Bienal do Livro: boa oportunidade para estimular a leitura nas crianças
Evento acontece entre 9 e 19 março no Anhembi; educadores ensinam como
agir com as crianças, de modo a criar um vínculo entre elas e o mundo da literatura.
Formar novos leitores é sempre um bom negócio, especialmente quando o hábito da leitura é cultivado desde cedo nas crianças. O setor público investe na erradicação do anafalbetismo e cada vez mais livrarias reservam espaços e promovem atividades atraentes para o público infantil. Pode-se dizer que a estratégia está dando certo: segundo dados da Câmara Brasileira do Livro, em 10 anos o lucro das editoras com a venda de livros praticamente dobrou no Brasil. Em 2004 foram mais de 280 milhões de livros vendidos, que geraram um faturamento de aproximadamente R$ 2, 477 bilhões. Na área infanto-juvenil, foram lançados 3.660 títulos e vendidos 20,8 milhões de exemplares. A 19ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece entre os dias 9 a 19 de março, é um dos principais retratos desse investimento.
No ano passado, dos 557 mil visitantes oficiais, 100 mil eram crianças cadastradas. E como crianças de até 12 anos não pagam, esse número é ainda maior. Segundo organizadores, esse ano já se esgotou o cadastro de visitas das escolas públicas e particulares à mostra. A Bienal acontecerá em menos de dois meses, mas já se sabe que 180 mil crianças, das 840 escolas cadastradas, irão circular nos corredores repletos de livros. Este aumento de 80% no número de visitantes infantis não surpreende aqueles que observam uma preocupação cada vez mais constante em despertar o interesse para a literatura nos pequenos. "Através dela, a criança tem a possibilidade de entrar em contato com diversas realidades, visões de mundo e valores", explica a psicóloga Ana Cássia Maturano.
Freqüentar livrarias e locais como a Bienal do Livro é a face mais visível da atividade de estímulo das crianças a uma cultura de qualidade. Mas não se deve ficar só nisso. "Um bom começo é o próprio modelo dos pais, valorizando a leitura e demonstrando prazer nessa atividade", diz Ana Cássia. Outras dicas simples são estimular que as crianças dêem e recebam livros de presente, ler com os filhos em momentos agradáveis e prazerosos, criar em casa um cantinho para guardar as publicações e para a prática da leitura e, muito importante, jamais colocar a atividade como punição. "A leitura contribui para o desenvolvimento das crianças porque exige delas uma atitude ativa, permitindo o exercício da criatividade, da imaginação e da livre interpretação", explica a psicóloga.
A leitura pode e deve ser estimulada na criança desde cedo. Em muitas escolas de São Paulo, isso já virou hábito. Na escola Ápice de Educação Infantil, localizada no Jardim Guedala (zona Oeste) foi desenvolvido o projeto Ser Leitor em 2005. Os pais e a comunidade puderam compartilhar com a equipe da escola a importância deste hábito na formação de crianças leitoras. A partir de então, a Hora do Conto passou a fazer parte da rotina, que pretende estimular o gosto dos pequenos pela leitura. "Além de ler para aprender, a criança pode ler por ler, como instrumento de prazer", explica Maria Rocha, diretora pedagógica da escola. Segundo ela, a partir do projeto foram organizadas bibliotecas de classe e também uma biblioteca circulante, "que favorece uma relação íntima das famílias com os livros trabalhados em sala de aula".
Os pais notam os avanços dos filhos. Para Patrícia Bernardino, mãe de Giovanna de 4 anos, o projeto Ser Leitor estimulou o interesse da filha pela leitura de livros. "Sempre que vamos ao shopping, a primeira pergunta dela é: ´Mãe, nesse shopping tem livraria?´ Ela fica horas observando e comentando sobre os livros", diz Patrícia, orgulhosa. Ela acrescenta que a curiosidade da filha para a escrita também aumentou. “Ela passou a fazer associações importantes quando vê palavras escritas”.
Para ajudar os pais na tarefa de tornar os filhos bons leitores, o mercado editorial está repleto de opções. "A faixa etária é só um indicador", ressalta a psicóloga Ana Cássia. "Antes de mais nada, é necessário observar o desenvolvimento da criança para perceber o que é mais adequado a ela, pois quanto mais nova, maior deve ser a participação do adulto em atividades envolvendo livros".
Entre um ano e meio e três anos: Para as crianças menores, é aconselhável incluir entre os brinquedos livros de papelão, plástico ou pano, contendo gravuras que permitirão a criança explorar o ambiente pelo tato e nomear os objetos.
Dos três aos seis anos: Livros só com imagens e enredos curtos são os mais indicados, já que as crianças utilizam atividades lúdicas no seu impulso de descobrir o mundo real e a linguagem nesta fase. "No material deve haver o predomínio absoluto das imagens, retratando histórias comuns relacionadas ao cotidiano da criança, que possam ter algum significado para ela", explica Ana Cássia. A especialista alerta para a necessidade de o adulto tornar a leitura interessante e incluir a criança como um participante ativo, "fazendo-a interagir com a história por meio de perguntas, por exemplo, ou pedindo que reconte a ´estória´ numa outra situação".
Dos seis aos oito anos: é nesta idade que a criança inicia o aprendizado formal da escrita. A atividade requer ainda o predomínio da imagem como ferramenta para ajudar a criança a entender o texto. Assim, as situações apresentadas devem ser simples, referir-se ao mundo maravilhoso ou cotidiano, com toques de humor e ter começo, meio e fim. Outra dica é buscar histórias com personagens bem definidos quanto ao caráter, "para evitar que a criança se confunda quanto a esse aspecto". Para uma melhor compreensão do texto nesta fase, ele deve ser breve, conter palavras de silabas simples, frases em ordem direta e elementos repetitivos.
Dos oito aos 10 anos: Nesta fase em que a criança já tem um domínio maior do mecanismo da leitura, são indicados livros contendo imagens dentro de uma relação dinâmica entre o verbal e o visual, de modo a ampliar a compreensão do texto. As frases continuam simples, porém devem ser substituídas aos poucos por períodos compostos por coordenação. Com começo, meio e fim, as histórias preferencialmente devem contar com uma situação central, a ser resolvida com toques de humor e situações inesperadas, podendo ser reais ou fantásticas. "Mais uma vez o adulto assume papel importante, não só de incentivador da atividade, mas também no pós-leitura, funcionando como um suporte frente ás dificuldades", explica Maria Rocha, diretora pedagógica da Escola Ápice.
Dos 10 aos 12 anos: O leitor já domina o mecanismo da leitura, tem maior capacidade de concentração e abstração e é capaz de compreender o mundo expresso no livro. Os textos podem ser mais densos, maiores, com uma linguagem mais elaborada, sendo as imagens dispensáveis. A psicóloga Ana Cássia ressalta que há, nesta fase, uma grande atração por confronto de idéias, por heróis humanos que lutam por seus ideais, histórias de problemas cotidianos que impedem a realização do indivíduo ou histórias de amor, por elementos desafiadores da inteligência, num contexto realista ou maravilhoso. E o adulto, qual função ocupa nessa empreitada? "Aqui o leitor já é um pré-adolescente, alguém que se sente muito forte e, portanto, dispensa a participação dos adultos, que podem assumir o papel de desafiados desse ser em ebulição", ressalta a psicóloga.
A partir dos 12 anos: Nesta etapa encontra-se o leitor crítico que, por ter um pensamento mais reflexivo e dominar plenamente a leitura, é capaz de fazer uma reflexão mais profunda do texto a da realidade. O mercado editorial para essa faixa etária é bastante amplo. "Um adolescente que foi estimulado durante sua vida para o exercício da leitura, que freqüentou boas escolas, livrarias e bienais de uma maneira positiva não terá dificuldade em saber o que ler, não só por seus interesses, mas por já estar habituado a atividades do gênero", resume Ana Cássia.