25/04/2011

Caçadores de plágio pela web deixam os políticos nervosos

Começou com o ministro de defesa da Alemanha. Mas depois que Karl-Theodor zu Guttenberg perdeu o cargo, os pesquisadores que descobriram o plágio em sua dissertação encontraram novos alvos. Os ativistas preferem permanecer anônimos, mas sua página Wiki se provou notavelmente eficaz.

Foi uma sensação na Internet. Apenas duas semanas após um professor de direito da Universidade de Bremen ir a público acusando Karl-Theodor zu Guttenberg, ministro da defesa alemão na época, de ter plagiado partes de sua tese de doutorado, Karl-Theodor zu Guttenberg foi forçado a renunciar ao seu cargo no gabinete da chanceler Angela Merkel em março.

Naqueles 14 dias, pessoas de toda a Alemanha uniram-se à caça de passagens suspeitas, que depois foram publicadas em uma página Wiki que mostrava graficamente as indicações crescentes de plágio. Guttenberg desde então perdeu seu título de doutor e se retirou completamente da vida pública.

Mas os caçadores de plágios ainda estão trabalhando duro. Entre dez e 20 deles passaram as duas últimas semanas estudando a tese de doutorado de Silvana Koch-Mehrin, do Partido do Democratas Livres, parceiro de coalizão de Merkel em Berlim. Antes disso, eles descobriram que inúmeras seções da dissertação de Veronica Sass –filha advogada do ex-governador da Bavária Edmund Stoiber- aparentemente haviam sido copiadas.

O grupo, que se chama VroniPlag, uma referência ao apelido de Sass, está em busca constante de mais trabalhos acadêmicos para serem levados ao microscópio. O projeto é um desdobramento de uma plataforma similar, chamada GuttenPlag, que derrubou Guttenberg.

Sem motivação política

“O objetivo é garantir a integridade dos títulos de doutorado na Alemanha, diz uma nota no site do VroniPlag. “O trabalho desenvolvido aqui não é nem politicamente motivado nem tem como meta a difamação pessoal ou algo parecido.”

Quem, então, está por trás do VroniPlag? Quem quiser saber mais precisa entrar no chat do site (só em alemão) ou preencher um formulário de contato online. Pouco depois, o telefone toca: “Aqui é do VroniPLag”, diz a voz do outro lado da linha. A maior parte dos que estão dissecando as dissertações de alemães proeminentes quer se manter anônima. Membros do grupo frequentemente só conhecem seus colegas pelos apelidos que usam no chat. Porém, eles também querem publicidade.

E querem fazer uma diferença. O grupo estabeleceu contato com a Universidade de Heidelberg, que deu a Koch-Mehrin seu título de doutorado em 2000. Eles ligam para a reitoria quando descobrem novos segmentos da dissertação são considerados suspeitos. Um porta-voz da universidade enfatizou que a instituição está examinando a dissertação de Koch-Mehrin independentemente do VroniPLag e vai se reunir no final do mês e em maio para determinar se pedirá uma declaração de Koch-Mehrin, membro do Parlamento Europeu.

O VroniPlag, que inclui professores e doutores, também mantém a mídia atualizada de suas descobertas. Em um relatório divulgado na terça-feira (19/4), o grupo indicou que havia encontrado segmentos copiados em mais de 25% do trabalho de Koch-Mehrin, de 201 páginas. Apesar de muitas das partes copiadas da dissertação de Guttenberg serem passagens analíticas importantes, a maior parte das encontradas na tese de doutorado de Koch-Mehrin compreende texto descritivo de trabalhos padrão. Koch-Mehrin até agora se recusou a comentar as acusações.

Impedimento ao avanço na carreira

Muitos dos investigadores de VroniPlag dizem que o anonimato é uma forma de manter o foco no debate sobre a questão. Alguns, porém, temem que a divulgação de suas atividades possa resultar em impedimentos ao avanço em suas carreiras.

Eles também são sensíveis às acusações que seu trabalho tem motivação política. Todos os autores das dissertações que até agora foram alvo dos detetives da Internet –inclusive um cristão democrático de Baden-Württemberg- eram políticos de centro-direita do Sul da Alemanha.

“Estamos buscando desesperadamente um social democrata do Norte que tenha cometido um plágio”, diz Debora Weber-Wulff, em tom de brincadeira. Professora da Universidade Técnica de Berlim, ela é uma das poucas associadas ao grupo que não preferiu permanecer anônima. “Sou uma parte muito pequena do trabalho”, diz ela.

Uma década atrás, ela concluiu que quase um terço de todas as teses entregues por seus alunos tinham sido ao menos parcialmente plagiadas. Desde então, ela assumiu a missão de revelar as cópias no mundo acadêmico. Ela testa programas de combate ao plágio e oferece seminários para treinar outros professores a encontrar falsificações e segmentos de teses plagiados.

Base para suspeita

Weber-Wulff considera honrado e legítimo o trabalho de seus colegas anônimos. Cada seção suspeita deve ser verificada por dois outros membros do VroniPlag, que trabalham de forma independentemente. As discussões sobre cada segmento são publicadas no site.

Stefan Weber, que se graduou em estudos de mídia da Universidade de Salzburg e é conhecido como investigador de plágios, também elogia o trabalho do VroniPlag. “O trabalho anônimo e voluntário da comunidade online vai revelar uma série de casos”, disse à estação de rádio pública alemã Deutschlandfunk recentemente. “Isso é extraordinário”.

O grupo escolhe seus alvos com a ajuda de pessoas que escreve para o site propondo uma dissertação para exame. Se houver base para suspeita, o VroniPlag parte para o trabalho, dissecando página por página de obras que, como regra, não são exatamente fascinantes.

Os ativistas não têm a ilusão de que poderão repetir o caso de alto perfil de Guttenberg. Ainda assim, insistem que vão continuar trabalhando. Quando terminarem de examinar a dissertação de Koch-Mehrin, vão pegar outra. E outra. E outra.

Tradução: Deborah Weinberg

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