07/04/2009

Cineastas discutem papel do documentário social

Por Vivian Lobato, do Aprendiz

 

Discutir o papel do documentário engajado na sociedade atual e debater os procedimentos que se valem os documentaristas na abordagem de questões sociais. Essa foi a proposta da mesa “Denúncia e intervenção: questões sociais no documentário contemporâneo”, que aconteceu na última quinta-feira (2/3) no teatro do Sesc Paulista, na cidade de São Paulo (SP). O debate fez parte da IX Conferência Internacional do Documentário que aconteceu entre os dias 1 e 5 de abril.

“Num mundo cada vez mais imagético o cinema tem uma multiplicidade de papéis, e a câmera pode ser utilizada como instrumento social e político tanto para fortalecer como para denunciar grupos sociais”, destacou o jornalista e cineasta brasileiro, Evaldo Mocarzel.

“O documentário pode não render nada para o diretor, mas algum tipo de semeadura ele gera”. De acordo com o cineasta, “A margem da imagem” - documentário que trata sobre a população em situação de rua - foi utilizado posteriormente pela Secretária do Bem Estar Social do estado de São Paulo para reorganizar os albergues e “A margem do concreto” - produção que retrata os sem teto - foi exibido em diversas manifestações de luta do movimento.

Já “Do luto a luta”, que revela a realidade de pessoas com Síndrome de Down, segundo o próprio diretor do filme, “foi uma semeadura para mim mesmo”. Mocarzel tem uma filha com Síndrome de Down e disse que na época que ela nasceu ficou muito perdido. “Distribui todas as cópias do documentário de graça, precisava exorcizar isso de mim. Tive uma rejeição branda. Se tivesse assistido o documentário na hora que ela nasceu, tudo seria diferente. Era muito leigo, me faltava informação”.

Mocarzel também questionou a maneira como os documentários brasileiros financiados por meio de leis de incentivo são utilizados. “No Brasil a maior parte dos documentários é produzida através de leis de incentivo. Nada contra o entretenimento, mas filmes bancados com verbas públicas deveriam ser mais bem aproveitados”, alertou.

Recorte da realidade

De acordo com o roteirista e cineasta argentino Patricio Cool, o documentário serve como uma ferramenta de atuação na sociedade, e isso depende muito da tomada de posição do documentarista.

“O documentário é aquela película que pode mostrar a realidade como não podemos ver, como não queremos ver e como não conseguimos ver sem a mediação dessa linguagem. Mas é preciso penetrar, investigar a realidade e em alguns casos os elementos não se ajustam e nós os simplificamos, recortando-os. Portanto, o documentário é um recorte da realidade que estamos trabalhando e o que está em questão é: Que procedimentos utilizamos para contar uma história? Como se denuncia? Como se intervém? Como se mobiliza? Como criamos uma consciência”, explicou Cool.

Mocarzel concordou com o cineasta argentino e completou: “O documentário é a representação do real com o atrito da subjetividade, do olhar do realizador. O documentário estilhaça o real e depois junta na forma e no estilo do realizador. Seria como uma nova realidade, repleta de inquietações de quem está produzindo”, concluiu.


Crédito da imagem: www.sxc.hu


(Envolverde/Aprendiz)
 
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