Caráter não se Ensina na Escola: Uma Reflexão Sobre a Violência Juvenil e o Caso do Cão Orelha
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
O cão é um dos animais mais próximos dos seres humanos, representando o amor incondicional — aquele que, mesmo após situações de maus-tratos, manifesta alegria ao reencontrar seu tutor. Conforme salientado por Cabral e Savalli (2020)[1], humanos e cães formam uma associação que proporciona diversos benefícios, como a companhia cotidiana e o apoio em trabalhos de segurança (farejando narcóticos e explosivos). Além disso, auxiliam pessoas com deficiências visuais e auditivas, antecipam sinais de crises epilépticas, atuam no pastoreio, realizam resgates em catástrofes, participam de terapias em asilos e protegem residências. Os autores corroboram a tese de outros pesquisadores ao afirmarem que o cão foi, de fato, o primeiro animal a ser domesticado.
Nota-se que, embora muitos cães não possuam um lar — sendo frequentemente vítimas de abandono e negligência —, muitos encontram amparo em moradores locais que oferecem abrigo, alimento e proteção. Alguns desses animais tornam-se figuras comunitárias amadas por todos, como ocorreu com o cão "Orelha", na Praia Brava, em Florianópolis. Orelha era conhecido na região até que um grupo de quatro adolescentes de classe média alta decidiu, de forma brutal, espancá-lo com requintes de crueldade. O animal foi encontrado agonizando com mandíbula quebrada e traumatismo craniano; devido ao sofrimento irreversível, a eutanásia foi o único recurso possível.
A gravidade do caso estende-se à conduta familiar: o pai e o tio de um dos agressores chegaram a ameaçar testemunhas, reforçando uma postura de conivência e indicando que a má índole parece ser um traço hereditário no grupo. Este texto não trata apenas do abandono, mas da crueldade reincidente de jovens habituados à violência. Trata-se de um comportamento patológico que reflete a permissividade familiar e a sensação de impunidade garantida pelo status social — evidenciada pelo fato de dois dos envolvidos terem viajado ao exterior[2] para aguardar o arrefecimento das críticas.
O objetivo aqui não é apenas ecoar a revolta social, mas destacar a urgência de educar para o respeito à vida. Se tais jovens são capazes de tamanha violência contra um animal indefeso e dócil, o que farão contra seres humanos que se opuserem às suas vontades? O problema relatado não é a falta de acesso a uma "educação de qualidade", visto que os agressores pertencem à elite e frequentam as melhores instituições. Este caso é apenas a ponta de um iceberg que revela a fragilidade da escola em relação à formação moral. Como ressalto em meus livros, o caráter não é forjado apenas no ambiente escolar, mas no seio familiar. O comportamento desses jovens expõe a degradação ética das famílias que permitiram tal desfecho e que são coniventes com este tipo de comportamento.