Biblioteca é tratada de maneira lúdica em espaço da Bienal
Por Paula King, do Aprendiz
A sala é escura e apertada. Desenhos rupestres, que vão do chão até o teto, cobrem as paredes. No centro, uma pessoa vestida de homem-de-neandertal (período pré-histórico da evolução humana) tenta se comunicar com a platéia fazendo gestos. Gabriela, de sete anos, observa a estranha figura com olhar atento. Matheus, oito anos, parece estar um pouco assustado. Ele nunca havia visto um homem das cavernas antes, confessa. O guia da atividade, vestido com roupa de bacharel, pergunta para o grupo de crianças: "que língua ele fala? Vocês entendem alguma coisa?". Eles respondem que não.
Minutos depois a turma da 2ª série do Ensino Fundamental da Escola Municipal Teresa Margarida de Silva e Horta, da cidade de Santo André (SP), é convidada a caminhar para uma nova sala. Desta vez mais espaçosa e interativa: tem telão e um grande mapa-múndi em um dos cantos. De trás do mapa, pessoas vestidas de sumérios, egípcios, gregos, descobridores portugueses e mulheres executivas surgem, uma por uma, para contar sobre a história da comunicação no mundo. As crianças quase não piscam.
Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, elaborada pelo Instituto Pró-Livro em 2007, de cada 4 brasileiros, 3 não têm o costume de ir à biblioteca. Dos freqüentadores, 80% são estudantes. Conforme o relatório mostrou, os leitores vão às bibliotecas basicamente durante a vida escolar - seu uso diminui de 62%, durante a educação básica, para menos de 20%, na fase adulta. Por esses motivos, o Instituto, a convite da Câmara Brasileira do Livro, criou um espaço de aprendizagem lúdico e educativo para o público de 7 a 14 anos, com o tema Biblioteca. O espaço temporário está à disposição para visitação de escolas durante a 20ª Bienal Internacional do Livro.
Dentro da sala, uma torcedora vestida com uniforme da seleção de futebol brasileira interroga os pequenos leitores: "quais são os assuntos mais interessantes? O que vocês querem ler? Quais são os personagens de livros que vocês conhecem?". Ela sorri e convida a turma para entrar em uma terceira sala: uma colorida biblioteca, onde é possível desfrutar de livros dos mais diversos assuntos e editoras.
Eliene Maria de Sá, professora responsável pela turma, conta que além de achar difícil estimular a leitura dentro da sala de aula, ela tem pouco tempo para o tema (cerca de quatro horas). "Para ajudar, as famílias precisam se envolver mais". A educadora acredita que é preciso motivar os estudantes para deter o gosto pela leitura. "Se você lê e diz que é bom, eles repetem, por que em casa eles não são muito incentivados", afirma.
Segundo a gerente de projetos do Instituto Pró- Livro, Zoara Failla, o incentivo a leitura dentro das escolas ainda é forçado. Para ela, os projetos educativos estão errados, com metodologias erradas. "Os alunos são forçados a ler, quando a leitura, na verdade, deveria ser uma ação prazerosa", diz. "Os professores precisam entender e respeitar o desenvolvimento do aluno. Não adianta forçá-lo a ler Machado de Assis se a criança ou adolescente ainda não estiver preparado", defende. Para Zoara, o aluno tem que ter a liberdade para ler e a leitura tem que cativar o leitor. E acrescenta: "as crianças gostam de ler. É preconceito dizer que elas não gostam, mas precisamos estimulá-las, só assim criaremos a cultura da leitura no país".
Zoara Failla ainda aponta para a importância da presença dos pais nas atividades escolares. Eles podem contribuir para a elevação cultural de seus filhos. "As escolas devem ser abertas aos pais para que eles possam se apropriar culturalmente do espaço", diz.
(Envolverde/Aprendiz)