Estudantenet, José Márcio declarou: "Hoje, quando se fala de cidadania, fala-se de duas outras coisas fundamentais: identidade e participação.Quando pensamos cidadania com essas duas dimensões mais contemporâneas, o lugar da arte e da cultura na construção da cidadania fica muito claro, objetivo e direto".

Para Barros, a arte e a cultura no ambiente da universidade não se devem ser apenas uma agenda de eventos ou um espaço dentro da instituição, nos quais o estudante faça e realize as suas manifestações artísticas. "É muito mais do que isso. É a ocupação de espaços objetivos e subjetivos no interior da universidade de tal maneira a poder fazer com que esse estudante construa uma experiência de cidadania que vá muito além do que apenas o seu problema com a mensalidade, a sua preocupação de nota e freqüência", observa.

Tiago concorda com Barros e explica que o núcleo central da formação dos CUCA’s pelo Brasil se norteia exclusivamente em propiciar algo além de um mero espaço de produção cultural. "O objetivo é mais amplo, de interação plena com a cultura brasileira, de formação de cidadãos e não simples artistas", frisa.

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