19/08/2006

Brasil precisa qualificar com urgência 1 milhão de professores

Por Nelson Breve, da Carta Maior

Tema polêmico entre educadores, a “educação a distância” é a grande aposta do governo Lula para expandir mais rapidamente a formação de professores. Hoje, cerca de 25 mil docentes não concluíram o ensino médio e outros 350 mil não possuem diploma universitário.

BRASÍLIA - "Para crianças de todo o Brasil, um só Estado: o da felicidade". Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a Exposição Mensageiros do Futuro - Esculturas para a Declaração dos Direitos da Criança, instalada no saguão do Palácio do Planalto, dois anos atrás, ficou impressionado com a frase que acompanhava uma das 27 obras em madeira do artista plástico Elifas Andreato. Criada pelo garoto Marcelo Ferreira Lima, então com 13 anos, ela havia vencido o Concurso Nacional de Frases promovido naquele ano pelo Ministério da Educação com apoio da Nestlé.

O acontecimento seria natural não fosse o detalhe de Marcelo ser filho de lavrador e aluno da 5ª série de uma escola municipal de Matões do Norte, no interior do Maranhão. O município de 8 mil habitantes, localizado a cerca de 120 km da capital, São Luís, tem um dos piores índices de desenvolvimento humano (IDH) do país. Em uma lista de 5.507, só existem 15 cidades com pior qualidade de vida que a dele. Entre os 20 municípios com menores IDHs do país, oito ficam no Maranhão, que têm o pior desempenho entre os 27 estados do país. Além disso, Marcelo estava entre os 56% de alunos do ensino fundamental com mais de um ano de atraso escolar em Matões do Norte, índice que coloca o município em 326º entre os piores nesse quesito, segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

A história de superação do jovem maranhense, que conheceu o presidente Lula, jantou com o ministro da Educação e recebeu uma homenagem da Câmara de Vereadores, começou por estímulo do professor Nicodemos Bezerra. Aos 41 anos, ele mora na cidade vizinha, Miranda do Norte, que é um pouco maior (17 mil habitantes) e melhor estruturada (hospital, empresas, veículos, curso de nível superior) que o município de Marcelo. Formado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão, ele leciona tanto no ensino fundamental, quanto no médio.

Ensina jovens e adultos de comunidades muito pobres, que vivem e ajudam a família nos trabalhos da roça, como empregadas domésticas, frentistas de postos de gasolina, ajudantes de pedreiro ou vendedores de frutas, que têm pouco contato com livros, revistas e jornais, o que reflete diretamente na sua capacidade de leitura. “Nossa preocupação com a leitura é generalizada”, afirma Nicodemos. “Mais do que qualquer outro especialista, nós professores temos a consciência de que é necessário fazer algo para que ao final da quarta série os alunos tenham um nível de leitura satisfatório”, sustenta o professor.

Isso não é uma tarefa simples em um município pobre, onde mais da metade da população precisa do auxílio da Bolsa Família, o índice de reprovação e abandono do ensino fundamental ronda os 35% e o desempenho dos alunos nos exames de Língua Portuguesa e Matemática da Prova Brasil, realizada no ano passado, ficou cerca de 10% abaixo da média nacional na 4ª série e 5% na 8ª. Mas os professores estão se esforçando para melhorar a qualidade do ensino. Em Miranda do Norte, a proporção de docentes com curso superior no ensino fundamental (61% no primeiro ciclo e 84% no segundo) está próxima da média nacional (57% e 87%) e bem superior à do Maranhão (28% e 63%). Para se aperfeiçoar, eles estão recorrendo à Educação a Distância.

Nicodemos já fez o curso de Conselheiros Escolares pela Universidade de Brasília (UnB). “Recebia via postal os fascículos, estudava até tarde da noite e respondia as atividades via e-mail”, recorda. Também concluiu um curso de “Defesa Civil”, promovido pela Universidade Federal de Santa Catarina, e está na fase final do Curso de Direitos Humanos com ênfase nos Direitos da Criança e Adolescente. “Só a Educação à Distância me dá a oportunidade de fazer cursos com credibilidade, promovido pelas melhores Universidades do Brasil sem que seja necessário eu sair da minha cidade”, elogia o professor.

Ele está concluindo também o curso de Tutor da UnB, uma das 19 universidades que participam do Programa de Capacitação Continuada para Professores do Ensino Fundamental (Pró-letramento) do governo federal, que está atendendo cerca de 100 mil professores. Nicodemos já está exercendo a função, como tutor do curso de Alfabetização e Linguagem que a UnB está aplicando para 40 professores da rede pública de ensino de Miranda do Norte. A UnB, aliás, foi pioneira nessa modalidade, com o Centro de Educação à Distância (CEAD) criado em 1979. “Percebe-se que depois de iniciada essa capacitação, muitos professores têm visto com outros olhos a necessidade de inclusão da leitura no tempo pedagógico trabalhado em sala de aula”, observa Nicodemos.

A Educação a Distância é a grande aposta do governo Lula para expandir mais rapidamente a formação de professores, com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino básico, considerada um dos principais gargalos para o desenvolvimento do país. Com os alunos melhor nutridos e as famílias recebendo uma renda mínima para mantê-los na escola, não existem mais desculpas para o desnível educacional das crianças brasileiras, que não seja a qualidade do ensino. A valorização do magistério está a caminho com a ampliação dos recursos para o ensino básico proporcionada pelo Fundeb e pelo piso nacional de salários dos trabalhadores na educação pública. A cobrança das comunidades já pode ser feita com critério na comparação do desempenho dos alunos entre escolas, proporcionada pela divulgação dos resultados da Prova Brasil. A terceira perna do tripé é a formação e aperfeiçoamento dos professores.

Hoje, cerca de 25 mil docentes não concluíram o ensino médio. Outros 350 mil não possuem diploma universitário e mais 350 mil são graduados, mas não exercem atividades de ensino ligadas à área de origem. “Um milhão de professores precisam ser urgentemente qualificados”, adverte o secretário de Educação a Distância do MEC, Ronaldo Mota. Para enfrentar esse desafio, o governo foi buscar ajuda no Fórum das Empresas Estatais para criar a Universidade Aberta do Brasil (UAB). Nos próximos quatro anos, deverão ser instalados 1.000 pólos presenciais, que o presidente Lula prefere chamar de Casa do Professor, em parcerias com universidades e municípios, para capacitar 2 milhões de docentes. A pretensão é que cada professor não fique mais do que cinco anos sem fazer uma reciclagem.

O primeiro curso piloto, de Administração, foi iniciado em junho, com patrocínio do Banco do Brasil. O governo está investindo R$ 20 milhões para preparação do material didático, pagamento de bolsas e capacitação de professores e tutores a distância. Outros R$ 175 milhões estão sendo repassados para 25 universidades (18 federais e 7 estaduais) de 17 estados e do Distrito Federal, que atenderão 10 mil alunos na primeira fase do projeto. Para 2007, estão previstas mais 120 mil vagas em 200 cursos da licenciatura ao mestrado.

A formação de professores a distância não é um consenso entre os educadores. O professor Roberto Leher, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, considera essa política desarticulada e frágil, pois não proporciona a transferência de conhecimentos necessária para melhorar a qualidade da educação. “Ensino de professores à distância é a institucionalização do apartheid”, protesta. Mas a aposta do governo na UAB é uma imposição da realidade. Não há recursos nem instalações suficientes para capacitar todo o contingente de professores no médio prazo, de forma que seja possível cumprir as metas de qualificação previstas no Plano Nacional de Educação.

De acordo com Mota, a UAB é uma ponte que liga o ensino superior ao ensino básico, tentando liberar dois gargalos ao mesmo tempo. O acesso aos cursos universitários por pessoas que dificilmente teriam condições ou tempo para se dedicar integralmente ao aprendizado e a melhoria da qualidade do ensino das crianças e jovens brasileiros. Com isso, as escolas estarão preparando melhores profissionais e haverá maior oferta de cérebros para o desenvolvimento da nação. “O plano é a formação de capital humano. O que foi o Ministério da Fazenda, no passado, e o do Desenvolvimento, no presente, será o Ministério da Educação, no futuro”, prevê Mota. “Se o Brasil não formar recursos humanos, está perdido. Se não criarmos um novo perfil de profissional, não vamos chegar a um novo patamar de desenvolvimento”, conclui.

É esse tipo de aluno, que consegue entender um texto e criar uma frase que impressione até o presidente da República, que o professor Nicodemos deseja formar no interior do Maranhão. Por isso, ele incentiva seus a alunos a participarem de todos os concursos que aparecem. Alguns, como Marcelo, acabam se destacando, mas todos ganham mais consciência e senso de cidadania. “Isso tudo produz um impacto positivo na auto-estima do aluno, fazendo-o perceber que é capaz de criar, de produzir, de fazer a diferença na sua escola, na sua família, na sua comunidade. Quando nosso aluno adquire essa confiança e essa consciência ele se torna um aluno mais interessado, um cidadão mais participativo e uma pessoa melhor”. Crédito: Arquivo pessoal

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