Cientistas discutem futuro da vida marinha no Atlântico Sul
Encontro no Uruguai reúne pesquisadores da América Latina , África , Europa e Oceania para traçar rumos do mapeamento da vida marinha no Atlântico Sul. Cientista Catarinense coordena os trabalhos.
Piriápolis/Uruguai - Cientistas de toda a América do Sul, África, Europa e Oceania reúnem-se no sábado e domingo, dias 14 e 15 de junho, em Piriápolis no Uruguai, para discutir estratégias para o mapeamento da vida marinha profunda no Atlântico Sul. O projeto, capitaneado no Hemisfério Sul pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina, trabalha para a realização do Census of Marine Life (Censo da Vida Marinha) que existe desde 2000 e consiste no levantamento da diversidade marinha.
Com esse trabalho os cientistas pretendem estudar a maneira como as espécies estão distribuídas atualmente pelo planeta. O projeto internacional conhecido como Mar-Eco é responsável pelo levantamento da biodiversidade das regiões de cordilheiras de montanhas submarinas localizadas no Atlântico Norte, entre a Islândia e o Arquipélago dos Açores. A partir dos resultados obtidos os cientistas buscam expandir os estudos para o Atlântico Sul. O encontro em Piriápolis vai ajudar a definir os caminhos para isso.
Segundo o professor José Angel Alvarez Perez, coordenador do Grupo de Estudos Pesqueiros, do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar/Univali), há um conjunto de diretrizes que precisa ser seguido pelos projetos que estão associados ao Censo da Vida Marinha: "Basicamente, o que se exige são propostas que efetivem os conhecimentos sobre a vida no mar, com ênfase nas áreas mais remotas e pouco estudadas como o mar profundo", diz Angel.
Existem hoje 17 programas voltados para as áreas mais profundas e remotas do planeta dentro do programa Censo da Vida Marinha. Durante a primeira abordagem o resultado foi a criação de um comitê executivo do Mar-Eco específico para o Atlântico Sul. Esse comitê é composto por um membro da Argentina, um do Uruguai, um da África do Sul, um da Nova Zelândia, dois do Brasil e é presidido pelo pesquisador da Univali José Angel Alvarez Perez.
A missão desse comitê é encontrar meios para que o projeto Mar-Eco possa se expandir para o Atlântico Sul. "A intenção é utilizar alguns tipos de tecnologia usados no Atlântico Norte, uma vez que os resultados obtidos aqui precisam ser tão bons quanto os conseguidos lá. Mas tudo depende do tipo de articulação para se conseguir um barco com estrutura suficiente para desenvolver este tipo de pesquisa com os recursos necessários para operações nas áreas remotas da cordilheira meso-Atlântica", salienta Angel.
Sobre a necessidade de pesquisa no Atlântico Sul, Angel explica que no centro desse oceano encontra-se a cadeia de montanhas meso-oceânica que se estende 14 mil quilômetros de norte a sul e que se eleva a dois mil metros de altura do assoalho oceânico. O projeto consiste em um estudo da biodiversidade e dos ecossistemas presentes nessas cadeias e em estruturas geológicas a elas associadas.
"Existem algumas estruturas associadas à cadeia central que não existem nas cadeias do Atlântico Norte. São cadeias de montanhas perpendiculares que ligam o centro do oceano até a costa, tanto no litoral brasileiro, no Estado do Rio Grande do Sul, como na costa da África, conectadas à Namíbia e África do Sul. Nossos objetivos levam em conta necessidade de suprir a escassez de conhecimento da biodiversidade de águas profundas, ou seja, do que existe submerso no centro do Atlântico Sul", pontua o professor José Angel Alvarez Perez.
De acordo com o pesquisador estas estruturas são importantes porque levantam alguns tipos de hipóteses biogeográficas: "As áreas costeiras são mais antigas e podem servir como fontes de espécies colonizadoras para os habitats recentemente formados pela separação das placas tectônicas que ocorre continuamente nestas cadeias de montanhas", diz. Essa colonização poderia ser facilitada pelas cadeias de montanhas perpendiculares à cadeia meso-oceânica que atuariam como pontes conectando o centro às margens do Atlântico Sul, fala Angel.
"Outra hipótese é que essas cadeias de montanhas possam atuar como barreiras para a dispersão de organismos de mar profundo", aponta. Para Angel, outro ponto que deve ser avaliado é o fato do Atlântico Sul ser o último oceano a surgir na separação dos continentes conectando esse oceano a outros três já existentes: o Índico, o Antártico e o Pacífico. Como essa conexão tem afetado a biodiversidade do Atlântico e dos oceanos vizinhos? questiona.
Mais informações: (47) 3341-7714/9989-6296, com José Angel Alvarez Perez, coordenador do Grupo de Estudos Pesqueiros, do CTTMar/Univali.
Foto
A foto anexa foi divulgada no jornal New York Times em 2007 e mostra a enorme boca do diabo-do-mar. Ela permite que ele se alimente de peixes grandes uma vez que em grandes profundidades, diferente do que ocorre na superfície do oceano, não há abundância de presas pequenas. Os espinhos são sensores sendo que o maior que parte do topo da boca é usado para "atrair presas". Ele funciona como uma vara de pescar e por isso esses peixes são também conhecidos como "peixes pescadores". No caso dos pescadores de grandes profundidades como esse, na extremidade do espinho há um órgão luminoso que funciona como isca uma vez que não há nenhuma luz solar nesses ambientes. Ele vive a até 3,4 mil metros de profundidade, no Atlântico Norte.