03/06/2006

Banco financia educação de jovem negro

Por Alan Infante

Projeto do BankBoston, apontado como modelo pelo Instituto Ethos, arca com as despesas da formação de 21 estudantes até a faculdade.

Dentre a infinidade de coisas que fascinam ou intrigam os estrangeiros que vêm ao Brasil, um aspecto que passa despercebido por muitos brasileiros chamou a atenção de um executivo norte-americano: a ausência de negros nas grandes empresas. O visitante, então diretor do BankBoston, quis saber por que isso acontecia em um país onde quase metade da população era formada por pretos e pardos. A resposta demorou, veio só um ano depois, mas na forma do que o Instituto Ethos considera o primeiro projeto de ação afirmativa do Brasil.

Chamado de Geração XXI, o projeto foi concebido para dar ensino de qualidade a 21 adolescentes negros de baixa renda, para que eles tivessem chances de conseguir uma colocação no mercado de trabalho. “Nós percebemos que a maioria dos negros não tinha a formação necessária para passar nos processos seletivos das grandes empresas. Então, ao invés de adotarmos uma política de cotas, decidimos investir na capacitação desses jovens, para que eles pudessem disputar uma vaga em condições de igualdade com qualquer outro candidato”, conta o coordenador do programa, Sérgio Kuroda.

Desenvolvida há sete anos, a iniciativa foi apontada como modelo no relatório O Compromisso das Empresas com a Promoção da Igualdade Racial, lançado pelo Instituto Ethos. O Geração XXI é mantido pela Fundação BankBoston em parceria com a organização não-governamental Geledés — Instituto da Mulher Negra e com a Fundação Cultura Palmares, ligada ao Ministério da Cultura.

O trabalho teve início em 1998, com uma campanha de divulgação nas escolas públicas da cidade de São Paulo. Puderem candidatar-se alunos negros de baixa renda que estivessem nas últimas séries do ensino fundamental. A seleção foi feita por meio de provas de conhecimento geral e da avaliação socioeconômica das famílias, de acordo com Kuroda. “Para concorrer, os candidatos tinham que ter renda familiar de até dois salários mínimos, por exemplo”, afirma.

Os 21 jovens selecionados tinham, na época, entre 13 e 15 anos e estavam concluindo o ensino fundamental. Já em 1999, passaram a estudar em colégios particulares. “A intenção não era mudá-los de escola, mas, como percebemos que havia um gap de aprendizado, decidimos colocá-los em colégios particulares”, argumenta o coordenador. Hoje, os estudantes têm entre 19 e 22 anos e estão no ensino superior. “Infelizmente perdemos uma das jovens no ano passado, que faleceu, mas todos os outros estão fazendo faculdade e a maioria deve se formar no próximo ano”, ressalta.

Além de arcar com a mensalidade do colégio e, agora, da faculdade dos jovens, o Geração XXI oferece convênio médico e odontológico e paga uma bolsa-auxílio no valor de R$ 350 para cada um dos participantes. O orçamento anual é de R$ 850 mil por ano.

O projeto prevê a manutenção desses benefícios por nove anos, prazo que se esgota no fim de 2007, quando parte dos participantes do programa ainda não terá concluído o curso superior. “Nem todos seguiram a seqüência prevista, mas estamos estudando um plano de finalização para aqueles que não vão conseguir terminar a faculdade dentro do prazo”, diz Kuroda.

Apesar de considerar o projeto bem-sucedido e até recomendá-lo para outras empresas, o coordenador afirma que o programa restringiu-se àquela primeira turma de 21 alunos. “Foi uma decisão estratégica de acompanhar esses jovens por nove anos ao invés de criar uma nova turma a cada ano”, defende. (PrimaPagina)

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